sexta-feira, 30 de outubro de 2009

É preciso comer menos carne para salvar a Terra?






Fabrice Nicolino, autor de Bidoche, L’Industrie de la viande menace le monde (Éditions Les Liens que Libèrent), respondeu, dia 16 de outubro, às questões dos leitores do Monde.fr sobre os efeitos nocivos do aumento massivo do consumo mundial de carne sobre o meio ambiente e a saúde.

Os diálogos com Fabrice Nicolino estão publicados no Le Monde, 16-10-2009. A tradução é do Cepat.

ours: De que modo a produção de carne tem consequências sobre a mudança climática?

Fabrice Nicolino:
É uma questão complexa, mas dispomos de um documento oficial, institucional, um enorme relatório de 2006 da Organização para Alimentação e Agricultura (FAO), da ONU. De fato, trata-se de uma análise global de todo o ciclo da produção pecuária no mundo. Não somente dos animais, mas a sua alimentação, os meios de transporte utilizados [para levá-los aos frigoríficos]. Esse relatório estima que todo o gado mundial emite 18% de gás de efeito estufa de origem humana, e esse total é superior àquele que diz respeito aos transportes utilizados pelos seres humanos (carros, navios...).

Pharell_Arot: Bom-dia. Sendo um aficionado por carne, eu me pergunto sobre as condições a serem adotadas para conjugar os prazeres alimentares e o desenvolvimento sustentável. Quais são, para você, as precauções que um consumidor médio pode tomar imediatamente?

Fabrice Nicolino:
A primeira coisa é lembrar que o consumo de carne na França foi multiplicado aproximadamente por 4 desde a segunda Guerra Mundial. Nós comemos muita carne, por razões econômicas e políticas. Eu realmente não tenho conselho a dar. Minha opinião é que podemos comer muito menos carne, comer uma carne de melhor qualidade. Pessoalmente, eu como carne, mas cada vez menos, e é carne biológica, porque nesta maneira de produzir está proibido o uso em grande quantidade de produtos medicinais e químicos.

Pharrell-Arot: Há consumos de espécies menos perigosas que outras para o planeta? A de porco, por exemplo?

Fabrice Nicolino:
O pior transformador de energia é o boi. Quanto menos vegetais um animal consumir, menos o seu consumo é prejudicial para os equilíbrios do planeta. E desse ponto de vista, há uma certa hierarquia que vai do frango ao boi passando pelo suíno. O menos mal é o frango.

Herve_Naturopathe: Há um lobby francês dos frigoríficos/criadores tão importante quanto nos Estados Unidos?

Fabrice Nicolino:
Realmente creio que não. Existe um lobby da carne industrial na França, poderoso, mas que não tem nada a ver com a extraordinária importância que a “carne” tomou nos Estados Unidos. Nesse país, há uma história apaixonante por trás do lobby da carne. Um notável livro, La Jungle, publicado em 1906 por Upton Sinclair, descreve o universo dos matadouros de Chicago. É um livro belíssimo.

Nos Estados Unidos, o lobby é realmente muito poderoso; secretários de Estado da Agricultura, especialmente na presidência de Reagan, eram ex-industriais da carne. Sob as Administrações republicanas, mas não apenas, há uma espécie de consanguinidade entre políticos e o lobby da carne.

Voltando ao caso da França, sim, existe um lobby da carne, que é representado pelo Comitê de Informação das Carnes, que tem relações estreitas com a indústria da carne, seguramente, mas também com o aparelho do Estado, o Ministério da Agricultura e o maior sindicato patronal de agricultores, a FNSEA.

Romain: Que alimentos podemos utilizar para substituir a carne vermelha em matéria de contribuição nutricional e de sabor?

Fabrice Nicolino:
Não há resposta para esta questão... O sabor da carne vermelha é o sabor da carne vermelha. Eu não saberia dizer o que poderia substituir o seu sabor. No plano nutricional, por mais curioso que possa parecer, um grande número de estudos mostra que os regimes vegetarianos ou os regimes extremamente pouco carnívoros são os melhores para a saúde humana. Eu cito rapidamente um nome, conhecidíssimo nos meios da nutrição: é um norte-americano que se chama Colin Campbell. Ele conseguiu fazer um estudo comparativo da alimentação entre, de um lado, os cantões chineses e, do outro, os condados americanos. Um imenso estudo que durou vinte anos. Ele observa que o regime chinês, amplamente baseado numa dieta de vegetais, é infinitamente melhor para a saúde.

cocoparis: Você acha que é preciso reduzir também o nosso consumo de leite?

Fabrice Nicolino:
É um debate aberto e inclusive no plano científico. O que é certo é que o hiperconsumo de leite, que caminha paralelamente à industrialização da pecuária, é muito nefasto à saúde humana. Passamos de vacas bem alimentadas que produziam, em 1945-1946, em torno de 2.000 litros de leite por ano a vacas que dão 8.000, 10.000, inclusive 12.000 litros por ano.

Está claro que quando se produz estas quantidades de leite, é preciso que esse leite seja consumido na sequência. É preciso que as pessoas o bebam. Há nisso uma lógica de ferro muito constrangedora. Se é produzido, necessita de um mercado, necessita de saída. No campo da saúde, o leite não é um alimento tão bom quanto se acreditava ou se fazia crer durante muito tempo.

Apis88: Atualmente, está claramente demonstrado que os países que se enriquecem veem o consumo de carne por habitante aumentar. Esta constatação pode ser invertida?

Fabrice Nicolino
: É uma questão decisiva, uma questão chave. Existe um modelo de consumo de carne, o modelo ocidental, baseado sobre um consumo muito grande de carne. Ora, a produção de carne necessita de quantidades industriais de cereais. E as áreas agrícolas no mundo não podem ser ampliadas ao infinito. Muitos agrônomos de primeira linha se perguntam como se poderá, nos próximos anos, satisfazer este impressionante aumento da demanda de carne nos países chamados emergentes, no topo dos quais está a Índia, mas sobretudo a China, onde 200 milhões ou 300 milhões de chineses reclamam carne, porque pela primeira vez eles têm dinheiro para comprá-la e querem unir-se ao modelo ocidental.

O problema é que as terras agrícolas que permitiriam alimentar esse gado estão em falta, e parece extremamente difícil encontrar novas áreas sobre a Terra assim como está. O que eu quero dizer é que na minha opinião o modelo de consumo de carne praticado entre nós não é de maneira alguma generalizável a todo o planeta. Dito de outra maneira, me parece altamente provável que será preciso rapidamente se colocar a questão central, fundamental, do nosso modelo alimentar. Sem isso, poderemos sem dúvida passar do atual bilhão de esfomeados crônicos para talvez dois bilhões ou três bilhões em 2050.



br: Você acha que os políticos, em sua resposta à crise agrícola atual, vão levar em consideração esse fenômeno?

Fabrice Nicolino:
Claramente, não, não, não e não. Vou fazer um paralelo com a situação da França em 1965. O ministro da Agricultura do General de Gaulle chama-se Edgard Pisani. Em 1965, este fez uma turnê triunfal pela Bretanha, e declarou, sob aplausos: a Bretanha deve tornar-se uma fábrica de leite e de carne da França. É muito importante, porque vemos bem que os políticos seguem, evidentemente, objetivos, mas que por definição são objetivos políticos. Ora, nós estamos em vias de falar de questões de outra natureza, que reclamam decisões muito mais refletidas, muito mais pensadas, sobre um prazo muito maior que o tempo dos políticos. Eu acrescentaria que a ecologia, a crise ecológica e tudo o que a ela estiver associado vai impor visões, pontos de vista, decisões para as quais a classe política, de todos os espectros ideológicos, da extrema direita à extrema esquerda, não está preparada.

GrandGousier: De acordo, é preciso deter esta orgia de carne, por todas as razões inventariadas em seu livro. Mas, por onde começar? Na França, quais seriam as primeiras ações a serem tomadas, os primeiros objetivos a serem fixados?

Fabrice Nicolino:
Eu não estou aqui para dar lições a quem quer que seja. Mas como pessoa, eu penso que seria bom unir-se à construção de um movimento de consumidores como nunca se viu. Eu penso, na linha do que acabo de dizer sobre a classe política, que apesar do seu interesse e de sua valentia, os movimentos de consumidores que existem na França, por exemplo, a UFC-Que Choisir [União Federal de Consumidores, associação francesa de consumidores] ou 60 milhões de consumidores, exprimem em grande parte preocupações de outro tempo. Eu penso que seria útil e necessário para todos que nasça um movimento de consumidores que integre a crise ecológica, que é fundamentalmente uma crise dos limites físicos. E esse movimento, quando aparecer, provavelmente lançará ações coletivas contra a carne industrial. Para mim, este movimento passará necessariamente por formas de boicote.

Herve_Naturopathe: Ser “consommacteur” [consumidor comprometido] não seria a resposta? Consumir com reflexão e respeito...

Fabrice Nicolino:
Seguramente. Mas a questão é quando e como, porque já tivemos movimentos. Eu lembro do boicote dos hormônios para os terneiros em 1980, movimento lançado pelo UFC-Que Choisir. O consumo da carne de terneiro foi dividida por 6 ou 8, era muito impressionante. E o sistema se adaptou, pois se reforçou. Portanto, a questão é realmente saber como encontrar uma eficácia frente a uma indústria que está unida por fios a todos os poderes estabelecidos, quer sejam administrativos, políticos, industriais, sindicais. É uma questão que eu aplico a mim mesmo: como tornar-se “consumidor comprometido” realmente e não apenas nos propósitos.

hadadada: No futuro, deveremos parar totalmente de consumir carne?

Fabrice Nicolino:
Eu não vejo esse ponto no horizonte da minha vida. Em todo o caso, eu descobri, ao escrever o livro, que se pode viver sem comer carne. Eu realmente a ignorei. Eu creio que durante muito tempo fizemos chacota dos vegetarianos e que julgávamos, às vezes contra todas as evidências, que sua saúde era muito ruim. Alguns lobistas de que falo no meu livro lembram, para desqualificar os vegetarianos, que tanto Hitler como Jules Bonnot, o anarquista, foram vegetarianos. O que eu constatei é que se pode viver sem comer carne. Devido aos grandes equilíbrios e para enfrentar os grandes problemas que estão diante de nós, a começar pela fome, me parece vital que mudemos novamente de regime alimentar e que renunciemos a uma boa parte da carne que ingerimos a cada ano. Mas mais carne, eu não creio absolutamente nisso, eu penso que é uma questão antropológica, que leva a muitas outras. Não estou certo de que a humanidade seja realmente destinada a não mais comer carne.

cocoparis: E o que você tem a dizer aos criadores? Mudar de profissão? Tornar-se cerealistas?

Fabrice Nicolino:
É uma questão terrível. Eu gosto dos agricultores. É verdade que eu prefiro os agricultores do Sul àqueles saturados de subvenções do Norte, mas o mundo da pecuária é um mundo em que encontrei um monte de gente boa, mesmo na pecuária intensiva. Mas eu quero ser direto: eu penso que a pecuária industrial está condenada. Eu penso que a França, a sociedade francesa, contraiu uma dívida com os criadores, e uma vez que tudo foi organizado em vista da pecuária industrial, seria insuportável dizer repentinamente aos pecuaristas para que mudem de profissão. Eu penso que se deveria imaginar um plano de transição, um pouco sobre o modelo do plano de transição de saída da energia nuclear na Alemanha. Poderíamos imaginar um plano de transição de 15 anos para permitir uma aterrissagem suave, para permitir a um certo número de criadores uma retirada digna, e para incentivar os mais jovens a se lançar numa pecuária mais respeitosa dos animais, dos equilíbrios naturais, e dos seres humanos que estão no final da cadeia.

Scheatt: As transformações necessárias para um modo de vida mais sóbrio são compatíveis com a organização atual da distribuição e da pecuária?

Fabrice Nicolino:
Não, porque é preciso compreender que se trata de um sistema extremamente eficaz em seu registro, muito complexo, muito rodado, que exclui, por exemplo, todo direito dos animais a existir. Eu, com o risco de chocar alguns, sou muito sensível à sorte dos seres humanos, eu sou um humanista, mas considero que os animais têm direito à existência. Eu dediquei o meu livro aos animais mortos sem terem vivido. Num passado remoto, durante 8.000 a 9.000 anos, os seres humanos viveram um companheirismo com os animais, que era sem crueldade, sem violência e sem maus-tratos. Os animais davam sua carne, sua pele, sua força de trabalho, mas eles permaneciam seres vivos, sensíveis.

A indústria transformou totalmente os animais, a quem tanto devemos. Eu lembro que sem a existência dos animais domésticos, não teria havido civilização humana. Passamos a uma situação de industrialização em que o animal tornou-se uma coisa, uma mercadoria, um objeto de troca, de material. Eu creio que esta ruptura na história da nossa relação com os animais tira de nós uma parte considerável da nossa humanidade. Eu creio que esta maneira de tratar este “outro” que é o animal abre as portas para um caminho moral.



quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Especialista recomenda vegetarianismo contra a mudança climática


Da Efe

O mundo deveria se tornar vegetariano para combater com sucesso a mudança climática, já que o efeito estufa do gás metano liberado por vacas e porcos é 23 vezes mais potente que o do dióxido de carbono, segundo uma das maiores autoridades britânicas no assunto.



Em declarações ao jornal "The Times", lorde Stern, autor de um relatório sobre a economia da mudança climática encomendado pelo Governo do Reino Unido, disse que a pecuária destinada ao consumo de carne representa "um desperdício de água e contribui poderosamente para o efeito estufa".



Segundo números da ONU, a produção de carne é responsável por pelo menos 18% das emissões globais de CO2 no planeta. Para esta liberação, contribuem tanto a destruição de florestas para a pecuária extensiva como a produção de ração para animais.



A ONU também já disse que, caso a tendência atual se mantenha, o consumo mundial de carne poderá dobrar até 2050.



Com base nessas informações, Stern propõe que a cúpula sobre mudança climática de Copenhague (Dinamarca), marcada para dezembro, sobretaxe o preço da carne e de outros alimentos que, durante seu processo de produção, são responsáveis pela liberação de uma quantidade significativa de gases estufa.




O especialista britânico, que é vegetariano, prevê ainda que o hábito das pessoas em relação ao consumo de certos gêneros alimentícios mudará até que comer carne se tornará algo inaceitável.



"Acho que é importante as pessoas refletirem sobre suas ações, e isto também tem a ver com o que se come", diz lorde Stern, ex-economista do Banco Mundial e atual professor da London School of Economics.



Ainda segundo o especialista, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, deveria participar pessoalmente da cúpula de Copenhague, já que a liderança americana é extremamente necessária para alcance de um acordo significativo.



"Minha mensagem ao presidente Obama seria a seguinte: 'Vá a Copenhague, participe com um espírito de colaboração e leve essa mensagem ao povo americano'", declarou o cientista ao "The Times".

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Clima: a vez das comunidades locais ?


Copenhague: Uma convenção para além de ''boas intenções''?

Entrevista especial com Paulo Brack


A Convenção do Clima que acontece no início de dezembro em Copenhague, capital da Dinamarca, e as propostas de redução de metas de emissão de gases de efeito estufa representam muito mais uma “carta de ‘boas intenções’”.
A posição é defendida por Paulo Brack, na entrevista a seguir, concedida por e-mail, à IHU On-Line. Para o professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, o setor ligado ao grande capital não aceita regras e por isso o encontro em Copenhague não deve promover avanços consideráveis.

Políticas de médio e longo prazo como as sugeridas para atingir metas de emissões não servem mais, assegura o pesquisador, que sugere prazos de reavaliação de acordos mais curtos: “Talvez convenções a cada cinco anos”.

Na entrevista que segue, Brack critica ainda a atuação dos movimentos ambientais e alerta que no debate climático, empresas podem ganhar destaque com propostas para solucionar as emissões de carbono. “Quem garante que essa falsa solução de empresas não ganhe espaço em Copenhague?”, questiona.

Para ele, os movimentos ambientais devem avançar nas discussões e considerar as questões climáticas também como um problema político. “Pedir simplesmente energias renováveis e clamar que Lula vá a Copenhague é deixar o problema na superficialidade. Essas propostas, quando adotadas, são muito mais analgésicos para um problema crônico de saúde ambiental e de uma pandemia do modelo econômico de esgotamento”, constata.

Paulo Brack é o convidado do Instituto Humanitas Unisinos – IHU, e nesta quinta-feira, das 17h30min às 19h, proferirá a palestra O futuro em Copenhague? – mudanças e mudanças.

Paulo Brack é mestre em Botânica, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul e doutor em Ecologia e Recursos Naturais, pela Universidade Federal de São Carlos. Entre 2006 e 2008, foi membro da Comissão Técnica Nacional de Biossegurança – CTNBio e atualmente representa o Instituto Gaúcho de Estudos Ambientais – Ingá, no Conselho Estadual do Meio Ambiente do RS –Consema-RS.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são suas expectativas em relação à Convenção do Clima que ocorre em Copenhague?

Paulo Brack
- Creio que as expectativas ainda não são as melhores, em grande parte porque a questão está na mão dos governos. A sociedade deveria participar intensamente do processo de discussão. Mas, infelizmente está ainda muito afastada do tema. No que se refere aos principais países que coordenam estas negociações, pode-se verificar que as propostas reais, que deveriam ser ousadas ou mesmo minimamente consensuadas, não estão postas na mesa. Os governos estão distantes do real problema climático e da crise ecossistêmica que atinge a maior parte das nações e compromete nosso futuro. O quadro é muito grave, mas a doença econômica atingiu profundamente as mentes dos gerentes de nossas vidas. Ou o IPCC está mentindo, bem como os cientistas sérios da área ambiental, quando afirmam que a situação é muito grave, ou os governos estão loucos em, simplesmente, considerar somente soluções paliativas. A crise financeira, de setembro do ano passado, poderia ser uma das últimas chances para a mudança. Tudo indica que não adiantou muito. Os representantes dos governos responderam com falsas soluções, meramente econômicas de curto prazo, que acabaram incrementando o atual modelo industrial, altamente emissor de gases de efeito estufa (GEE). O governo brasileiro incrementou, por exemplo, a compra de automóveis individuais, fato que denota total insensibilidade e, ademais, vai na contramão da necessidade de se adotar as medidas mais básicas que diminuam esses gases. Então, o que esperar deles? Não dá para esperar. Vamos ter que pautar, se ainda há tempo, um processo verdadeiro e participativo para abarcar o problema.

IHU On-Line – Alguns países desenvolvidos como os EUA e emergentes como o Brasil ainda não manifestaram compromissos em assumir metas de redução das emissões de gases de efeito estufa. O que justifica e explica tal relutância? Isso tende a dificultar as negociações e a estabelecer metas concretas em Copenhague?

Paulo Brack -
O setor ligado ao grande capital, que dita os rumos econômicos dos países (desenvolvidos ou emergentes), não aceita, e nunca aceitou, regras. O Brasil, representado por seu governo, considera que as soluções para a redução dos GEE, como o CO2 e o metano, poderiam interferir no “desenvolvimento”. Assim, nossos representantes oficiais são agentes deste impasse. Ademais, perdura o tema da Amazônia, que nem de longe está bem encaminhado. E quando o governo levanta uma proposta é, justamente, para abrir caminho às “oportunidades”. Estas estão evidenciadas pelo incentivo aos agrocombustíveis, infelizmente, baseados em monoculturas, e às energias “renováveis”, ainda decorrentes da produção calcada em grandes hidrelétricas de alto impacto ambiental. O impasse brasileiro ficou manifesto quando no dia 16 de outubro, o negociador-chefe do Brasil para o assunto do acordo das emissões, Luiz Alberto Figueiredo Machado, representante do Itamaraty, afirmou que as negociações para a Conferência da ONU sobre mudanças climáticas estão em "uma fase muito difícil" e é possível que se chegue a Copenhague sem consenso e sem vontade de, realmente, mudar o quadro. Na verdade, o governo brasileiro joga a responsabilidade do problema para as nações desenvolvidas, podendo talvez assumir algum comprometimento com algumas metas de redução de emissões se houver financiamento dos países desenvolvidos para os emergentes.

IHU On-Line – Países que participam da Convenção do Clima em Copenhague falam em metas de redução de 40% até 2050. Quais são, na sua opinião, metas corajosas e de impacto para combater as mudanças climáticas?

Paulo Brack -
O secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon, fez um apelo recente em favor de ações imediatas em relação à redução das emissões. Na prática, 2050 pode ser tarde. Vamos esperar 40 anos? Isso é sério. É mais fácil, para governantes de visão imediatista, jogar o problema para o futuro. Melhor dizendo: esta proposta seria uma forma de “tocar com a barriga” para os governos que virão. E – convenhamos - as políticas de cada administração têm validade de quatro a cinco anos. Alguém conhece planos governamentais que perpassem os mandatos destes prazos curtos de seus mandatos? Deveriam ser adotadas metas onde os prazos fossem mais curtos, atingindo etapas de um processo que poderia ser reavaliado a cada cinco anos, por exemplo. Políticas de médio e longo prazo, não parecem ser algo muito verossímil nos dias atuais. É muito mais uma carta de “boas intenções”, o que não serve mais, diante do quadro grave do atual quadro climático mundial.

IHU On-Line – Em que medida as mudanças climáticas deixam de representar apenas um problema climático e transcendem para um dilema social e econômico?

Paulo Brack -
A crise climática faz parte da crise ecossistêmica. A situação socioambiental está se tornando insuportável. Exagero? Os dados de assassinatos no Brasil falam por si só. Entre as dez cidades com maiores índices de homicídios, sete estão situadas justamente na região do Arco do Desmatamento, segundo dados da OIE (Organização dos Estados Ibero-Americanos). Coincidência? Estamos destruindo a floresta amazônica e o cerrado, emitimos GEE, derivados das queimadas e do desmatamento e esta realidade está longe da pauta dos governos. A situação das grandes cidades também é de uma violência extraordinária e uma exclusão galopante. Mas, a pauta agora é a Copa do Mundo e as Olimpíadas. Temos que decifrar o que o Planeta está sinalizando. Entender isso é fundamental. Mas a circunferência da bola de futebol chama mais a atenção do que a outra, mais complexa, representada pelo planeta Terra.

IHU On-Line – Considerando a atual situação climática, econômica e social do planeta, que medidas precisam ser acordadas com urgência em Copenhague?

Paulo Brack -
Se partirmos de uma boa e sincera disposição dos governos para enfrentar o problema - o que parece não ser o caso - o acordo deveria prever uma avaliação das responsabilidades, principalmente daqueles que controlam o modelo atual de “desenvolvimento”. O Brasil, por exemplo, tem uma economia de exportação para os países mais desenvolvidos que o coloca, em parte, como refém de um setor agrícola e industrial, altamente demandante de fontes de energia que estão neste círculo vicioso da emissão do GEE. Esse é um tema que deveria fazer parte da pauta de discussão. Outra questão é que o prazo de reavaliação das metas e dos acordos deveria ser muitíssimo mais curto que os 40 anos previstos. Talvez, convenções a cada cinco anos. Porém, os acordos necessitariam incorporar a participação da sociedade. Mas isso não cai do céu. A demanda por acordos verdadeiros já está sendo apresentada, por exemplo, pelos Amigos da Terra Internacional, especialmente um grupo desta ONG no Chile, quando levantam a bandeira pela Justiça Climática e Ambiental. Creio que se poderia agregar Justiça Climática e Socioambiental. Mas isso seria viável neste sistema capitalista da globalização do “vale-tudo-econômico”? O tal MDL (Mecanismo de Desenvolvimento Limpo) já demonstrou que não é o caminho, pois, justamente, joga a questão para o Mercado Global, o grande vilão de tudo isso.

IHU On-Line – Como o senhor percebe a movimentação de grandes empresas e movimentos sociais e ambientais, por exemplo, em relação ao encontro e as propostas possíveis na Convenção do Clima?

Paulo Brack -
Bom, na minha avaliação, a situação ainda é de muita disputa. As empresas querem manter sua imagem, em parte maculada por sua responsabilização maior ou menor no assunto, e o modelo sem mudanças substanciais. Querem incrementar o MDL. E também jogam com as oportunidades de expandirem seus negócios, por exemplo, com a implantação de projetos com mega monoculturas arbóreas com fins industriais. Assim, não querem discutir a enorme contradição na implantação dos gigantescos desertos verdes de eucalipto e pinus, pois, de maneira cartesiana, mais uma vez, encontram uma “solução” para fixar carbono. Por sorte o Protocolo de Kyoto não considerou isso, mas a Bolsa do Clima de Chicago sim. Quem garante que essa falsa solução de empresas não ganhe espaço em Copenhague? Assim, as empresas estão longe de enfrentar o problema, principalmente as grandes, pois são geridas por uma lógica de acumulação ilimitada, que é inviável diante das premissas mais básicas da sustentabilidade ecossistêmica. Elas não aceitam limites, pois o capital nunca os aceitou. Por outro lado, o Greenpeace tem algumas propostas bem objetivas, muito mais técnicas. Essas, infelizmente, na minha opinião, tangenciam o real problema, que já é ecossistêmico. O problema central é político. De modelo. Não têm soluções meramente técnicas. Pedir simplesmente energias renováveis e clamar que Lula vá a Copenhague é deixar o problema na superficialidade. Essas propostas, quando adotadas, são muito mais analgésicos para um problema crônico de saúde ambiental e de uma pandemia do modelo econômico de esgotamento. Mas levantar esse problema incomoda ao sistema econômico que reina no mundo.

IHU On-Line – O REDD (Redução de Emissões para o Desmatamento e Degradação) é visto como uma alternativa importante no sentido de preservar as florestas e tem sido apontado com grande expectativa nas discussões pré-Copenhague. Essas medidas podem trazer resultados satisfatórios na redução de gases de efeito estufa?

Paulo Brack -
Diferentemente do MDL, que não considera as florestas naturais remanescentes, o mecanismo REDD propõe compensações financeiras aos proprietários que se comprometem a proteger suas florestas nativas por pelo menos meio século. Creio que o modelo de dar valor econômico para a floresta em pé, ou para o desmatamento evitado, tem que ser melhor avaliado. A proposta parece boa, mas se for realizada sem um conjunto de outras medidas que incluam, por exemplo, a proteção e o resgate da biodiversidade e a inclusão social no campo, em modelos sustentáveis, onde o latifúndio das monoculturas quimicodependentes não tenha mais espaço. Não existe um ou outro caminho isolado, ainda mais neste quadro em que o Estado está se afastando dos direitos da sociedade e tornando-se cada vez mais servil às soluções mágicas de mercado. Não existem soluções isoladas para problemas sistêmicos.

IHU On-Line – Como o senhor vislumbra a participação brasileira no encontro?

Paulo Brack -
O governo Lula já demonstrou, por inúmeras vezes, que somente atua nas demandas ambientais muito mais ambicionando uma visibilidade internacional, do que realmente representando um projeto de nação ecosoberana. Nosso diferencial, representado pela enorme biodiversidade e a sociodiversidade, inclui elementos que jazem nas pautas deste e dos governos que o antecederam. O alegado prejuízo econômico redunda de uma visão convencional e imediatista, em um “desenvolvimento”, onde o modelo é do gigantismo, ou dos EUA, ou da China. Creio que o núcleo duro do governo brasileiro, que comandará a posição do Brasil, representado pelos setores da área econômica e do desenvolvimento, está muito mais interessado nas “oportunidades” do tema, levando em conta nossa riqueza em potenciais ditos convecionalmente “renováveis” de energia (rios e biomassa), onde a biodiversidade não vale nada diante do paradigma da grande escala de produção.

IHU On-Line – Que novo modelo econômico de desenvolvimento é compatível com as mudanças climáticas?

Paulo Brack -
A pergunta é profunda demais para ser respondida por uma só pessoa e por poucas palavras. O novo modelo talvez deva ser o da compatibilidade do processo econômico da desacumulação, o que verdadeiramente é mais ecológico. O desapego a esta sociedade de consumo e acumulação é a postura mais justa e verdadeira para nos salvar desta situação. Isso faz bem à saúde mental e à saúde do planeta. Ocorre que o sistema econômico de acumulação está profundamente doente e nos arrasta para o abismo climático e socioambiental, ou ecossistêmico. Temos tempo para refletir sobre isso, pelo menos para vivermos um pouco mais felizes.

IHU On-Line – Qual é o risco para o planeta se ocorrer um atraso do acordo climático mundial em Copenhague?

Paulo Brack -
Se a questão for colocada da maneira com que é apresentada, realmente, as chances são grandes de não dar em nada, resultando em um pseudo-acordo, o que é mais provável. Talvez, as catástrofes que se avizinham, lamentavelmente, serão a oportuna mexida para acordos climáticos e sócio-ambientais mais verdadeiros.

IHU On-Line - Gostaria de acrescentar algo que considera importante?

Paulo Brack -
Ocorreu uma situação inusitada que me foi relatada há umas poucas semanas. A população de Araranguá, SC – uma das cidades brasileiras que mais sofre de eventos climáticos - participou ativamente de um debate nacional sobre o tema das mudanças climáticas, neste mês de outubro, em um evento que ocorreu no próprio município. De acordo com ambientalistas que participaram do evento, o assunto foi encarado com enorme interesse por quase mil pessoas, inaugurando, talvez, uma das demandas locais que estão tocando de perto os brasileiros de todas as cidades. Se outras cidades brasileiras trouxerem o tema das mudanças climáticas e também fizerem a ligação com o problema profundo do abuso do modelo de vida, que cria tudo isso, talvez estejamos abrindo mais um espaço, genuíno, para a busca de um outro modo de vida, mais sustentável, justo e feliz, que não se confronte com a vida.

domingo, 25 de outubro de 2009

Apropriação da vida


Guerra de patentes no fundo do mar


Os cientistas se lançam no registro de organismos dos oceanos para desenvolver aplicações médicas ou energéticas. Mas a apropriação de elementos da natureza é vista como uma nova biopirataria.

A reportagem é de Mónica López Ferrado e publicada no jornal El País, 20-10-2009. A tradução é do Cepat.

Nos mares e oceanos, milhões e milhões de microorganismos diminutos, que não chegam a medir nem micra [plural de micron, milionésima parte de um milímetro], são responsáveis por mais de 80% de processos como o ciclo do CO2, a captação de energia ou a mudança climática. Isso sem perder de vista seu papel na cadeia alimentar. Um litro de água marinha pode conter ao menos 25.000 tipos de micróbios. Nos mares mais ricos até 100.000, alguns com propriedades fantásticas como a bioluminiscência ou toxinas para sobreviver. Entender sua complexidade não apenas pode dar respostas a questões tão importantes como a origem da Terra, sua grande biodiversidade ou a mudança climática. Também tem um grande potencial comercial para criar novos medicamentos ou biocombustíveis. As patentes sobre a vida produziram um grande debate em terra firme que agora se reproduzir mar adentro.

Atualmente, não é permitido patentear organismos vivos. Contudo, agora, as novas tecnologias se sequenciamento tornaram acessível a caixa preta destes bichos: seu DNA. O funcionamento de um gene, ou vários, pode converter-se na engrenagem de bactérias artificiais a serviço da humanidade, postas a trabalhar para criar energia ou tratar doenças. E isso é possível patentear.

Visto este potencial, cada vez são mais numerosas as expedições científicas e comerciais (ou ambas, às vezes) que se adentram nos ecossistemas aquáticos do planeta à pesca de novos genomas. De fato, nos últimos seis anos foram registradas mais da metade das patentes relacionadas com recursos genéticos marinhos. Diante disso, os países que contam com uma riqueza marinha pedem regras claras. Muitos já tiveram que lutar contra a biopirataria terrestre, como aconteceu com o México e a tentativa norte-americana de patentear o feijão. Ou no Equador, com uma variedade de ayahuasca. Se as bactérias que são descobertas nessas expedições forem encontradas em águas territoriais (200 milhas da costa), o Convênio para a Biodiversidade da ONU reconhece a soberania dos países sobre seus recursos genéticos. E sobre as sequências de seus genes?

Sem dúvida, a expedição com maior potencial neste campo é a do Sorcerer II, uma iniciativa de Craig Venter, pai do genoma humano, que começou em 2003 e que já rastreou as águas de meio continente. Seu objetivo científico, e sem fim comercial segundo insiste em seus aparecimentos, consiste em desentranhar o metagenoma dos mares (seus microorganismos, seus genes e como interagem). Ninguém está alheio a que entre suas atividades mais lucrativas está a de criar vida artificial com bactérias com poucos genes, mas funções bem concretas. Segundo o próprio Venter, sua expedição ambiciona ser tão revolucionária quanto o foram, na sua época, as descobertas de Charles Darwin. Já detectou seis milhões de novos genes. Na revista Science publicou o metagenoma de um mar inteiro, o Mar de Sargazos.

Atualmente, o Sorcerer II se encontra ancorado entre Valência e Barcelona, à espera das licenças estipuladas pela Convenção sobre Direito do Mar da ONU. No começo de novembro sua equipe científica também se reunirá com pesquisadores do CSIC [Conselho Superior de Pesquisas Científicas] na Espanha, da Itália e da Grécia. Robert Friedman, à frente da expedição do Instituto Venter, insiste em que “a intenção é avançar no conhecimento científico da biodiversidade microbiana”. Como garantia de que suas descobertas não serão monopolizadas pela empresa de Venter, Friedman explica que a sequência do DNA de todos os microorganismos descobertos se encontra à disposição pública e gratuita em uma base de dados, Camera. Além disso, com os países que o solicitaram foram assinados acordos explícitos regidos pelo Convênio da Biodiversidade da ONU e que garantem a sua soberania sobre os recursos genéticos. Isso sim, todos são diferentes. No caso da Costa Rica ou do México, supõe um mero reconhecimento de sua soberania sobre os recursos genéticos, mas não estipula nenhum direito de propriedade intelectual. Na Austrália, o acordo é mais específico: “Todos os direitos de propriedade intelectual em relação com os materiais ou qualquer derivado, incluindo a propriedade intelectual resultante (direta ou indiretamente) do uso destes materiais ou qualquer derivado, investimentos ou outros usos”, explica Friedman. “Se um país pede para assinar direitos de propriedade intelectual, o fazemos”, acrescenta.

Na prática, a expedição cumpre com as normas internacionais, mas o que representa tornar públicos todos os recursos genéticos para os países que não assinaram um acordo claro sobre sua exploração comercial? É certo que a lei de patentes não permite que os genes em si mesmos sejam patenteados. Mas seus usos e derivados. Em consequência, se não há um acordo explícito, o país em questão terá dificuldades para reclamar benefícios sobre a exploração de bactérias únicas encontradas em suas águas.

Para aqueles que criticam a expedição de Venter, colocar o sequenciamento genético à disposição de todos não significa estar em igualdade de condições. O genoma é apenas um mapa. É a tecnologia para interpretá-la que faz com que se possa tirar um proveito comercial. “Em outro mundo, estaria bem, mas a realidade é que para interpretar toda essa informação genética são necessárias ferramentas disponíveis apenas por alguns países ricos, ou seja, podem usar a informação apenas aqueles que tiverem meios para interpretá-la. Para nós, trata-se de uma estratégia, não de autêntica forma de democratizar: é melhor colocar a informação à disposição de todos para que assim ninguém me critique”, afirma Silvia Ribeiro, representante da organização não governamental ETC Group, uma das que lutou de forma mais ativa contra a biopirataria e, precisamente, a que mais desconfia da atividade de Venter.

Mas nem todos veem atrás de Venter a sombra ampliada da biopirataria. Também há pesquisadores que percebem a situação como uma oportunidade para a ciência autóctone de cada país, caso se estabeleça o marco adequado. Muitos cientistas buscam microorganismos no mar há muito tempo e com muitas dificuldades. Não perdem de vista que pouquíssimos no mundo têm o potencial de sequenciamento de Venter. Não é estranho que outra das estratégias que Venter aplicou para adentrar-se no mar seja envolver os cientistas da região a ser explorada.

Entretanto, nas primeiras expedições não foi assim. Na Costa Rica, por exemplo, foi assinado um acordo pelo qual se pactuou a participação dos pesquisadores autóctones. Algo que Giselle Tamayo, coordenadora de bioprospecção do InBio, o maior centro de pesquisa em biodiversidade do país, vê como uma oportunidade perdida. “O convênio de biodiversidade é um marco. Se não pedes nada, perdes tudo. Nesta negociação não se pediu mais do que o custo da permissão e não se tirou o proveito que se poderia ter tirado. Se nos tivessem consultado (seu Governo), teríamos dito ‘sim, vamos em frente’, mas com condições, com a nossa participação para assim poder aprender, e com a informação que já coletamos, que teria permitido recolher dados nas zonas onde sabemos que há maiores possibilidades de futuro”. Tamayo está consciente do potencial de suas águas: “Ninguém perde de vista que, mesmo que a expedição seja científica, também pode ter um interesse comercial, mas se colaborarmos ambas as partes podem se beneficiar”.

Para os pesquisadores espanhóis, colaborar com Venter representa uma injeção de recursos importantes. Os pesquisadores do Instituto de Ciências do Mar de Barcelona do CSIC ainda têm que negociar os termos da colaboração com o Sorcerer II pelo Mediterrâneo. Não será a primeira vez que trabalham com o Instituto de Venter que, para os pesquisadores espanhóis, também representa uma oportunidade. “Para mim, Craig Venter é um gênio, há pouquíssimas pessoas que têm essa visão excepcional. Estamos encantados com a quantidade de dados que colocou à disposição pública, sua influência vai ser determinante”, afirma Carles Pedrós-Alió, pesquisador do centro encarregado dos contatos com a expedição.

O Instituto Venter já se encarregou de sequenciar os genomas de duas bactérias heterotróficas descobertas pelo Instituto de Ciências do Mar na baía de Blanes. Para sobreviver, extraem a sua energia do consumo de matéria orgânica, mas também da luz. “Poderiam ser comparadas aos carros híbridos, que funcionam em parte com eletricidade e em parte com combustível. Interessa-nos o gene para utilizar a luz”, explica Pep Gasol, um dos pesquisadores do centro. Procedem da baía de Blanes. “O acordo com Venter era que contaríamos com a sequência das bactérias com exclusividade durante meio ano para poder publicar resultados”, explica Carles Pedrós-Alió, pesquisador principal do projeto. Os pesquisadores estão satisfeitos com o fato de terem publicado suas descobertas na revista Nature e na PNAS. “Por isso, acreditamos que Blanes é o primeiro ponto do Mediterrâneo que Venter deveria explorar”, afirma Gasol. Qual é o potencial comercial do genoma desta bactéria? Talvez poderia ser utilizado em processos energéticos. Patentes? Elas não existem. “Nosso interesse é conhecer os organismos do mar”, afirma Pedrós-Alió.

Esta posição contrasta com a de outros pesquisadores com uma visão mais protecionista: “Há muitos cientistas que pensam que todos os recursos genéticos pertencem à humanidade, que não estão limitados pelas fronteiras de um país. Aqui cremos que um país deve ter o direito de decidir o que fazer com seus recursos genéticos e a ser reconhecido”, afirma Tamayo. Seu centro trabalha com genes presentes nas bactérias do trato intestinal dos cupins, o que permitiria aproveitar melhor a energia. Neste caso, contam com um acordo com uma empresa norte-americana que Tamayo reconhece como “vantajoso para o nosso país e para eles”. Em última instância, todas estas descobertas, realizadas com fundos públicos, também podem impulsionar o I+D do país colaborador, e reverter no financiamento de novos projetos públicos.

Outra expedição europeia, o Projeto Mamba, com participação espanhola através do Instituto de Catálise e Petroquímica do CSIC, que busca explicitamente princípios ativos para aplicações médicas nos microorganismos marinhos. Mas enquanto Venter explora águas superficiais, o projeto se centra em fossas do Mediterrâneo que se encontram a mais de 3.500 metros de profundidade, localizadas no Golfo de Rosas, na Líbia e Sicília. Ali se concentram altos níveis de sal, acumulado ali há milhares de anos, quando o Mediterrâneo secou. Nestas zonas se acumula um quilo de sal por litro de água, explica o pesquisador do CSIC Manuel Ferrer. “Ali vivem microorganismos extremófilos, muito interessantes por seu metabolismo, já que são capazes de produzir enzimas interessantes para a biomedicina”, acrescenta.

Neste caso, oito centros públicos colaboram com três empresas privadas. Entre elas, a Pharmamar. “Uma expedição custa entre 30.000 e 40.000 euros por dia. Nossas expedições duram não mais de três semanas e custam meio milhão de euros”, explica. Nesse sentido, Ferrer reconhece o potencial de Venter, que para terminar seu projeto conta com o financiamento da Fundação John e Betty Moore (mais de quatro milhões de dólares) e do Departamento de Energia dos Estados Unidos (outros 12 milhões). As amostras recolhidas são enviadas aos laboratórios de Venter nos Estados Unidos, que têm potencial para produzir 240.000 sequências a cada 24 horas.

Além da relevância científica que, evidentemente, a descoberta de uma nova bactéria tem, dá-se um passo a mais na exploração do potencial comercial destas bactérias? Ferrer indica que aí está o interesse de colaborar com a indústria. No Projeto Mamba ainda não se acertou os termos da divisão dos direitos das possíveis patentes que surgirem entre o sistema público e as empresas privadas. Por suas outras experiências, Ferrer indica que “as empresas costumam querer levar entre 98% e mesmo 100% dos royalties. Este é um problema pelo qual se deve lutar, mas tivemos que passar por aí porque o pesquisador necessita desse dinheiro”.



sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Uma ilha sem estrangeiros, sem câmeras e sem problemas


A política xenófoba praticada pelo ministério do interior italiano, através do ministro Roberto Maroni, da Liga Norte, provoca abandono de centro de refugiados em Lampedusa (Itália).

A reportagem é de Stefan Troendle e publicada no sítio Deutsche Welle, 21-09-2009.

O lema do ministro italiano do Interior, Roberto Maroni, é evitar que refugiados cheguem a território italiano. Pequenas embarcações conseguem, apesar da política do governo, aportar na Itália, mas os passageiros estão sendo discretamente transportados para a Sicília, passando ao largo das observações da mídia.

As associações que o nome Lampedusa até agora desencadeavam se deviam ao superlotado campo de admissão de refugiados situado no centro da ilha. Um campo que, na verdade, já havia se tornado quase num pequeno povoado. Até há pouco, praticamente todo imigrante ilegal que chegava à Itália era levado para esse centro, onde permanecia pelo menos por alguns dias.

Às moscas

No ano passado, 31 mil refugiados passaram por ali. Hoje, o centro se encontra vazio. No início de junho último, os últimos habitantes do campo foram removidos, e agora não há mais nenhum imigrante ilegal em Lampedusa.

"É surreal. Não encontro outras palavras para descrever. Durante muito tempo, havia 1.500 pessoas aqui. E agora só nós. Parece completamente diferente", resume Paola Silvino, vice-diretora do centro. Silvino lembra, por exemplo, o mês de outubro de 2008, um momento em que o número de refugiados em Lampedusa atingiu seu ápice. "Outubro foi um mês recorde, com a chegada de incontáveis embarcações. Em alguns dias, tivemos aqui mais de duas mil pessoas. Foi um desses meses todos se acotovelavam por aqui", conta Silvino.

Apreensões em alto-mar

A vice-diretora do centro não cita oficialmente as razões pelas quais o campo se encontra agora vazio, embora elas sejam óbvias. O ministro Maroni, da Liga Norte, partido italiano de extrema direita, quer assim provar o sucesso de sua política xenófoba para refugiados.

Desde maio deste ano, ele ordena que as embarcações de refugiados sejam apreendidas em alto-mar e que dali sejam levadas à Líbia, antes que qualquer passageiro tenha posto os pés na Itália e adquira, assim, a possibilidade de requerer asilo.

A Itália, desta forma, transgride a Convenção para Refugiados de Genebra. Além disso, Lampedusa é um dos pontos nevrálgicos nessa questão. Se dali não saem imagens de refugiados para serem divulgadas pela mídia, isso significa, na lógica que Maroni vende como bem-sucedida, que não há mais refugiados no país.

Deportação imediata

Apesar disso, ainda há imigrantes que conseguem chegar ao país por via marítima, mesmo que em número bem menor do que no ano passado. Estes, no entanto, não estão mais sendo levados a Lampedusa, mas sim a Porto Empedocle, na Sicília, ou a outros lugares, quando não são deportados de imediato.

Os funcionários do campo de acolhimento em Lampedusa não têm alternativa exceto esperar. "Estamos sempre a postos, nossos funcionários estão aqui 24 horas por dia. Da administração até as assistentes sociais, passando pelos trabalhadores especializados, para nós nada mudou. Garantimos uma prestação de serviços em potencial, pois, no momento, não há nenhum imigrante ilegal aqui. Mas estamos prontos, caso chegue alguém", descreve uma funcionária.

Protestos veementes

Outra razão pela qual Lampedusa deixou de ser centro de admissão de refugiados foram os protestos furiosos na ilha. No início do ano, o governo italiano quis concentrar ali todos os refugiados que chegavam ao país por via marítima (chamados de boatpeople), até que estes fossem deportados, o que desencadeou um estado de emergência na ilha.

Os moradores de Lampedusa foram às ruas protestar e no campo superlotado houve uma revolta no dia 18 de fevereiro, quando refugiados queimaram colchões e provocaram um incêndio, destruindo o prédio principal.

Hoje, já está tudo consertado, conta Paola Silvino. "Está tudo reconstruído, do jeito como era antes. Os trabalhos estão quase encerrados e todas as instalações prontas para serem usadas de novo. O prédio tinha sido completamente queimado e teve, por isso, que ser construído de novo."

Embora tudo indique que as instalações irão permanecer vazias, pelo menos a médio prazo. Parecem ter sido completamente deixados de lado, mesmo que não oficialmente, os planos de ampliação para um segundo campo de deportação, a ser construído numa caserna da Marinha desativada na outra extremidade da ilha.

Fechado para sempre?

Os prédios, todos em decadência, ainda estão sendo vigiados por três soldados, com alguns cães de guarda ao redor, embora não haja mais nenhum sinal de uma reforma em andamento. No campo de admissão na ilha, há oficialmente lugar para 850 pessoas. A vice-diretora Paola Silvino não sabe dizer quanto tempo essas instalações ainda permanecerão vazias, se algum dia serão reocupadas ou se serão até mesmo fechadas para sempre.

Apenas de uma coisa ela se diz certa: da qualidade dos serviços prestados ali. Para os funcionários do campo de acolhimento, a postura xenófoba do ministro do Interior, que afirmou publicamente que o país deveria "ser mau" com os refugiados, não tem vez em Lampedusa, garante Silvino. "Aqui nunca ninguém foi maltratado. Sempre tentamos fazer o melhor que podíamos para tratar essas pessoas da forma mais digna possível", resume.






quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Uma Abordagem Ética à Proteção Ambiental



Ensinamentos: Uma Abordagem Ética à Proteção Ambiental

Por S.S. O Dalai Lama





A paz e a vida na Terra estão ameaçadas por atividades humanas não compromissadas com valores humanitários. A destruição da natureza e seus recursos é resultado da ignorância, da cobiça e da falta de respeito pelos seres vivos, incluindo nossos próprios descendentes. As gerações futuras herdarão um planeta extremamente degradado, caso a paz mundial não se efetive e a destruição da natureza continue nesse ritmo.

Nossos ancestrais viam a Terra como rica e generosa, o que ela realmente é. Muita gente no passado também via a natureza como inexaurivelmente sustentável. Está comprovado que caso cuidemos bem da Terra, ela pode ser efetivamente uma fonte inesgotável de recursos.

Não é difícil perdoar a destruição causada à Terra no passado, fruto da ignorância. Hoje, contudo, temos fácil acesso a todo o tipo de informação e é essencial que examinemos eticamente o que herdamos, quais são nossas responsabilidades e o que passaremos para as gerações vindouras. Muitas dessas gerações poderão não conhecer habitats, animais, plantas, insetos e microorganismos da Terra. Temos a capacidade e a obrigação de agir e devemos fazê-lo antes que seja tarde demais. O mesmo cuidado que temos em cultivar relações pacíficas com nossos semelhantes, deve ser estendido ao meio ambiente.

E não apenas por uma questão moral ou ética, mas pela nossa própria sobrevivência. Para a geração presente e para as futuras, o meio ambiente é fundamental. Se o explorarmos exaustivamente, podemos receber algum benefício hoje, mas, a longo prazo, sofreremos as conseqüências. Quando o meio ambiente se altera, as condições climáticas também se alteram e, por conseguinte, nossa saúde está sendo muito afetada. Repetindo, a conservação não é meramente uma questão moral, mas sim da nossa própria sobrevivência.

Portanto, para conseguirmos proteção e conservação ambiental mais eficazes, é essencial que o ser humano desenvolva um equilíbrio interno. O desconhecimento em relação à importância da preservação do meio ambiente causou graves danos à humanidade. Precisamos agora ajudar as pessoas a compreenderem a necessidade urgente da proteção ambiental para a nossa sobrevivência.

Se você quer ser egoísta, então seja sábio e não mesquinho em seu egoísmo. A chave está no nosso senso de responsabilidade universal. Essa é a verdadeira fonte de luz, a verdadeira fonte de felicidade. Se esgotarmos tudo o que estiver disponível na Natureza, como árvores, água e sais minerais, e não fizermos um planejamento adequado para as próximas gerações, para o futuro, certamente estaremos em falta. Entretanto, se tivermos um verdadeiro senso de responsabilidade universal como força motriz, nossa relação com o meio ambiente e com nossos vizinhos serão bem mais equilibradas.



Por último, a decisão de salvar o meio ambiente deve brotar do coração do homem. Clamemos a todos para que desenvolvam um senso de responsabilidade universal fundamentado no amor, na compaixão e na clareza de consciência.

(Texto extraído da obra A Policy of Kindness, Snow Lion Publications, 1990.)

O viver junto com o outro é uma das grandes questões do século XXI



Duas semanas depois de a França ter fechado a "selva" de Calais, refúgio de 800 imigrantes ilegais a caminho da Grã-Bretanha, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) divulgou uma verdadeira acusação contra as políticas anti-imigratórias. Apresentado nesta segunda-feira (5), o relatório anual do Pnud é inteiramente consagrado a este tema, sob o título explícito "Levantar as barreiras, migração e desenvolvimento humanos".

Catherine Wihtol de Wenden, diretora de pesquisa no Centro de Estudos e Pesquisas Internacionais, que acaba de publicar A Globalização Humana, depois do recente Atlas Mundial das Migrações (editora Autrement), também acredita que os governos estão no caminho inverso ao privilegiar a abordagem da segurança.

A pesquisadora concedeu entrevista à Grégoire Allix do Le Monde, 11-10-2009, reproduzida pelo Uol Notícias Internacional com tradução de Eloise De Vylder.

Eis a entrevista.

Por que podemos falar da globalização das migrações?

Quase todas as regiões do mundo estão agora preocupadas seja com saída, seja com a recepção, seja com o trânsito de migrantes. É uma revolução considerável. Em menos de vinte anos, o mundo entrou em movimento. Mas este período de mobilidade generalizada não traduz necessariamente uma migração de povoamento. Muitos migrantes desejam a mobilidade como modo de vida. A mobilidade é valorizada pelos mais qualificados, pelos mais ricos, mas os pobres também a aspiram. As pessoas não aceitam mais a fatalidade de nascer em um país pobre, mal governado, sujeito a riscos climáticos.

Em que isso obriga as sociedades a evoluir?

Esse fenômeno diz respeito a viver junto com o outro, ou seja, a própria definição de cidadania. Os países europeus vivem há pouco tempo a experiência desse multiculturalismo, que conduziu os Estados Unidos, o Canadá e a Autrália a redefinirem sua cidadania durante os anos 60. O viver junto com o outro é uma das grandes questões do século 21: todas as sociedades estarão envolvidas com a migração. Isso também é verdade no sul: o Marrocos, o México, a Turquia ainda são países de saída, mas também passaram a ser países de recepção e trânsito. Há uma confusão de status dos países, mas também das categorias de migrantes. Ao longo de sua vida, uma pessoa pode ser um imigrante ilegal, um trabalhador qualificado, um refugiado.

Por que essa evolução é tão dolorosa para a Europa?

A Europa tem dificuldades para aceitar que é um continente de imigração. Ela até hoje não integrou o fato de ter se tornado uma região de recepção, porque ela foi por muito tempo uma região de saída de emigrantes. De repente, ela se tornou uma terra não somente de imigração - depois da 2ª Guerra Mundial -, mas de povoamento. Os imigrantes passaram a fazer parte da população dos países europeus. Há um sentimento por parte de certos grupos de opinião de que a Europa está perdendo sua identidade. A imigração é vista de uma forma defensiva, daí a tensão quanto ao controle de fronteiras, os clandestinos, etc.

Portanto, o Pnud afirma que a imigração beneficia os Estados...

Sim, é o que todos os estudos mostram. Mas os países só ganham se os imigrantes tiverem seu status reconhecido, se pagarem as contribuições sociais, consumirem, enviarem dinheiro para seus parentes... E não se tiverem de se esconder o tempo todo. Ainda assim, na maior parte dos países desenvolvidos, os menos qualificados, aqueles que têm os trabalhos mais duros, são ilegais. É urgente desenvolver um estatuto do imigrante. Isso faz muita falta no mundo de hoje. As mobilidades não são acompanhadas, elas são impedidas. Em matéria de saúde, de meio ambiente, os governos escutam as recomendações dos especialistas. As migrações são o único domínio onde os Estados fazem sistematicamente o contrário daquilo que todos os especialistas preconizam.

É possível que haja um direito universal à mobilidade?

Isso está progredindo. É uma diplomacia paralela, proposta pelas Nações Unidas no fórum mundial sobre a migração e o desenvolvimento, que se reunirá pela terceira vez em Atenas em novembro. Colocaremos na mesma mesa não só os países de acolhimento, até agora os únicos que decidiram as políticas migratórias, mas também os países de saída, os empregadores, os sindicatos, as ONGs... A convenção das Nações Unidas sobre os direitos dos trabalhadores migrantes só foi assinada por quarenta Estados, todos do terceiro mundo. Os países de acolhimento têm muita dificuldade em aceitar que devem adotar uma posição em comum, como em matéria de clima.

Isso não acontece porque o direito à mobilidade coloca em questão o modelo de Estado-nação?

Sim, de fato. O grande perdedor com essa mobilidade é o Estado, em sua tentativa de impor sua soberania sobre o controle das fronteiras, sobre a definição da identidade nacional. Os governos resistem muito fortemente, confortados por suas opiniões públicas mais conservadoras. Durante o endurecimento recente das políticas migratórias, houve o efeito da crise econômica, é claro, mas também o fato de que consideramos as migrações, antes de mais nada, como uma questão de segurança. Nós criminalizamos a migração, em detrimento da abordagem econômica e social que prevalecia antes.


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segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Lester Brown: ''O que se necessita é de liderança''




Lester Brown diz que, às vezes, seus pontos de vista parecem extremos porque a grande maioria dos meios de comunicação dominantes não entende a urgência e os desafios que impõe o catastrófico fenômeno da mudança climática. “Não podemos nos dar ao luxo de deixar que o planeta esquente muito mais”, afirma. Após trabalhar como fazendeiro no Estado de Nova Jersey (EUA), na década de 60 entrou para o Serviço Civil, convertendo-se em um especialista em políticas agrícolas ates de fundar o Worldwatch Institute, em 1974.

A reportagem e a entrevista é de Stephen Leahy, da IPS, e publicada pela Agência Envolverde, 08-10-2009.

Ganhador de muitos prêmios e títulos honoríficos, Brown é autor de 50 livros. Em 2001 fundou o Earth Policy Institute, com sede em Washington, do qual é presidente, para traçar um mapa do caminho para uma economia ambientalmente sustentável. A IPS conversou com Brown sobre seu novo livro, “Plan B 4.0: Mobilizing to save civilization” (Plano B 4.0: mobilizar para salvar a civilização). Trata-se da quarta versão, e talvez a mais urgente, da série “Plano B”, que pode ser acessada no site do Instituto na Internet.

Eis a entrevista.

Em seu novo livro você reclama redução de 80% nas emissões de carbono até 2020. Isso é muito mais do que qualquer país propôs até agora.

Os líderes políticos se fixam na magnitude que deveria ter a redução das emissões para ser politicamente viável. No Earth Policy Institute, entretanto, avaliamos quanto é preciso para evitar os efeitos mais perigosos da mudança climática. As enormes plataformas geladas da Groenlândia e da Antártida ocidental já estão derretendo em ritmo acelerado. Se derreterem completamente, isso elevará em 12 metros o nível do mar. Os glaciais de montanha estão diminuindo em todo o mundo e correm risco de desaparecer, incluídos os das montanhas da Ásia, onde o derretimento dos gelos alimenta os principais rios do continente durante a estação seca. Para estabilizar o clima e manter o futuro aumento das temperaturas globais em um mínimo, precisamos manter a concentração de dióxido de carbono em 400 partes por milhão.

É possível semelhante redução das emissões?

Exigirá uma mobilização mundial própria de tempos de guerra. Primeiro, investir em eficiência energética nos permitirá impedir o aumento da demanda mundial por energia. Deixar de usar diodos emissores de luz e passar a sensores inteligentes como os detectores de movimento, o que pode reduzir em 90% a quantidade de eletricidade utilizada em iluminação. Depois, podemos reduzir em um terço as emissões substituindo os combustíveis fósseis por fontes de energia renovável na produção de eletricidade e calor. Em poucos anos, o Texas vai quadruplicar sua produção de energia eólica para oito mil megawatts. E pretende aumentar para 40 mil MW, o equivalente a 50 centrais alimentadas a carvão.

Reduções adicionais de 14% nas emissões seriam conseguidas reestruturando nossos sistemas de transporte e diminuindo o uso de carvão e petróleo na indústria. Acabar com o desmatamento em todo o mundo pode representar redução de mais 16%. Por último, plantar árvores e manejar solos para capturar carbono pode absorver outros 17%. Nenhuma dessas iniciativas depende das novas tecnologias. Sabemos o que é necessário fazer para reduzir em 80% as emissões de dióxido de carbono até 2020. e tudo o que se precisa agora é liderança,.

A maioria das pessoas, incluídos os líderes políticos, não parece ter nenhum senso de urgência ou perigo a respeito da mudança climática. O que motiva esta proposta de mobilização “de guerra”?

A mudança já está ocorrendo e se acelerando. As emissões de carbono nos Estados Unidos baixaram 9% este ano, e não apenas pela recessão. Duvido que no futuro se construa uma nova usina elétrica movida a carvão neste país: somente neste anos, 22 serão fechadas ou reconvertidas. Quando o aumento do nível do mar for mais evidente, as pessoas agirão. Isto é algo semelhante à queda do Muro de Berlim, em 1989. houve anos de descontentamento generalizado antes dessa queda, e depois, aparentemente da noite para o dia, se produziu uma revolução política que mudou tudo. Esmos nos movendo para esse tipo de ponto de inflexão.

Quais outros sinais de que o planeta está chegando a esse ponto de inflexão?

Vejo uma mudança nos padrões de socialização. Em uma época, obter a licença para dirigir ou possuir um automóvel era a chave para a interação social dos jovens. Isso está mudando. No Japão, a socialização agora acontece via Internet e as vendas de carros novos estão em queda. A frota automobilística diminui, inclusive nos Estados Unidos, e aumenta o uso de bicicletas.

Também vejo muito busca por valor: quais são os efeitos na saúde do uso de automóveis e do estilo de vida baseados no traslado contínuo? Como podemos construir ruas completas com passeios e ciclovias que sejam seguras para todos? A crise econômica também mudou o pensamento. Creio que surgiremos como uma sociedade muito menos materialista.

Isso será suficiente para reestruturas as economias mundiais?

Não sei. No final, a corrida para salvar a civilização é entre os pontos de inflexão sócio-econômicos e os naturais.

sábado, 17 de outubro de 2009

Dieta saudável pode ajudar a reduzir o consumo de energia e de alimentos nos EUA






Estudo constata que uma dieta saudável e um regresso à agricultura tradicional podem ajudar a reduzir o consumo de energia e de alimentos nos EUA.

A notícia é de Henrique Cortez e publicada por EcoDebate, 30-09-2009.

Estima-se que 19 por cento do total da energia utilizada nos EUA é consumida na produção e distribuição de alimentos. A energia norte-americana é, majoritariamente, de origem fóssil, cada vez mais cara e escassa, além de ser a principal fonte de emissão de carbono nos Estados Unidos.

No estudo “Reducing energy inputs in the US food system“, publicado na revista Human Ecology, David Pimentel e seus colegas da Universidade de Cornell, em Nova York, apresentam uma série de estratégias que poderiam cortar o consumo de energia fóssil utilização na produção e distribuição de alimentos em 50 por cento .

O primeiro argumento é que as pessoas comam menos, especialmente considerando que o americano médio consome um número estimado de 3747 calorias por dia, contra um consumo recomendado de 1200-1500 calorias. A alimentação do americano médio, é, tradicionalmente, baseada em dietas com quantidades elevadas de produtos de origem animal e de alimentos processados, que, pela sua natureza, utilizam mais energia do que a necessária para a produção de alimentos, como a batata, arroz, frutas e legumes.

Só pela redução de consumo de produtos de origem animal já teria um enorme impacto sobre o consumo de combustível, bem resultaria na melhora da sua saúde.

Outras economias são possíveis na produção de alimentos. Os autores sugerem que se produzam no sentido mais tradicional, a agricultura biológica ou agroecológica, métodos mais convencionais, que demandam menos energia. A seleção de culturas mais eficientes também reduziria a utilização de adubos e pesticidas, aumentando da utilização de estrume e observando as rotações de cultura, para a melhoria da eficiência energética.




Por último, as alterações dos métodos de processamento de alimentos, embalagem e distribuição também poderão ajudar a reduzir o consumo de combustível. Um produto processado, do campo ao consumo, percorre uma média de 2400 km antes de ser consumido.

Este estudo defende veementemente que o consumidor está na posição central para uma redução da utilização de energia. Como indivíduos, ao abraçar um estilo de vida “ecológico” , com a tomada de consciência das suas escolhas alimentares, podemos influenciar os recursos energéticos. Para isto basta comprar produtos locais e evitar alimentos processados, embalados e de qualidade nutricional inferior. Isto levaria a um ambiente mais limpo e a uma saúde melhor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Sobre a transposição do Rio São Francisco



Manifestantes criticam as obras de revitalização do São Francisco e são barrados






Panfletos que foram apreendidos durante a manifestação


Cerca de 50 manifestantes, na cidade de Buritizeiros (MG), tiveram panfletos e faixas apreendidos, no momento em que se dirigiam para o palanque onde o presidente Lula e a comitiva que o acompanha discursavam a respeito das obras de esgotamento sanitário que tem sido feito na região. As obras fazem parte do programa de revitalização do São Francisco, projeto que tem sido executado pelo governo federal e que é alvo de várias críticas do Comitê da Bacia do São Francisco e da sociedade civil organizada.

A reportagem é de Ingrid Campos, da Articulação Popular do São Francisco, e publicada por EcoDebate, 15-10-2009

O Governo, com um forte aparato policial, tentou a todo custo impedir qualquer manifestação contrária ao seu discurso eleitoral. O grupo que dirigiu em marcha para o local, foi barrado por duas vezes pela polícia militar, que a todo o tempo afirmava que estava apenas organizando as ruas para receber a comitiva do governo.

No local, a polícia tentou impedir o acesso dos manifestantes, que insistentemente reivindicaram o direito de entrar. Todos foram revistados e tiveram os seus panfletos e faixas apreendidos. Afirmando que tal ato era para garantir a segurança pública, ficaram sem resposta para o alerta dos manifestantes sobre o bóton da presidência que estava sendo distribuído para todos na entrada. Preso com alfinete, a ponta do bóton oferecia perigo maior que o panfleto dos manifestantes. “Um grande esforço foi feito com o objetivo de banir, antidemocraticamente, toda reação contrária à pseudo-revitalização”, protesta a agente da CPT/MG e integrante da Articulação Popular pela Revitalização do São Francisco, Letícia Rocha.

Os manifestantes que conseguiram entrar, todo o tempo proclamavam: Lula, que traição povo não quer transposição! / O projeto da transposição reforça a indústria da seca. Conviver com o sem-árido é a solução!/ Lula, você mentiu a reforma agrária não saiu!

Irritado, o presidente retomou seu velho discurso de transposição para os pobres do nordeste e pediu a imprensa para anotar e dar ênfase aos números das obras do PAC, que começou a ler. Cada dado lido, no entanto, foi respondido pelos manifestantes com gritos de: Pinóquio!

Na comitiva eleitoreira estavam: Pe. João, Pe. Salvador, prefeito de Buritizeiro (MG), Ciro Gomes, Jaques Wagner, o governador da Bahia, Luiz Tadeu Leite, o prefeito de Montes Claros (MG), Geddel Vieira Lima, Ministro da Integração e a candidata do presidente para o Palácio do Planalto, Dilma Rousseff. A Ministra da Casa Civil não discursou, permaneceu calada durante todo o tempo. Apenas Geddel, Lula e o Pe. Salvador discursaram e tentaram conseguir, em vão, o grito de apoio à candidatura de Dilma das pessoas que assistiam. A tentativa não teve respaldo popular.

Esgotamento Sanitário não barra poluição

Os manifestantes afirmam que o problema do São Francisco não é só o esgotamento e que esse está sendo feito com muitas irregularidades. Em Buritizeiros, há apenas o início do encanamento em algumas ruas. Da propangada estação de tratamento, existe apenas a proposta de um local.

Em Pirapora, a situação é mais vergonhosa, a obra já concluída com recurso do PAC, encontra-se na Fazenda da Prata, às margens do rio. Do tratamento, o que está funcionando é apenas a separação de resíduos sólidos. A água é acumulada em uma grande bacia (cheia de cianobactérias) com uma canalização que a joga, esverdeada, direto no rio. “Talvez, seja essa uma das razões pela qual o presidente desistiu de visitar o município de Pirapora. Seus emissários certamente verificaram o mau uso do recurso público de R$ 4,5 milhões”, analisa Letícia.

Nas proximidades da Estação, foi possível verificar também a drenagem de uma lagoa marginal. Os moradores da cidade, críticos à obra, questionam se no EIA/RIMA da obra da estação consta a existência de tal lagoa, que foi drenada durante o processo de construção da estação.

“É por isso que cada vez mais o povo vai reconhecendo que a verdadeira revitalização só será possível com garantia dos territórios das populações tradicionais, que poderão conquistar um São Francisco Vivo: Terra, Água, Rio e Povo!”, defende Letícia Rocha.

Obra de transposição divide especialistas


O projeto de transposição do São Francisco dividiu não apenas os políticos de Estados que perderão ou ganharão água, mas também especialistas. Engenheiros, geólogos e ambientalistas estão longe de um consenso sobre o impacto da obra.

A reportagem é de Daniel Bramatti e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 15-10-2009.

Para o geólogo Pedro Ângelo Almeida Abreu, doutor em Ciências Naturais pela Universidade de Freiburg (Alemanha) e reitor da Universidade Federal dos Vales do Jequitinhonha e Mucuri , o projeto representa a "redenção" do semiárido nordestino.

Já o engenheiro João Abner Guimarães, professor do Laboratório de Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, vê a iniciativa como "uma fraude que não tem nada a ver com a seca".

A discordância não se limita aos aspectos técnicos, como a necessidade de água nas regiões que serão atingidas e os eventuais prejuízos ao rio e a seu entorno. Até as causas e efeitos políticos da obra são encaradas de forma divergente.

Para Guimarães, a obra é resultado de lobbies de setores beneficiados pela chamada "indústria da seca". Já Abreu afirma que vêm da mesma "indústria" os ataques ao projeto, pois ele teria potencial para acabar com a "hegemonia política de coronéis e oligarquias que sempre abocanharam os recursos para o combate à seca".

"A perenização de alguns rios e a manutenção de açudes cheios vai melhorar o abastecimento às pessoas e, ao mesmo tempo, viabilizar projetos de irrigação, fruticultura, criação de peixes", previu o reitor da UFVJM.

"A água vai escoar, na parte inicial, por áreas despovoadas, e depois irá para grandes barragens, onde não falta água. Nenhum carro-pipa deixará de ser contratado", disse o professor da UFRN.

INTERESSES

Debatida desde a época do Império, a transposição do São Francisco foi apresentada como prioridade já no primeiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O projeto em andamento prevê a abertura de 720 quilômetros de canais para levar a água do maior rio do Nordeste para áreas de Pernambuco, Paraíba, Ceará e Rio Grande do Norte. Estados que perderão água sempre protestaram contra a obra, mas a resistência diminuiu com a eleição de correligionários de Lula na Bahia e em Sergipe.

"É um grande lobby. Um vírus que se instalou no governo Itamar Franco, se replicou no governo Fernando Henrique Cardoso e ficou mais forte no governo Lula. São os interesses econômicos das empreiteiras que mandam neste País", afirmou João Abner Guimarães.

Para Almeida Abreu, as críticas à obra vêm de pessoas que a desconhecem ou que fazem "propaganda ostensiva" por temer que o vale do São Francisco - polo de produção de frutas e vinhos - perca investimentos para regiões mais ao norte.

"Fui testemunha de discussões com argumentos que beiram a ignorância. Vi gente dizendo que grande parte da água seria perdida com a evaporação. Los Angeles é abastecida por água que atravessa todo o deserto de Mojave, e as taxas de evaporação são insignificantes", afirmou o reitor.

Abner Guimarães afirma que o alto custo da água nas regiões atendidas vai inviabilizar a irrigação e o estabelecimento de novos polos de fruticultura, a não ser que os consumidores das cidades paguem a conta.

"Haverá um subsídio cruzado, semelhante ao que existe no setor de energia. As cidades do Nordeste setentrional vão acabar subsidiando a irrigação, mesmo as que não precisam da água do São Francisco."

O professor ataca ainda o discurso oficial de que a transposição beneficiará cerca de 12 milhões de habitantes dos Estados atingidos. "É mentira. Não há infraestrutura para levar água para essas pessoas."


Execução de transposição do São Francisco está em 15,3%


A execução média das obras de transposição de parte das águas do rio São Francisco está em 15,3%, segundo balanço apresentado ontem pelo Ministério da Integração Nacional ao presidente Lula. Isso indica que, para cumprir as metas estipuladas pelo governo para dezembro deste ano, a execução nesses 75 dias terá de superar o total realizado desde o início das obras, em agosto de 2007.

A reportagem é de Eduardo Scolese e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 15-10-2009.

No balanço de fevereiro do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), o governo estimava para abril a execução de ao menos 18% das obras do eixo norte (rumo ao Ceará) e de 20% do eixo leste (em direção ao centro de Pernambuco).

Não atingidas, essas metas foram modificadas há dois meses, quando Lula e a ministra Dilma Rousseff (Casa Civil), diante de um relatório que apontava o atraso nos dois eixos da obra, exigiram a ampliação do número de máquinas e de operários, além da adoção de três turnos de trabalho - o que, diz o governo, deu um carimbo "adequado" ao ritmo das obras.

Agora, a meta oficial aponta, para dezembro, a execução de pelo menos 32% das obras do eixo norte e de 40% no leste.

Além das empresas que venceram as licitações, o Exército é o responsável por uma parte da obra. Os militares, segundo o balanço do ministério mostrado ontem a Lula, já concluíram 51% dos trechos sob sua responsabilidade: canais de aproximação (entre o rio e as estações de bombeamento) e duas barragens, em ambos os eixos.

A média de execução dos 14 lotes, ou seja, sem a ação dos militares, é de 12,7% -de 21,6% no leste e de 7,8% no norte.

O secretário-executivo da pasta, João Reis Santana, disse que as "obras estão dentro do cronograma previsto". Em relação a mudanças nas estimativas do PAC, a informação é que houve uma "readequação dos cronogramas físico e financeiro", mas que a meta de finalização dos eixos foi mantida.

O término das obras do eixo norte está previsto para 2012, por isso o governo dá atenção especial ao trecho leste, com chances de ser inaugurado no ano eleitoral de 2010.

Ontem, Lula iniciou uma viagem de três dias aos canteiros de obras do projeto de revitalização e transposição, tendo ao lado a ministra Dilma, pré-candidata petista ao Planalto.

Hoje, de acordo com documento da Integração Nacional, dos 14 lotes da transposição, 9 estão em andamento. A paralisação física nos cinco restantes ocorre por diferentes fatores, como editais de licitação não publicados e embargos jurídicos.

O projeto (executivo e ambiental) e a obra de transposição, orçados em R$ 5,5 bilhões, já consumiram R$ 847,5 milhões. Há ainda R$ 1,5 bilhão para a revitalização do rio. Segundo o governo, cerca de 12 milhões de nordestinos serão beneficiados com o projeto, uma das vitrines do PAC.

Reportagem de ontem da Folha mostrou que, segundo a ANA (Agência Nacional de Águas), os Estados receptadores da transposição (Ceará, Paraíba, Pernambuco e Rio Grande do Norte) ainda não têm pronta uma estrutura de gestão para receber essas águas.

Entre outros pontos, a agência reguladora exige que esses Estados tenham um órgão estadual equipado que cuide da qualidade da água e organize um sistema eficaz de cobrança aos consumidores - como habitantes da zona urbana e fazendeiros interessados na irrigação de suas propriedades.



Fontes: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=26609

e

http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=26614

Socialismo em crise no novo milênio


Artigo de Anthony Giddens


Segundo o sociólogo britânico Anthony Giddens, "o declínio dos progressistas representa uma tendência ampla e prolongada". "Há muito a ser pensado, discutido e repensado, observando esse fenômeno", afirma o sociólogo, que foi diretor da London School of Economics e assessor do ex-primeiro-ministro britânico Tony Blair. O artigo foi publicado no jornal La Repubblica, 29-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

A derrota do partido social-democrata na Alemanha foi pesada, até pior do que o previsto, confirmando uma fase de dificuldade para todos os partidos de centro-esquerda na Europa. Segundo previsões e pesquisas, o Labour também perderá o poder nas eleições previstas para a próxima primavera [europeia] na Grã-Bretanha: o declínio dos progressistas representa, portanto, uma tendência ampla e prolongada. Há muito a ser pensado, discutido e repensado, observando esse fenômeno.

Uma primeira consideração a ser feita é que, contrariamente ao que muitos esperavam, a crise do sistema financeiro, o colapso dos bancos e das bolsas, a recessão global que atravessou e em parte continua atravessando o mundo não produziram maiores consensos para os partidos de centro-esquerda europeus, ou seja, para aqueles movimentos que podiam mais facilmente distanciar-se de um capitalismo que a todos pareceu, de repente, como muito ávido, não muito regulado, não suficientemente útil ao desenvolvimento da sociedade.

Esse consenso que faltou à centro-esquerda, frente à crise do capitalismo, tem, a meu ver, duas explicações. Uma é que essa crise aumentou as divisões dentro da esquerda, reforçando o radicalismo daqueles que recusavam a reviravolta reformadora iniciada por Tony Blair e Gerard Schroeder no Reino Unido e na Alemanha nos anos 90. Em muitos países, essa divisão entre esquerda reformadora e esquerda radical se acentuou por causa da crise econômica e contribuiu para uma série de derrotas eleitorais.

A segunda razão é que os partidos de centro-direita, principalmente em alguns países, souberam dar uma resposta válida para a crise: Merkel na Alemanha e Sarkozy na França, por exemplo, estiveram entre os mais ativos a pedir uma nova reflexão sobre os mecanismos do mercado e uma contenção dos excessos dos banqueiros e dos bancos. Os progressistas diziam a mesma coisa, mas não eram os únicos a dizer.

A segunda consideração é que seria errado, ao julgar o equilíbrio político do planeta, concentrar-se exclusivamente no que está ocorrendo nos 27 países da União Europeia. Em nível global, com efeito, não se pode falar hoje de um retraimento das forças progressistas, mas, pelo contrário, é preciso reconhecer seu avanço. Isso é evidente a todos no mais poderoso e importante país do Ocidente, os Estados Unidos, onde a vitória de Barack Obama colocou em ação uma completa inversão das políticas seguidas pelo seu predecessor republicano. Na América e em outros lugares, alguns comentaristas estão desiludidos com Obama, mas a meu ver pareceria ridículo esperar que, em poucos meses, o novo presidente pudesse realizar resultados concretos em matérias delicadas e complexas: o que conta é que Obama está redesenhando a agenda global, não só dos EUA, mas também do mundo, das armas nucleares ao clima, das finanças ao bem-estar, até o diálogo com blocos aliados e adversários.

Partidos progressistas alcançaram ou conservaram o poder também na Índia e no Brasil, ou seja, em duas das três maiores nações emergentes, além da Austrália e do Japão, esta última uma conquista de significado histórico. E resultados análogos foram verificados em outros países da América Latina. Portanto, só a Europa, até agora, é o terreno onde a esquerda se encontra em dificuldades. Alguns comentaristas se perguntam como o efeito Obama ainda não se refletiu na Europa, assim como ocorreu depois da vitória de Bill Clinton. Mas a vitória de Clinton não causou imediatamente o seu efeito na Europa: o presidente democrata foi eleito à Casa Branca em 1992, Tony Blair assumiu o poder em Londres só em 1997. Por isso, é muito cedo para dizer que o efeito de Obama entre nós ainda não se fez sentir. Esperemos: é pos sível que iremos senti-lo em alguns anos.

Uma terceira consideração ajuda a compreender o que está ocorrendo no velho continente. A Europa se encontra novamente em confronto com novos problemas que a deixam em ansiedade: a imigração, o crime, a busca por uma identidade nacional diante da globalização. Para enfrentá-los, a centro-esquerda está procurando elaborar uma nova política liberal-reformadora: mas ainda não a definiu totalmente. Os progressistas entendem que hoje é necessário repensar a relação entre Estado e cidadão, entre Estado e mercado: mas ainda não decidiram completamente como. A crise financeira não é uma crise como as outras, assim como a ameaça posta pelas mudanças climáticas não é uma ameaça normal: tudo isso requer uma análise teórica aprofundada e o esforço de entender que, para certos problemas, não existem necessariamente soluções de direita ou de esquerda, mas sim a necessidade de encontrar alternativas verdad eiramente novas.

Em conclusão, a centro-esquerda tem necessidade hoje de dois elementos: a elaboração de um novo pensamento político para enfrentar os problemas postos por um mundo radicalmente mudado e a capacidade de unir todas as suas forças, pondo fim às divisões entre moderados e radicais. Dividida, enfraquece-se e perde, como ficou demonstrado, por exemplo, na Itália. Mas unir as forças de esquerda não é uma operação que pode ser feita só em nome do pragmatismo, formando uma coalizão heterogênea, capaz talvez de ganhar a maioria das urnas, mas incapaz depois de governar e de fazer as reformas necessárias: é preciso, pelo contrário, conseguir eliminar a suspeita de que a esquerda tradicional tem com relação à esquerda moderada e, ao mesmo tempo, conquistar os eleitores centristas, sem os quais seria difícil vencer nas urnas.

Se não conseguir fazer isso, a esquerda está em perigo. Mas as divisões, a meu ver, não são irrep aráveis. Melhor, a situação atual oferece um desafio para se criar um novo pensamento político. Não acho que um resultado semelhante seja impossível. Gostaria de poder contribuir para realizá-lo.

quarta-feira, 14 de outubro de 2009

Robert Kurz: A esquerda e a dialética sujeito-objeto do fetichismo moderno




Por: Patricia Fachin e Márcia Junges

Tradução Benno Dischinger e Walter O. Schlupp, 30/03/2009


Robert Kurz não faz concessões ao aproximar o pensamento pós-moderno com a ideologia neoliberal. Agora, diz ele, “a esquerda pós-moderna se depara com os destroços das suas ilusões e é confrontada com a dura realidade de uma crise monumental, a qual desde o começo ela não quis admitir e para a qual ela, por isso, não está preparada”. Incapaz de captar a “dialética sujeito-objeto do fetichismo moderno”, a esquerda caiu num “objetivismo tosco ou num subjetivismo igualmente tosco”. As ideias foram desenvolvidas na entrevista concedida por Kurz, por e-mail, à IHU On-Line.

O rótulo de ‘pós-modernidade’ era fajuto, argumenta, “e, no caso de Negri, desembocou no conceito totalmente vazio de ‘multidão’, que significa tudo e nada. O esvaziamento do sujeito tem seu correlato numa virtualização das lutas sociais, que em grande parte somente ainda têm caráter simbólico, sendo cada vez menos capazes de intervenção real”. Dessa forma, continua Kurz, “a esperança pelo ‘renascimento da política’ é a maior de todas as bolhas. Os danos provocados pela limitação política dos prejuízos serão inclusive maiores que a crise atual. O Estado somente ainda consegue regulamentar a morte definitiva do seu capitalismo. Neste aspecto, a esquerda também está desorientada enquanto não conseguir questionar os próprios fundamentos do sistema”. Se a esquerda quiser aproveitar “o bonde da administração estatista da crise” para iniciar suas reformas sociais, ela “acabará descarrilando junto com ele”, vaticina. “Ela bem que merece esse destino”.

Robert Kurz estudou Filosofia, História e Pedagogia. É cofundador e redator da revista teórica EXIT! — Kritik und Krise der Warengesellschaft (EXIT! — Crítica e Crise da Sociedade da Mercadoria). A área dos seus trabalhos abrange a teoria da crise e da modernização, a análise crítica do sistema mundial capitalista, a crítica ao Iluminismo e a relação entre cultura e economia. Publica regularmente ensaios em jornais e revistas na Alemanha, Áustria, Suíça e Brasil. Entre seus livros publicados em português, citamos O colapso da modernização (São Paulo: Paz e Terra, 1991), O retorno de Potemkin (São Paulo: Paz e Terra, 1994) e Os últimos combates (Petrópolis: Vozes, 1998).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - As atuais crises financeira e ecológica estão relacionadas com o “colapso da modernização”?

Robert Kurz -
O termo colapso é um chavão provocativo, geralmente usado em sentido pejorativo, no intuito de desqualificar como “apocalípticos”, que não devem ser levados a sério, os representantes de uma teoria radical da crise. Não só as elites capitalistas, mas também os representantes da esquerda preferem acreditar que o capitalismo pode renovar-se eternamente. É claro que um sistema social global não desmorona de uma hora para outra como um indivíduo infartado. Mas a era do capitalismo passou. Afinal de contas, a modernização não foi outra coisa senão a implementação e o desenvolvimento desse sistema, não vindo ao caso se os mecanismos eram do capitalismo privado ou do capitalismo estatal.

Apesar de todas as diferenças exteriores, o fundamento comum consiste na “valorização do valor”, isto é, na transformação de “trabalho abstrato" em “valor agregado”. Entretanto, esta não é uma finalidade subjetiva, mas um fim em si mesmo que acabou ficando independente. Tanto os capitalistas quanto os assalariados, assim como os agentes estatais, não passam de funcionários desse fim em si mesmo que se soltou e está incontrolável, o qual Marx chamou de “sujeito automático”. No caso, a concorrência universal força a uma dinâmica cega do desenvolvimento da capacidade produtiva, a qual constantemente gera novas condições de valorização para finalmente encontrar uma barreira histórica absoluta.

A barreira econômica interior consiste no fato de o desenvolvimento da força produtiva levar a um ponto em que o “trabalho abstrato” enquanto “substância” do “valor agregado” é tão reduzido, mediante racionalização do processo produtivo, que fica impossível aumentar o valor real [reale Verwertung]. Essa “dessubstancialização do capital” ou “desvalorização do valor” significa que os produtos em si deixaram de ser mercadoria, podendo ser representados em forma monetária como forma genérica de valor, limitando-se a ser meros bens de consumo. A finalidade da produção capitalista, porém, não é a fabricação de bens de consumo para satisfazer necessidades, e sim o fim em si próprio que é a valorização. Por isso, segundo critérios capitalistas, ao se alcançar a barreira econômica interna é preciso fechar a produção e, portanto, o processo vital da sociedade, mesmo que todos os meios estejam disponíveis.

Capitalismo virtual

Em termos reais, essa situação já havia surgido em meados dos anos 80, com a terceira revolução industrial. O capitalismo prolongou sua vida em forma “virtualizada”, por um lado, mediante endividamento historicamente sem precedentes (antecipação de valor agregado futuro, que na realidade jamais poderá ser resgatado); por outro lado, pelo inchaço, igualmente nunca visto, das assim chamadas bolhas financeiras (ações e imóveis). Esse pseudoacúmulo de capital monetário “desprovido de substância” foi usado para alimentar também a produção real de mercadorias.

Resultou daí uma conjuntura deficitária global com fluxos de exportação de mão única principalmente para os Estados Unidos. As zonas de processamento de exportação da China e da Índia, porém, não representam uma expansão real do “trabalho abstrato”, porque seu ponto de partida não foi poder de compra real, e sim o capital monetário “desprovido de substância” representado no endividamento e nas bolhas financeiras. Por mais de duas décadas se nutriu a ilusão de que o “crescimento tocado exclusivamente pelas finanças” seria viável. De forma alguma, o fim dessa ilusão consiste exclusivamente numa crise financeira. A decantada “economia real”, na verdade, há muito que já não é mais real, e sim foi alimentada artificialmente com bolhas financeiras “desprovidas de substância”. Agora o capitalismo é reduzido a seus reais fundamentos de valorização. A consequência é uma nova crise da economia mundial, sem que se vislumbrem novos potenciais reais de valorização.

Ao mesmo tempo, o capitalismo esbarra em sua limitação externa natural. Na mesma medida em que ficou supérfluo o “trabalho abstrato” enquanto transformação de energia humana em “valor agregado”, acelerou-se a expansão da aplicação tecnológica das energias fósseis (petróleo, gás). A dinâmica cega do desenvolvimento da capacidade produtiva não controlada socialmente levou, por um lado, ao previsível esgotamento dos recursos de energia fóssil e, por outro, à destruição do clima global e do meio ambiente natural, em grau igualmente previsível.

A barreira natural exterior e a barreira econômica interior apresentam horizonte temporal diverso. Ao passo que o final da real “valorização do valor” já se encontra no passado e a economia capitalista atravessa sua crise histórica agora, no espaço de poucos anos (grosso modo ao longo da próxima década), a barreira natural absoluta ainda se encontra no futuro (num período de no máximo duas a três décadas). A crise econômica e o concomitante fechamento de capacidades de produção refreiam o esgotamento dos recursos energéticos – às custas da crescente miséria social global na forma capitalista. Simultaneamente, porém, os processos de destruição das bases naturais e do clima apresentam tamanho avanço, que não chegam a ser detidos pela crise econômica, sendo que a barreira natural exterior será atingida apesar de tudo.

Destruição capitalista da natureza

O fim da modernização significa, portanto, que, além de ter que superar a forma capitalista da reprodução, durante muito tempo uma sociedade mundial pós-capitalista terá que sofrer e lidar com as consequências da destruição capitalista da natureza. Para a análise e crítica teórica da crise, é importante enxergar a interconexão interna das duas barreiras históricas do capitalismo. Existe, porém, o perigo de jogar um contra o outro esses dois aspectos da crise histórica; isto vale para ambos os lados: para as elites capitalistas bem como para os representantes de um “reducionismo ecológico”, que somente admitem a barreira natural exterior. A gestão capitalista da crise e o reducionismo ecológico poderiam entrar em aliança perversa, que redundaria em negar a barreira econômica e, em nome da crise ecológica, pregar às massas depauperadas e miseráveis uma ideologia da “renúncia social”. Contra isso, é preciso sustentar que a crise, a crítica e a superação da estrutura capitalista têm prioridade, porque a destruição da natureza é consequência, e não causa da barreira interior desse sistema.

IHU On-Line - Por que o senhor diz que o vexame da crise é também o vexame da esquerda pós-moderna?

Robert Kurz -
A crise não é nenhum vexame, mas um processo objetivo, resultante da dinâmica cega da concorrência e do desenvolvimento descontrolado da capacidade de produção. No que tange à esquerda pós-moderna, pode-se falar de vexame na medida em que descartou, em sua maior parte, a crítica da economia política. O “economismo” dos tradicionais marxistas de partido só foi criticado para eliminar de vez a objetividade negativa das categorias capitalistas de “trabalho abstrato” e “valorização do valor”. A dinâmica de crise inerente ao capitalismo passou totalmente despercebida, tendo sido traduzida para “possibilidades ilimitadas”. Tal como as elites neoliberais, a esquerda pós-moderna acreditava no “crescimento tocado a finanças” e se transformou na expressão ideológica do capital fictício. O virtualismo econômico foi complementado pelo virtualismo tecnológico da internet. O Second Life do espaço virtual sofreu a mutação de tornar-se a forma de vida “propriamente dita”, o suposto “trabalho imaterial” de Antonio Negri, acabou sendo a continuação da ontologia capitalista do trabalho.

O real problema de substância do “trabalho abstrato” foi negado; um “antissubstancialismo” ideológico (ou “antiessencialismo”) a contrastar com Marx denunciou esse problema de substância como mera metafísica de um pensamento ultrapassado, em vez de nele reconhecer uma “metafísica real” do capitalismo, a qual não deixa de ser bastante material. Concomitantemente, ocorreu uma orientação pela esfera da circulação. A ilusão financeira capitalista de que atos de compra e venda também poderiam gerar crescimento, como a real produção de mercadorias, também constituiu a premissa implícita do pensamento pós-moderno. O endividado sujeito de mercado e consumo aparecia como portador da reprodução e de uma possível emancipação, sendo que nem mais se podia dizer em que esta consistiria.

O falso virtualismo econômico e tecnológico teve seu correlato filosófico numa epistemologia que não mais queria criticar e superar a fetichista “aparência real” da relação de capital, mas seduzia para a crença de a pessoa poder “realizar-se a si própria” nessas condições. Seguindo as ilusões virtualistas, a “gaiola de ferro” (Max Weber) do sistema produtor de mercadorias foi redefinida como “ambivalência” e “contingência” abertas para tudo e a qualquer hora. Verdade, mesmo a verdade negativa da crítica, não teria mais base objetiva nas condições reinantes, mas podia ser “produzida” e “negociada”. Para a esquerda pós-moderna, a natureza negativa do capital se dissolvia numa indefinível “pluralidade” [“Vielfalt”, “diversidade”] de fenômenos, a qual se apresentaria como desconexa “pluralidade” de movimentos sociais, sem focalizar o âmago concreto do capital.

Pensamento pós-moderno e neoliberalismo

Em termos sociais, a esquerda pós-moderna foi um trendsetter da individualização e flexibilização capitalista. O flexi-indivíduo abstrato não foi reconhecido como forma do sujeito burguês em crise, mas recebeu o nimbo de antecipação da individualidade liberta já no seio do capitalismo. Em vez de aparecer como forma última de existência do mercado totalitário e como ameaçadora “guerra de todos contra todos” na concorrência universal da crise, a individualização aparecia como forma atomizada da “autorrealização”, e o “ser humano flexível” (Richard Sennet) se apresentava não como objeto indefeso ao sabor das imposições capitalistas, mas como seu próprio “soberano”, que poderia conquistar novos espaços e transformar a si próprio no que quisesse. A proximidade do pensamento pós-moderno para com a ideologia neoliberal sempre foi inquestionável, apesar dos contrastes exteriores. Agora a esquerda pós-moderna se depara com os destroços das suas ilusões e é confrontada com a dura realidade de uma crise monumental, a qual desde o começo ela não quis admitir e para a qual ela, por isso, não está preparada.

IHU On-Line - A esquerda de hoje vive uma crise existencialista? Antes de sugerir alternativas para as crises atuais, a esquerda mundial teria de resolver seus próprios impasses? Para o senhor, há atualmente um vazio teórico das esquerdas ou um “desencontro metodológico” na busca de bases comuns para uma teoria?

Robert Kurz -
A crise existencial da esquerda de hoje consiste justamente no fato de ela não ter conseguido transformar o marxismo e reformular a crítica da economia política dentro dos padrões do século XXI. Pois naturalmente não existe volta para os paradigmas de uma época passada. O rótulo de “pós-modernidade” era fajuto, porque a real transformação social do capitalismo não inaugurou novos espaços sociais, mas justamente marcou a transição para sua ruína histórica. Nem o fim do antigo movimento operário nem o naufrágio do “socialismo real” foram digeridos criticamente. A transição pós-moderna não superou o marxismo tradicional, apenas lhe deu continuidade numa forma esvaziada. Enquanto desaparecia totalmente de vista o objetivo socialista e se dissolvia aquela falsa “pluralidade” de aspirações meramente particulares, o paradigma da “classe operária” se transformou numa insustentável multidão de sujeitos sociais postiços; no caso de Negri, desembocou no conceito totalmente vazio de “multidão”, que significa tudo e nada. O esvaziamento do sujeito tem seu correlato numa virtualização das lutas sociais, que em grande parte somente ainda têm caráter simbólico, sendo cada vez menos capazes de intervenção real.

Caracterizar essa situação com “impasses” da esquerda é um eufemismo. A esquerda antiga tanto quanto a pós-moderna acabaram. Não existe mais sujeito ontológico do “trabalho”, porque o “trabalho” acabou revelando ser substância histórica do capital e ficou obsoleto. Com isto, também o paradoxal conceito marxista de “sujeito objetivo” em si, que somente precisaria chegar “a si”, está liquidado em termos históricos e não pode ser continuado em sucedâneos. Neste aspecto, o “vazio teórico” da esquerda é idêntico com o “desencontro metodológico”. A esquerda nunca conseguiu captar a dialética sujeito-objeto do fetichismo moderno. A consequência foi cair num objetivismo tosco ou num subjetivismo igualmente tosco. A oscilação entre esses dois pólos do fetichismo perfaz boa parte das discussões de esquerda que não conseguiram deixar para trás essa polaridade.

Sujeitos paradoxais

Para um novo movimento social emancipatório o que importa não é mais despertar pelo beijo um “sujeito objetivo”, mas fazer uma crítica da forma sujeito, sem salvaguarda ontológica, e interpretá-la como forma de existência capitalista. A forma “sujeito” sempre só pode ser um agente do “sujeito automático” da valorização do capital e não pode ser confundida com a vontade para a ação emancipatória, a qual precisa constituir-se a si própria e não pode ter fundamento ontológico. Isto é algo difícil de ser pensado, porque justamente a esquerda pós-moderna desistiu da crítica do sujeito (o Foucault tardio voltou a apelar para o sujeito particularizado). Essa crítica fracassou principalmente por não estar conectada com a crítica da economia política.

Este problema também está ligado à crítica da moderna relação entre os gêneros. É verdade que a esquerda tradicional e também a esquerda pós-moderna fez suas mesuras obrigatórias perante o feminismo, mas nunca levou realmente a sério a sua temática. Também o próprio feminismo, apesar de meritórias análises, em grande parte limitou-se a definir as mulheres como “sujeito objetivo” tão paradoxal quanto a “classe operária”. O postulado de uma "formação de sujeito" feminina, por isso, leva ao mesmo beco sem saída. Também o feminismo foi vitimado pela transição pós-moderna e dissolveu a forma de existência feminina “divergente” [“abgespalten”] no capitalismo numa “diversidade” de aspirações emancipatórias particulares que não tangem o problema central.

Também aí seria importante mediar a crítica do patriarcado moderno com a crítica da economia política, e não tratá-la como questão “derivada” [“abgeleitet”], secundária. No caso, é fundamental a noção de que as categorias aparentemente neutras do capital e a respectiva forma “sujeito” em si já são “masculinas”, e que a “razão” capitalista é androcêntrica na origem. A dissolução da família tradicional e dos respectivos papéis de gênero nada altera no caso, porque o caráter androcêntrico do capitalismo continua de outra forma. A crítica dessas formas sociais e a crítica da relação capitalista dos gêneros condicionam-se mutuamente e precisam ser pensadas em conjunto.

A crítica do “sujeito objetivo” do “trabalho” e da existência feminina “divergente” não é jogo de palavras, mas tem consequências práticas enormes para a superação do capitalismo. Acontece que desse modo também ficou liquidada a noção do marxismo antigo de emancipação social e de socialismo “dentro” das categorias capitalistas que somente teriam que ser reguladas e moderadas de outra forma. No limite histórico do capitalismo, levanta-se o desafio da “crítica categorial” da conexão entre “trabalho abstrato”, forma de mercadoria e “valorização do valor” bem como da relação entre os sexos neste contexto. Isto também é difícil de ser pensado, porque essas condições existenciais estão interiorizadas, tendo sido inclusive firmadas ainda mais pelo pensamento pós-moderno. Somente a formulação de novo objetivo socialista sobre a base de uma “crítica categorial” pode levar ao desenvolvimento de exigências de transição imanentes que também sejam adequadas no processo da crise histórica, assim obtendo real poder de se impor. Sem o foco unificador sobre o âmago do capitalismo, movimentos sociais permanecem indefesos e particularizados. É de se temer, entretanto, que a esquerda, pega de surpresa pela crise, acabe confiando em concepções demasiado tacanhas de suposta “salvação”, assim apenas ratificando sua impotência histórica.




IHU On-Line - Em que sentido a conjuntura atual tem contribuído para que a política se torne um modelo em extinção? Podemos dizer que a economia “colonizou” a política? Está se repensando a política a partir do que está acontecendo atualmente?

Robert Kurz -
A política centrada no Estado como instância sintetizadora do capitalismo está saindo de linha não por ter sido colonizada pela economia, mas por ter fracassado, há muito, em função de suas próprias premissas. O problema não tem a ver apenas com a condição exterior da globalização do capital, a qual rompeu os espaços de economia nacional. A força reguladora do Estado se extingue principalmente pelo fato de substancialmente nada mais haver para ser regulado. A valorização capitalista nas formas de “trabalho abstrato” de dinheiro sempre já tem constituído a premissa do Estado, a qual ele não consegue contornar. Quando o capital se desvaloriza pelo seu próprio desenvolvimento de capacidade produtiva, o Estado somente consegue reagir a isso mediante inflacionária emissão de dinheiro pelo seu banco central. Isto não supera a falta de substância do capital virtualizado, mas a exacerba como desvalorização do veículo-fim-em-si-mesmo chamado dinheiro. Ocorre que a competência do banco central é puramente formal; sua geração de dinheiro somente pode dar expressão à produção substancial de valor agregado mediante “trabalho abstrato”, mas não consegue substituí-la.

Os limites do crédito estatal já haviam sido alcançados no final dos anos 1970. Naquela época, a expansão do crédito estatal, desprovida de substância, foi punida por surtos inflacionários. A ilusão do neoliberalismo consistiu no fato de atribuir a inflação exclusivamente à atividade do Estado. A desregulamentação neoliberal somente transferiu o problema do crédito estatal para os mercados financeiros. Embora a punição da inflação ficasse protelada por causa do caráter transnacional da economia de bolhas financeiras, o potencial inflacionário começou a manifestar-se na conjuntura deficitária global até 2008. Esse processo, num primeiro momento, foi interrompido porque desde então o capital virtual e com ele a conjuntura mundial estão dando seu último suspiro. Mas se agora o Estado é novamente invocado como “última instância” e deus ex machina, seus pacotes conjunturais e de salvação novamente terão que provocar a desvalorização do próprio dinheiro; só que isso acontecerá numa fase de desenvolvimento mais elevada e em proporção muito maior que trinta anos atrás.

Renascimento da política

Neste cenário, a esperança pelo “renascimento da política” é a maior de todas as bolhas. Os danos provocados pela limitação política dos prejuízos serão inclusive maiores que a crise atual. O Estado somente ainda consegue regulamentar a morte definitiva do seu capitalismo. Neste aspecto, a esquerda também está desorientada enquanto não conseguir questionar os próprios fundamentos do sistema. Na mesma medida em que a suposta “autonomia” dos movimentos sociais particulares e simbólicos vira fumaça pela barreira interior da valorização, é de se temer que a esquerda sofra uma regressão para o seu tradicional estatismo, porque nada mais lhe ocorre. Já agora a maior parte daquilo que pretende ser crítica social de esquerda praticamente não passa de um pouquinho de nostalgia keynesiana. Se é que a esquerda espera lançar suas “reformas sociais” aproveitando o bonde da administração estatista da crise, ela acabará descarrilando junto com ele e, uma vez passado seu carnaval no virtualismo, ela se tornará um trendsetter da política inflacionária. Ela bem que merece esse destino.

IHU On-Line - Que outras forças de esquerda podem surgir nesse momento?

Robert Kurz -
Se fracassar a esquerda global presa nas categorias capitalistas, a gente naturalmente ficará se perguntando onde é que há outras forças de emancipação social. Com certeza haverá rebeliões e conflitos sociais quando as pessoas ficarem privadas de suas condições básicas de vida, por mais precárias que sejam. Essas erupções também podem tomar o rumo da direita, manifestando-se como sexismo, racismo, antissemitismo e nacionalismo, embora isso não tenha a menor chance de superação reacionária da crise. Também ocorrem levantes sociais espontâneos que se entendem vagamente como esquerdistas, como se pode observar na Grécia faz alguns meses. Esses vândalos juvenis a reagir visceralmente contra a opressão das necessidades vitais já estão sendo mitificados por alguns esquerdistas, que os usam contra a necessária transformação teórica.

Mas o culto da espontaneidade sempre passou vexame. As revoltas espontâneas da juventude, por mais organizadas que sejam, darão em nada, se não puderem adquirir uma noção crítica da situação em termos condizentes com a época. Por isso não existe alternativa, senão desenvolver nova meta socialista por meio de uma crítica categorial que não pode ficar vinculada ao “falso caráter imediato” da práxis espontânea. É preciso aguentar essa tensão para que a emergente resistência social não morra sufocada em seu próprio palavreado a campear “filosofia de vida”.

IHU On-Line - O senhor diz que a sociedade mundial precisa se libertar do jogo do economismo real e organizar seus recursos de uma nova forma, além do Estado e do mercado. Nesse sentido, como a esquerda pode desenvolver um trabalho revolucionário e mudar a atual conjuntura? Quais seriam, neste caso, as propostas da esquerda diante da crise financeira internacional?

Robert Kurz -
É preciso salientar que é justamente a sociedade que precisa ser libertada globalmente do economismo real do capital. É verdade que uma nova forma de reprodução somente pode ter êxito mais além do mercado e do Estado. Nos últimos anos, essa fórmula foi cada vez mais usada no sentido de ser apenas uma economia alternativa cooperativista, por assim dizer “ao lado” da síntese social pelo capital, e a qual de alguma maneira haveria de se ampliar aos poucos. Isto apenas dá continuidade ao particularismo “colorido” pós-moderno. Entretanto, a formação negativa de sociedade [negative Vergesellschaftung] do capitalismo somente pode ser superada por inteiro, ou não será superada. A economia alternativa cooperativista já tem um longo histórico e sempre fracassou, da última vez nos anos 1980.

Esta crise de proporções históricas não melhora as condições para semelhantes ideias, muito pelo contrário. Isto porque uma reprodução “alternativa” restrita a um espaço pequeno não só está vinculada a imposições sociais inconfessas, mas também fica na dependência das funções de mercado e Estado, uma vez que por conta própria só consegue satisfazer poucas necessidades vitais. E a reprodução real dos indivíduos fica inserida num encadeamento que Marx, sob condições capitalistas, chamou de “trabalho social total”. Essa estrutura somente pode ser transformada por inteiro; não se pode começar com batatas ou software e achar que se criou um “modelo” em escala reduzida, que só precisaria ser aplicado à sociedade como um todo. O “platonismo de modelo” é produto da teoria econômica burguesa, não da crítica radical.

Quando, em plena crise, por falta de “financiabilidade”, se desligam água e luz, quando entram em colapso a assistência médica e a distribuição capitalista de gêneros alimentícios, então o que está em pauta não é o gradativo “entrar em rede” de comunas que pretendem reformar a vida, ou a “formação de rede” de permuta virtual, e sim a transformação do modo capitalista de “formação de rede” de toda a sociedade. Para tanto, é necessária a resistência organizada de toda a sociedade contra a administração da crise que estipula metas próprias em nível de síntese social.


Robert Kurz


Economia solidária como placebo

Daí só desviam a atenção os placebos particularistas tipo “economia solidária”, que geralmente consistem numa mixórdia de economia de subsistência, “reformas monetárias” ilusórias e abstrata ideologia comunitária. Querem fazer da urucubaca uma bênção. É muito coerente que essas propostas também fiquem namorando com “soluções para a crise financeira” e se aliem à nostalgia keynesiana. Não existe mais solução para a crise financeira; deve-se atacar o próprio critério de “financiabilidade”, se é que se pretenda levar a sério um novo modo de reprodução que vá além do mercado e do Estado.

IHU On-Line - Considerando que estamos na era da informação e vivendo a crise do capital, que novos rumos vão compor o mundo do trabalho no que se refere à relação capital/trabalho? Considerando a inserção de novas tecnologias na sociedade atual, mas também as atuais crises, é possível pensar em desglobalização na era da informatização? Podemos pensar assim em uma nova economia mundial?

Robert Kurz -
A informática enquanto base da terceira revolução industrial justamente gerou o desenvolvimento da capacidade produtiva que necessariamente tinha que levar à barreira interior do capitalismo. Sob condições capitalistas, trata-se de pura “tecnologia da crise”, que só mais além da valorização poderia desenvolver potenciais positivos. A ilusão pós-moderna e do capitalismo financeiro consistia em que a informática implicaria novas formas do “trabalho imaterial”, numa assim chamada sociedade da informação, bem como novas relações entre capital e trabalho, com maior “autodeterminação” dos trabalhadores. Na verdade, a “era da informação” já no passado levou ao desemprego em massa, ao subemprego e à precarização das relações de trabalho. Já a suposta autodeterminação levou a uma compulsiva “autorresponsabilização” dos indivíduos pelo processo de valorização. Antonio Negri pretendia estilizar essa evolução negativa como opção para uma “autovalorização autônoma” (autovalorisazzione). Esta acabou virando um chavão para a administração repressiva do trabalho, a qual a transformou na proposta de definir os indivíduos como “autoempresários da sua força de trabalho” e como “gestores do seu próprio capital humano”, a fim de deixá-los totalmente à mercê das condições do capitalismo em crise. A nova crise exacerbaria dramaticamente essas tendências e desmentiria de uma vez por todas as tentativas de tentar enxergar na forma capitalista da sociedade da informação uma “ambivalência” com potencial emancipatório. A metafísica pós-moderna da ambivalência está esgotada.

A globalização não pode ser reduzida à tecnologia da informação. Sob condições capitalistas ela somente poderia ser uma globalização do capital, sob cujo mando também se encontra a informação. É de se esperar que, com a política inflacionária do Estado, o processamento da crise leve a uma “desglobalização” na medida em que se ensaie a retirada para o egoísmo protecionista das economias nacionais, que somente ainda são formais; tudo isso acompanhado de ideologias neonacionalistas. Só que isto não pode superar a crise, apenas a agrava. Também é de se perguntar se a internet é sustentável – não por causa de um possível colapso tecnológico (embora também aí haja indícios de esgotamento da capacidade) -, mas porque ela depende de uma formidável infraestrutura, cuja “financiabilidade” está tão em dúvida quanto todo o resto. Uma globalização meramente virtual não é sustentável, caso não esteja ligada à reprodução material transnacional mais além do capitalismo. As maritacas da blogosfera e os bitolados freaks da internet ainda podem levar um baita susto.

IHU On-Line - Como se pode falar em ética nos moldes atuais da sociedade capitalista?

Robert Kurz -
Em todas as formações fetichistas históricas, ética não passou de uma tentativa de conviver socialmente com as condições de reprodução dadas, pressupostas às cegas, sem superá-las. Mesmo a ética burguesa moderna pretende resolver contradições e crises sem tocar nas causas constitutivas. Nela, o lugar da crítica radical deve ser assumido por um cânon de normas de conduta moral para os indivíduos, para que dentro das formas existentes a pessoa possa ficar nice para as outras. O que pode falhar não é o sistema, mas apenas a moral dos indivíduos. A crise atual, aliás, também tem sido atribuída aos déficits éticos dos banqueiros e executivos. Não é por acaso que o “pacote de resgate” de maior volume está na ética, que, para variar, está em alta. Infelizmente esse pacote está totalmente oco. O “sujeito automático” não está acessível para quaisquer imperativos éticos; ética, portanto, é mais ou menos a última coisa com que a teoria crítica deveria ocupar-se.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

Fetichismo do PIB





Por: Joseph E. Stiglitz,
prêmio Nobel de Economia,
em artigo publicado no jornal O Globo, 30-09-2009.

Eis o artigo.

A tentativa de reviver a economia internacional e ao mesmo tempo responder à crise climática global nos coloca diante de uma complicada questão: as estatísticas estão nos dando os sinais corretos sobre o que fazer? Em nosso mundo orientado para o desempenho, questões de mensuração assumem importância: o que aferimos afeta o que fazemos.

Se tivermos instrumentos de medição medíocres, o que tentarmos fazer (por exemplo, expandir o PIB) pode na verdade contribuir para piorar os padrões de vida. Podemos também ser confrontados com falsas escolhas, enxergando compromissos inexistentes entre a produção e a proteção ambiental.

Em contraste, uma melhor aferição do desempenho econômico pode mostrar que passos adotados para melhorar o meio ambiente são benéficos para a economia.

Há 18 meses, o presidente da França, Nicolas Sarkozy, criou uma Comissão para Monitoramento do Desempenho Econômico e do Progresso Social, devido a sua insatisfação — e à de muitos outros — com o estado atual das informações estatísticas sobre economia e sociedade.

A grande questão é saber se o PIB fornece uma boa medida sobre padrões de vida. Em muitos casos, as estatísticas sobre o PIB parecem sugerir que a economia vai muito melhor do que a percepção dos cidadãos sobre ela. Além disso, o foco no PIB cria conflitos: líderes políticos são instados a maximizá-lo, mas os cidadãos também pedem que se dê atenção à melhoria da segurança, à redução da poluição do ar, da água e sonora e assim por diante — fatores que podem reduzir o crescimento do Produto.

O fato de que o PIB pode ser uma medida falha sobre bem-estar, ou mesmo sobre a atividade do mercado, foi há muito reconhecido. Mas mudanças na sociedade e na economia tornaram os problemas mais graves, ao mesmo tempo em que avanços nas técnicas econômicas e estatísticas fornecem oportunidades para melhorar nossa métrica.

Por exemplo, enquanto o PIB supostamente mede o valor da produção de bens e serviços, num setorchave — o governo — não temos como fazê-lo; frequentemente, medimos a produção simplesmente pelos investimentos. Se o governo gasta mais — mesmo que de forma ineficiente — a produção sobe. Nos últimos 60 anos, a participação estatal no PIB aumentou de 21,4% para 38,6% nos EUA, de 27,6% para 52,7% na França, de 34,2% para 47,6% na Grã-Bretanha e de 30,4% para 44% na Alemanha. O que era um problema relativamente pequeno se transformou hoje num grande.

Da mesma forma, melhorias na qualidade — por exemplo, carros melhores em vez de apenas mais caros — respondem por muito do aumento do PIB hoje em dia. Mas mensurar a melhoria de qualidade é difícil.

O mesmo problema em fazer comparações ao longo do tempo se aplica aos países. Os EUA gastam mais em assistência à saúde do que qualquer outro país, tanto per capita quanto percentualmente, mas recebem notas piores. Parte da diferença entre o PIB per capita nos EUA e em alguns países europeus pode, assim, resultar da forma como medimos as coisas.

Outra mudança marcante na maioria das sociedades é um aumento na desigualdade. Isto significa uma disparidade crescente entre a renda média e a renda de uma “pessoa típica”.

Se alguns banqueiros ficam muito mais ricos, a renda média pode subir, apesar de a maioria das rendas individuais diminuírem. Assim, as estatísticas do PIB per capita podem não refletir o que está acontecendo com a maioria dos cidadãos.

Usamos preços de mercado para dar valores a produtos e serviços.

Mas agora, mesmo aqueles com fé inabalável no mercado questionam a confiança nos preços de mercado. Os lucros pré-crise dos bancos — um terço dos lucros corporativos totais — parecem ter sido uma miragem. A constatação lança nova luz não só sobre a medição do desempenho mas também sobre as inferências que fazemos.

Antes da crise, quando o crescimento dos EUA (usando medidaspadrão para o PIB) parecia muito mais forte que o da Europa, muitos europeus argumentavam que seu continente deveria adotar o capitalismo à americana. Claro que qualquer um que quisesse poderia ter visto o endividamento crescente das famílias americanas, o que teria ajudado a corrigir a falsa impressão de sucesso dada pela estatística do PIB.

Avanços recentes na metodologia permitiram-nos saber mais sobre o que contribui para o sentimento de bem-estar do cidadão e para reunir os dados necessários para fazer essa avaliação regularmente. Esses estudos verificam e quantificam, por exemplo, o que deveria ser óbvio: a perda de um emprego tem um impacto maior do que pode ser percebido apenas pela perda do rendimento. Eles também demonstram a importância das conexões sociais.

Qualquer boa medida sobre quão bem estamos precisa levar em conta a sustentabilidade. Como uma empresa precisa medir a depreciação do seu capital, também as contas nacionais devem refletir a finitude dos recursos naturais e a degradação do ambiente.

Sistemas estatísticos devem resumir o que está acontecendo em nossa complexa sociedade em alguns poucos números facilmente interpretáveis. Deveria ser óbvio que nem tudo pode ser reduzido a um número, o do PIB. O relatório da Comissão para Monitoramento do Desempenho Econômico e do Progresso Social deverá, espera-se, levar a um maior entendimento sobre os usos e abusos dessa estatística.

Ele também deverá ser um guia para a criação de uma série mais ampla de indicadores que captem acuradamente tanto o bem-estar como a sustentabilidade.

Por outro lado, deve dar ímpeto à capacidade do PIB e de estatísticas correlatas para avaliar o desempenho da economia e da sociedade. Tais reformas nos ajudarão a direcionar esforços (e recursos) de uma forma que leve a melhorias em ambos.



Veja ainda neste Blog:

O Fim da Crise e o capitalismo que virá

O PIB precisa ser colocado em seu papel de coadjuvante

O FIB (Felicidade Interna Bruta) é mais importante que o PIB


segunda-feira, 12 de outubro de 2009

"Belo Monte foi proposto por megalômanos e trambiqueiros há mais de 20 anos"


Entrevista especial com Oswaldo Sevá

“Acho que engenharia é uma coisa muito séria para ser praticada por pessoas que são mentirosas como este grupo que inventou e está tocando o projeto de Belo Monte há vinte anos. São mentirosos e agora estas mentiras estão começando a vir à tona, felizmente”. A afirmação é do professor Oswaldo Sevá, que faz, nesta entrevista que concedeu à IHU On-Line por telefone, uma crítica à construção da hidrelétrica de Belo Monte. Entre as consequências que a obra gerará, Sevá destaca que um lugar belíssimo conhecido como Volta Grande será completamente modificado. Ele indaga: “Porque pretendem cortar a Volta Grande inteira, abrindo canais imensos, do t amanho do canal do Panamá, para poder desviar essa água e cair na mesma margem?”. E, em seguida, responde, apontando que este projeto é absurdo, “foi imaginado por gente que só pensa em dinheiro”.

Oswaldo Sevá é graduado em Engenharia Mecânica de Produção pela Universidade de São Paulo. Fez mestrado em Engenharia de produção pelo Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia, e doutorado na Université de Paris I. Em 1988, a Universidade Estadual de Campinas, onde é professor atualmente, lhe concedeu o título de Livre-docência. Em seu site, o professor disponibiliza alguns arquivos sobre hidrelétricas em geral e sobre os projetos do rio Xingu. Sevá organizou três livros: TENOTÃ-MÕ. Alertas sobre as consequências dos projetos hidrelétricos no rio Xingu (São Paulo: International rivers Network, 2005); Riscos Técnicos coletivos ambientais na região de Campinas, SP (Campinas, SP: NEPAM - Unicamp, 1997); e Risco Ambiental - Roteiro para avaliação das condições de vida e de trabalho em três regiões : ABC/ SP, Belo Horizonte e Vale do Aço, MG, Recôncavo Baiano/BA (São Paulo: INSTY-Instituto Nacional de Saúde no Trabalho/CUT, 1992).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as principais falhas no projeto de Belo Monte?

Oswaldo Sevá –
O projeto é completamente absurdo. Um projeto de hidrelétrica, atualmente, deveria ter outros critérios. Esse é um projeto velho, que foi desenhado pela primeira vez no final dos anos 1970. Primeiro foi feito o inventário para calcular o potencial hidráulico do Xingu, que é baseado em uma concepção que já existe alguns lugares no Brasil, como sobre o rio Jacuí, no Rio Grande do Sul. Se pega o meandro do rio, corta-se esse meandro, desviando a água por uma das margens, para se colocar as turbinas em uma casa de força, depois do meandro. Começa por não se tratar de um projeto de uma hidrelétrica qualquer, não tem nada de parecido com Itaipu, nem com Tucu ruí, por exemplo. Não é uma usina que tem um único barramento, um prédio de concreto com as máquinas da casa de força e com vertedouros para o escoamento das cheias. É totalmente diferente disso.

Este projeto é muito mais parecido com o projeto da Usina Dona Francisca, no rio Jacuí, mas em uma dimensão cem vezes maior. Ele pega uma ideia da Volta Grande do Xingu. Esta pode ser enxergada a partir do satélite e aparece em qualquer mapa do Brasil, onde se vê o rio Xingu seguindo para o norte e descendo em direção ao rio Amazonas, de repente ele é obrigado a fazer uma volta de quase 200 quilômetros, chega a correr novamente para o sul, depois recomeça e aí retoma o rumo que ele tinha, fechando quase um anel completo, por isso chamado de Volta Grande. É um dos monumentos paisagísticos e fluviais do nosso planeta.

O projeto é absurdo porque pretende pegar um monumento fluvial, um lugar maravilhoso com cachoeiras de vários quilômetros de largura cada uma, com ilhas, arquipélagos florestados com morros dentro do rio, e pretende considerar que isso deve ser aproveitado para se fazer energia elétrica, simplesmente destruindo, fazendo uma coisa igual ou pior que Itaipu fez com as Cataratas das Sete Quedas do rio Paraná. Se fizermos isso com a Volta Grande, do Xingu, estaremos decretando a destruição de um dos lugares mais maravilhosos do mundo. Ninguém barrou as cataratas do Iguaçu, que eu saiba nem existe proposta para barrar, as cataratas do Niágara, nos Estados Unidos, as cataratas de Victória Falls no rio Zambezi, na África, portanto não tem que barrar e nem destruir a Volta Grande do Xingu. Isto é fácil de explicar desde que as pessoas estejam dispostas a considerar o planeta, os rios, a Amazônia, o que temos no mundo e o que as futuras gerações terão. Para discutir em term os de energia elétrica, custos e habilidade econômica, daria para fazer um rosário de argumentos.

IHU On-Line – Que critérios deve ter um projeto de hidrelétrica?

Oswaldo Sevá –
Acho que não existem critérios. Quando se fizeram a maioria das hidrelétricas brasileiras, entre os anos 1940 e 1980, o único critério que vigorava era medir a velocidade do rio, o desnível que existia, e construir uma usina de tal maneira que aproveitasse o máximo possível esta vazão. Este critério é de uma determinada época, já passou, porque, na maioria dos lugares em que permitia fazer isso, já foi feito. Não é um problema de falta de critério, é de visão de mundo. As pessoa s chegam lá, os burocratas, engenheiros, calculistas, as empresas que ganham dinheiro fazendo obras e vendendo eletricidade, olham um lugar maravilhoso como aquele, e só fazem contas, acham que vão conseguir modificar a geografia e o relevo daquele lugar de tal forma que isso vire um empreendimento rentável. Mesmo que fosse decidido fazer alguma obra lá, jamais deveria ser deste tamanho e com esta concepção. Ainda tenho muita esperança que os bancos financiadores e as entidades seguradoras vão descobrir isso, que é um projeto totalmente inviável do ponto de vista econômico exatamente porque é absurdo como projeto de engenharia. É um projeto que nem o próprio governo é capaz de dizer, até hoje, quanto irá custar. Até um ano atrás diziam uma mentira, que custaria sete bilhões de reais, depois passaram a dizer que iria custar onze, atualmente dizem que vai custar dezesseis, mas todo mundo sabe que vai custar pelo menos trinta. Tudo isso é o resultado de um processo completamente descontrolado de mentiras, de argumentos falaciosos, de falsidades que foram sendo construídas nos últimos vinte anos. É como se fosse um castelo de areia que está começando a ruir. Ainda bem.

IHU On-Line – E que debates foram feitos na época em que Itaipu foi construída?

Oswaldo Sevá –
Quando Itaipu foi construída, eu tinha acabado de me formar em Engenharia Mecânica, começava a dar aula em universidades e ainda não era um especialista na área de energia, embora prestasse muita atenção na natureza. Itaipu foi construída como resultado da união dos esforços de duas ditaduras militares, com meia dúzia de grandes empresas internacionais e mais a empresa brasileira Camargo Correa, que se tornou, a partir daí, uma multinacional. Foi resultado de duas ditaduras sangrentas, como foram a do ditador Stroessner, no Paraguai, e, no Brasil após o massivo período do Médici e do Geisel. Foram eles que decidiram fazer o que era melhor possível do ponto de vista do capitalismo da época e dos lucros das empresas que iam construir e vender os equipamentos, e simplesmente desprezaram qualquer critério de bom senso.

Itaipu nunca teve nenhuma cachoeira, na realidade era um trecho do rio em que as costas eram um pouco mais íngremes, formavam uma espécie de desfiladeiro natural com uma vazão muito grande. Foi necessário construir um prédio de 1 20 metros de altura, com mais de um quilômetro de largura, para fazer uma queda totalmente artificial que ali não existia. Lá no começo da represa de Itaipu, colocaram Sete Quedas embaixo d’água. Se tivessem feito ela trinta ou quarenta metros mais baixa, geraria 60 ou 70% da energia que gera e estariam ainda livres para visitação de milhões de turistas por ano, que iam deixar lá tanto dinheiro, praticamente o quanto se ganha com a venda de eletricidade, e estaria preservado aquele monumento fluvial para o resto da história do planeta. Faço questão de insistir nisso. As pessoas ficam querendo discutir, dialogar com o governo e as empresas no mesmo terreno. Eu faço questão de dizer que estou em outro terreno, em que eles não são capazes de dizer nada. Estou no terreno da ética e da civilização. Acho que engenharia é uma coisa muito séria para ser praticada por pessoas que são mentirosas como este grupo que inventou e está tocando o projeto de Belo Monte há vinte anos. São mentirosos e agora estas mentiras estão começando a vir à tona, felizmente.

IHU On-Line – O que a obra de Belo Monte trará para o rio Xingu?

Oswaldo Sevá –
É difícil saber o que uma obra feita em um ponto determinado do rio traz de consequência como um todo. O rio Xingu tem 2.300 quilômetros de comprimento, começa perto de Cuiabá, no planalto mato-grossense. O início dele está muito comprometido com o agronegócio, com a expansão do plantio de soja, de milho, e depois tem um pedaço grande, relativamente preservado, o nde fica o parque indígena do Xingu. Graças a Deus, foi criado um parque com uma área imensa, um conjunto de terras indígenas que já estão homologadas há quase 50 anos, e que é um pedaço que está muito mais preservado. Depois ele entra em um trecho encachoeirado, com quase 1.000 quilômetros ao longo do estado do Pará, e, lá no final deste trecho, um pouco antes dele desembocar no rio Amazonas, é que tem esta Volta Grande, onde a obra será construída.

Para o rio como um todo, se for feita, seria a primeira grande barragem, e iria interromper o fluxo natural do rio com consequências mais locais onde seria interrompido. Será a primeira barragem, mas não vai parar por aí porque se conseguirem fazer esta ninguém segura mais depois. Nos próximos vinte, trinta e quarenta anos vão ser feitas as outras quatro barragens que já foram calculadas e projetadas. Todo o rio brasileiro que tem uma barragem acaba tendo várias outras, não conheço históri a de um rio que tenha uma só. Nem o rio Jacuí, o rio Uruguai, o Iguaçu, o Paranapanema, o São Francisco e o Tocantins. Isto é uma empulhação que o governo federal resolveu fazer de um ano pra cá, de dizer que iriam fazer uma só. É tudo mentira, e ainda com a resolução que não tem menor valor de lei, de um conselho ministerial que praticamente não se reúne.

Então, se várias barragens forem feitas, o rio será destruído, passa a ser uma sucessão de lagos, de represas, como são vários rios brasileiros. Eles têm muita utilidade, podem gerar energia, criar peixes, podem ter hospedagem de classe média ou até de luxo na beira do rio para fazer turismo, mas deixa de ser um rio. Muitas vezes, a água apodrece, as espécies de peixe mudam, mas isso é um assunto para pessoas que são da área de ciências naturais, eles é que sabem dir eito qual é a consequência, mas só perder a Volta Grande já é uma algo enorme. O rio vai perder o seu principal trecho encachoeirado, uma parte dele vai ficar dentro d’água, e outra vai ficar sem água, completamente seca. As pessoas que moram lá não vão aguentar porque não vão ter nem água de poço para beber. Tem aspectos da vida local que também não estão sendo muito falados. Aquilo vai virar um inferno se, por acaso, a obra for feita, pois, as pessoas não vão mais ter condições de morar na região. Quem estiver na área alagada tem que sair, quem estiver na área seca vai sair também, pois será impossível de viver.

IHU On-Line – Um pesquisador afirmou que somente 39% da potência instalada de Belo Monte se transformará em energia firme. O que será feito com o resto?

Oswaldo Sevá –
Sobre discussão de energia firme acho o seguinte: estudei isso durante muito tempo, sou engenheiro mecânico, dou aula de energia na UNICAMP há muitos anos, acompanho várias obras e já conversei com pessoas que operam usinas hidrelétricas. Pouquíssimas pessoas no Brasil têm um conhecimento sofisticado, profundo, do funcionamento dos rios ao longo do ano, para poder afirmar que uma coisa que não existe ainda, no futuro, só terá uma determinada potência que é “x” % da potência das máquinas. Essa é uma questão que serve para ficarmos dizendo como a usina é mal projetada, mas não é por aí, pois, qualquer hidrelétrica tem muito mais máquinas do que precisa, porque, às vezes, elas têm que parar para manutenção. É preciso ter reservas. Durante o verão amazônico, pode acontecer de o rio Xingu não ter água suficiente para virar qualquer uma das máquinas previstas.

Agora, voltamos à questão: Por que pretendem instalar onze mil megawatts? Por que pretendem cortar a Volta Grande inteira, abrindo canais imensos, do tamanho do canal do Panamá, para poder desviar essa água e cair na mesma margem? Porque é um projeto absurdo, foi imaginado por gente que só pensa em dinheiro e está pensando em criar as coisas mais absurdas do mundo e que vai conseguir usar o dinheiro público para isso, e assim, ganhar dinheiro fazendo essas obras. É um problema de concepção. Vamos fazer as maiores obras de Engenharia Civil para ter a maior de todas, que é o jeito que encontraram para ganhar mais dinheiro. É uma coisa relativamente sim ples para qualquer cidadão entender. Estamos numa situação difícil de quase esquizofrenia para a sociedade, pois, Belo Monte foi proposto por megalômanos e trambiqueiros há mais de 20 anos, que continuaram a mentir para todo mundo do governo – que acreditam nas mentiras – e agora está chegando a hora da verdade, ou seja, o projeto começa a ser conhecido, mais detalhado e, ainda assim, não se tem a ideia do custo.

Esse é o indicador mais evidente dessa esquizofrenia. O governo diz que vai colocar a leilão a energia de Belo Monte daqui dois ou três meses e até hoje ninguém sabe quanto ele vai custar. Não existe isso em lugar nenhum no mundo. Esse é um sintoma de insanidade mental que foi mantida durante 20 anos. Podemos ficar horas falando dos impactos aqui e ali, inclusive sobre a energia firme que você levantou nessa questão. Ac ho, inclusive, que a maioria dos que estão falando da energia firme conhece muito pouco o problema. Aqui na Unicamp, onde eu trabalho, deve ter três ou quatro pessoas só que entendem direitinho do funcionamento dos rios e que seriam capazes de dizer alguma coisa a respeito disso. As simulações que fizemos aqui na Faculdade de Engenharia Elétrica são totalmente diferentes dos cálculos do governo.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre as audiências públicas que foram feitas sobre a construção de Belo Monte?

Oswaldo Sevá –
Eu estava analisando de longe, pois não pude participar porque há alguns meses fiz uma cirurgia muito pesada e estou em fase de tratamento. Fiquei na retaguarda, recebendo noticias e fotografias. Já participei de muitas audiências públicas em São Paulo, as audiências que são feitas pelo Conselho Estadual do Meio Ambiente de São Paulo são muito mais organizadas e democráticas nesse sentido. O tempo de apresentação dos empreendedores e das entidades ambientalistas é mais ou menos equiparado. Os políticos não falam no começo da audiência, porque ela é técnica. Além disso, as quais participei, tiveram um caráter informativo maior porque fazia-se uma série de observações, assim, o empreendedor tinha o direito de replicar, e as entidades ambientalistas tinham direito a treplicar. Eram muito interessantes, muitas delas foram tensas, tiveram a presença da polícia. Mas nas audiências de lá, estavam todos morrendo de medo, de novo, que os índios fossem lá fazer aquela covardia como fizeram em maio de 2008 e machucaram o engenheiro da Eletrobrás. Com isso, botaram cerca de 400 policiais, guardas nac ionais, agentes da ABIN e polícia federal para proteger os caras do IBAMA e empreendedores. Então, é difícil imaginar uma audiência verdadeira com um clima desses.

A audiência não pesa no licenciamento. Ela é uma espécie de mise-en-scène que o empreendedor faz questão que seja realizado, porque depois tem que demonstrar que houve participação pública, e que o IBAMA também faz questão de realizar para ter um álibi. Mas a decisão, no caso de Belo Monte, já está tomada lá em cima, lá na Casa Civil, que já mandou dizer ao Carlos Minc logo que entrou no Ministério, que Belo Monte vai ter a licença prévia ambiental concedida. No fundo, você pode dizer que é uma palhaçada, porque as pessoas que levam a sério vão lá, gastam dinheiro do próprio bolso, mas, para o IBAMA e para os empree ndedores, aquilo é um teatro, porque já está tudo resolvido. O IBAMA vai conceder a licença prévia, só não vai fazer isso se acontecer algum terremoto. Essa decisão é do governo. A audiência é um meio para desgastar e é, também, um álibi. É uma pena, porque poderia ser de fato um momento para haver um debate.


Usina de mudanças

O projeto hidrelétrico de Belo Monte, no Pará, terá mais do que a missão de garantir a oferta de nova energia para a expansão da economia brasileira. A construção desse gigante, com impactos sobre 11 municípios e nove terras indígenas no norte do Pará, significará uma mudança completa da geografia econômica do Brasil, e sobretudo da Amazônia.

A reportagem é de Agnaldo Brito e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 20-09-2009.

Está será a maior obra de infraestrutura já realizada no país desde Itaipu e um teste para o que o governo sugere ser um novo modelo de "ocupação e uso sustentável" de uma região com baixíssimos índices de desenvolvimento e, em parte, já corroída pela exploração desordenada.

Se liberado pelo Ibama dentro de algumas semanas - como espera o governo -, Belo Monte será o 3º maior empreendimento hidrelétrico do planeta, com 11,2 mil MW, só aquém do projeto chinês de Três Gargantas (18 mil MW) e de Itaipu (14 mil MW). A obra vai exigir uma das maiores engenharias financeiras já montadas no hemisfério Sul. Demandará, segundo estimativas do governo, R$ 20 bilhões ou mais. O valor final será divulgado nesta semana.

Na Volta Grande, zona de transição entre o médio e o baixo rio Xingu, o projeto inspira reações diversas, da apreensão à euforia. A obra afetará áreas indígenas, desmatará grandes áreas de floresta e secará parte do rio Xingu. Promete, de outra parte, levar empregos e infraestrutura a uma região miserável que parece abandonada pelo Estado brasileiro.

A usina só ficará pronta depois de uma década de obras. Os números são superlativos. A movimentação de terra (150 milhões de metros cúbicos) e de rocha (60 milhões de metros cúbicos) será superior à que foi necessária para a construção dos 82 quilômetros do Canal do Panamá, que rasga a América Central e liga os oceanos Pacífico e Atlântico. O empreendedor terá de movimentar 310 milhões de toneladas, o equivalente a mais de duas safras de grãos do país.
A previsão é que Belo Monte mobilize 100 mil pessoas, incluídos os 18,7 mil trabalhadores empregados nas obras, 23 mil nas atividades que orbitam o empreendimento e um contingente de 55 mil pessoas em busca do "novo Eldorado".

Projeto militar

Para os críticos, essa parece ser uma conta subestimada. Avaliam que a obra mobilizará o dobro, 200 mil pessoas.

Rabiscado pela primeira vez em 1975, quando o governo militar lançou grandes planos de ocupação da Amazônia, o projeto deve finalmente sair do papel em dezembro, após um dos maiores leilões públicos a ser realizado no país, em ato que concretiza um sonho do governo Lula. Grupos nacionais e internacionais de infraestrutura estudam participar do projeto.

Maior obra do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), Belo Monte promete retomar e consolidar -despertando preocupação em ambientalistas- o plano nacional de ocupação amazônica.

Os principais objetivos do projeto, segundo o governo, são nutrir o sistema elétrico brasileiro com farto potencial de hidroeletricidade e possibilitar a industrialização da Amazônia.

Aliado do projeto, o governo do Pará impõe como condição o fornecimento de energia barata para grandes mineradores. No governo, a tendência é que o pedido seja aceito.

"O Brasil pode retomar um caminho que tínhamos abandonado. Um potencial hidrelétrico como o que temos na região Norte precisa ser explorado. Não é razoável que fiquemos comprando energia térmica quando temos uma opção renovável", diz Maurício Tolmasquim, presidente da EPE (Empresa de Pesquisa Energética).

Para os opositores, o problema é o modelo. "O que está em discussão não é só a usina de Belo Monte mas o modelo de desenvolvimento que está por trás do projeto. O impressionante é que de alguma maneira o plano repete o modelo de ocupação visto no período militar", diz Rodrigo Timóteo da Costa e Silva, procurador do Ministério Público Federal em Altamira (PA). A região teme a repetição de desastres ambientais como os ocorridos em Tucuruí (PA) e Balbina (AM).

A esperança do governo federal é a de que da Amazônia - 4% do território da Terra - venham os 4.000 MW anuais de que o país precisa para expandir o parque gerador nacional e assim manter distante qualquer ameaça de apagão.

Com 12% da água doce do planeta, o país já concluiu que 70% da disponibilidade de hidrelétricas ainda não foi aproveitada e que 66% dessa riqueza fica no Norte. Por isso, após os projetos do Madeira (6.400 MW) e de Belo Monte, deve vir o próximo: o complexo hidrelétrico Tapajós. E este não com uma, mas com cinco usinas.


Produção de energia em usina sofrerá fortes oscilações

A grande oscilação entre cheias e secas do rio Xingu vai transformar a hidrelétrica de Belo Monte numa imensa usina "vaga-lume". A vazão do rio pode alcançar 20 mil metros cúbicos por segundo no período de cheia, e em outros momentos, como agora, pode baixar a menos de mil metros cúbicos por segundo entre os períodos de setembro a outubro.

A reportagem é de Agnaldo Brito e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 20-09-2009.

A Grande São Paulo, maior núcleo urbano do país, consome cerca de 60 metros cúbicos de água por segundo. O Xingu, mesmo na baixa, pode abastecer 16 cidades como São Paulo. Mas com essa imensa variação do nível d'água, Belo Monte terá, no período seco, pouca água para movimentar as turbinas.

Para extrair a energia dos 11,2 mil MW, são necessários 14 mil metros cúbicos por segundo de água, condição só possível entre os meses de março e abril, auge do período chuvoso. A previsão é que em outubro a situação seja inversa, de baixíssimo volume d'água, com geração ínfima.

"Como é possível uma usina com tantos problemas ambientais ter uma ociosidade dessa magnitude? Se a vazão do rio baixar mais de 700 metros cúbicos por segundo, o que já ocorreu, Belo Monte produzirá quase como uma pequena central hidrelétrica", critica Francisco Hernanes, pesquisador do IEE/USP (Instituto de Eletrotécnica e Energia da Universidade de São Paulo) e um dos coordenadores do grupo de 38 especialistas de várias regiões do país que apresentará ao Ibama suas impressões sobre o projeto até o fim deste mês.

Só a partir dessa particularidade é possível relativizar o tamanho de Belo Monte. Embora a capacidade seja imensa, a energia firme extraída da usina será de 4.428,1 MW, 39,4% da capacidade total, algo próximo às usinas do Madeira (Jirau e Santo Antônio). Essa potência com que o país poderá de fato contar é 7,5% menor do que havia desejado a Eletrobrás.

A área ambiental exigiu a liberação de pelo menos 700 m3/s para o trecho de vazão reduzida do Xingu, para a Volta Grande. A barragem vai desviar o rio e vai secar parte dos 100 quilômetros da Volta Grande. No período chuvoso, o volume d'água abaixo da barragem principal será, no máximo, de 4.000 m3/s no primeiro ano e de 8.000 m3/s no ano seguinte. Foi a forma encontrada para se evitar uma catástrofe ambiental, com morte de peixes e da floresta ribeirinha, além de assegurar condições de navegação aos povos da região.

Walter Cardeal, diretor de engenharia da Eletrobrás, não considera esse um problema para a operação da usina. A justificativa: apesar disso, Belo Monte vai revezar com as usinas do Sul e do Sudeste no abastecimento do Sistema Interligado Nacional. "As chuvas na região Norte ocorrem antes das chuvas do Sudeste. Com isso, Belo Monte pode gerar energia enquanto as usinas do Sul e do Sudeste reservam água, e vice-versa", explica.

Maurício Tolmasquim, presidente da EPE, reconhece o problema, mas justifica que isso ocorre em razão da impossibilidade hoje de construir usinas como Itaipu, com grandes "estoques" de água. Foi isso que reduziu de 1.225 para 516 quilômetros quadrados a área alagada pelo projeto. "O país perde potencial energético, é inevitável. Ou fazemos isso, ou não temos mais hidrelétricas."

Para especialistas, reside aí um dilema. Uma resolução do CNPE (Conselho Nacional de Política Energética) determinou a construção apenas de Belo Monte na bacia do rio Xingu. "Quem pode assegurar que, numa eventual crise energética, o CNPE não mude sua posição e aprove outras barragens no Xingu para aproveitar mais a capacidade que ficará ociosa?", disse Hermes Fonseca de Medeiros, professor-adjunto da Faculdade de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará. Para especialistas, a resolução não é uma garantia.


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sábado, 10 de outubro de 2009

A queda do Muro de Berlim: governantes ocidentais foram contra



Entrevista com Mikhail Gorbachev


Vinte anos depois, Mikhail Gorbachev conta a história desconhecida do Muro de Berlim. Sentado em seu escritório de Moscou no Leningradskij Prospekt, fala com um fio de voz, com calma. Mas das suas palavras transparece toda a emoção, a satisfação, mas também a indignação por aquilo que viu naquele ano fatal entre 1988 e 1989, que marcou para sempre a história do século XXI.

Lembra-se das pessoas de Berlim que saíram às praças, que lhe gritavam "Gorby, fique conosco", "Gorby, freiheit!", liberdade! Ele retornou com a mente aos acontecimentos que, verdadeiramente, comoveram o mundo, as reuniões com os partidos irmãos, ainda incertos e temerosos, os encontros e os telefonemas com Helmut Kohl, "a inadequação de Honecker", o chefe comunista da Alemanha Oriental, que não sabia entender. E depois "a feroz batalha contra a perestroika que se desenvolvia em Moscou", enquanto na Europa os líderes ocidentais procuravam impedir a reunificação alemã.

A reportagem é de Fiammetta Cucurnia, publicada no jornal La Repubblica, 30-09-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis a entrevista.

Mikhail Sergheevic, quando o senhor entendeu que, para a Alemanha, havia chegado o momento da unificação?

A história não é feita em um dia, e não poderei lhe indicar uma data precisa. A queda do Muro de Berlim, de fato, foi só o ato final, a culminação de um processo que ocorria há muito tempo. Quando as mudanças começaram a marchar na URSS, ocorreram as primeiras eleições democráticas, e, nos países do Leste europeu, estouraram as primeiras revoluções, de veludo ou não. Quando começou também o processo de desarmamento entre EUA e URSS, com o desmantelamento dos mísseis nucleares, uma triste realidade se mostrava claramente diante de nós: a Alemanha, e só a Alemanha, ficava à margem da grande estrada da história. Eles, os alemães, sentiam-se ofendidos e angustiados por causa isso. E eu os entendo.

Em sua opinião, qual foi o ato de nascimento da reunificação alemã?

Estamos falando de 1988. Foi então que, na Alemanha, ocorreram as primeiras manifestações. Em Moscou, chegava a notícia de cidadãos alemães orientais que procuravam passar para a República Federal através da fronteira húngara, diretamente ou através do vale austríaco. Depois, o mesmo ocorreu com a embaixada alemã na Polônia e na Tchecoslováquia, onde era possível chegar mais agilmente e onde os alemães orientais, então, pediam ajudar para passar para o Oeste. Eram pedidos sempre mais maciços e urgentes, que se tornaram depois um rio transbordante no verão [europeu] de 1989. Mas começaram bem antes que a imprensa se desse conta, muito antes que Hans-Dietrich Genscher [ministro do Exterior alemão] pudesse anunciar, na capital tchecoslovaca, a abertura da fronteira com a República Federal alemã. A história havia se colocado em ação. É inútil procurar relê-la hoje de modo primitivo. Os acontecimentos amadureceram no tempo, até que o seu fluir se tornou tão impetuoso que deixou só duas possíveis saídas: ou encontrávamos o modo de geri-los e governá-los, ou nos derrubavam.


Portanto, ficou logo claro para o senhor que a reunificação alemã era iminente?

O que eu entendi já perto do final de 1988 era que já era tarde demais para frear os eventos. Os alemães não tinham intenção de abandonar as praças e voltar para casa, resistiriam até o final, até a vitória. No dia 26 de janeiro de 1989, enquanto os protestos enfureciam em Berlim, decidi convocar uma reunião do Politburo, ampliada aos militares e aos diplomatas, para sondar os humores. Todos se disseram convencidos de que os alemães não se renderiam.

O PCUS [Partido Comunista da União Soviética] não temia a reunificação alemã?

Eram tempos de fogo. No partido, a batalha enfurecia, contra mim e contra a perestroika. Principalmente naquele momento. Estavam em jogo as grandes reformas políticas, as primeiras eleições livres da nossa história milenar. Justamente em 1989, o Politburo se reuniu logo depois das eleições de março. O resultado era impressionante: eleições livres, com listas de sete a 27 candidatos, em vez do nome único a que estávamos habituados. Pela primeira vez, todas as organizações tinham apresentado seus próprios candidatos e, no fim, 35 secretários regionais do partido não conseguiram ser eleitos, mesmo tendo à sua disposição todo o poder e todos os meios. Feitas as contas, porém, 84% dos deputados eleitos eram comunistas. O Politburo não conseguia aceitar que o nosso país, e com ele as nações que faziam parte do Pacto de Varsóvia, decidisse em plena autonomia a mudança dos homens no poder. Assim, logo depois, as forças reacionárias do partido começaram a se organizar e a fazer coalizões contra as mudanças, que percebiam como uma ameaça mortal. Foram golpes muito ferozes. Sempre às escondidas, pelas costas, porque não tinham nem a coragem nem a força de se mostrarem. Mais de uma vez fui obrigado a dar um soco na mesa e me retirar.

E os dirigentes alemães?

Naquele ano, fui à Alemanha duas vezes. Em junho, estive em Bonn, onde me encontrei com Kohl. Foi uma conversa calorosa, muito, muito amigável. Os jornalistas me perguntaram depois se havíamos discutido sobre os episódios alemães. Certamente havíamos discutido. Mas não havíamos decidido nada. Não era uma coisa que podia ser decidida em uma mesa de bar. Será a história, eu disse, que decidirá por nós. Quando? Eu e Kohl demos a mesma resposta, como se tivéssemos nos colocado de acordo: não antes do século XXI. Pelo contrário, as coisas ocorreram diferentemente. Bem rápido ficou claro que aquilo que ocorria na Alemanha não podia ser parado. Kohl me chamou mais de uma vez, já nos telefonávamos seguidamente: "O que fazemos?". Eu lhe dizia: "Fique atento. Não faça movimentos arriscados, senão serão perigosos". Foi então que ele apresentou os famosos dez pontos para a reaproximação entre as duas Alemanhas, que previam uma série de etapas em vista da reunificação. Nós, em Moscou, não fomos entusiastas dessa sua saída, mas as iminentes eleições alemãs lhes obrigavam a fazer alguma coisa.


O que o senhor encontrou em Berlim?

Cheguei a Berlim no dia 06 de outubro de 1989, para os festejos do 40º aniversário da RDT. Lembro que logo me dei conta do clima de inquietação, um fermento novo. Também logo me dei conta que o poder havia perdido a sua ligação com o país. Era uma realidade difundida, que não se referia diretamente à questão do muro. Era como se os alemães estivessem dando abertura à frustração de terem sido abandonados e deixados para trás, apenas eles, enquanto em todos os lados as transformações se impunham nos palácios do Leste. Há meses, as praças estavam cheias, pequenas e grandes manifestações que desafiavam o regime. Quando cheguei, entre os eventos organizados para o 40º aniversário estava também a Fackelzug, a marcha das tochas, na qual participavam os delegados de 28 regiões. Encontrei-me diante de uma massa de jovens e de menos jovens, cheios de entusiasmo, que gritavam "Gorbachev, fique aqui por um mês! Gorby, liberdade!". O primeiro-minis tro polonês, Tadeusz Mazowiecki, se aproximou de mim e disse: "Mikhail Sergheevic, o senhor entende alemão?". "Talvez com um tratado eu teria alguma dificuldade, mas eu entendo o que estão gritando aqui". E ele, em resposta: "Então entenderá que este é o fim".

É verdade que Honecker lhe revelou um dos seus maiores problemas?

Encontrei-o justamente naqueles dias. Foi uma conversa longa, de pelo menos três horas. Observei-o bem e me sentia desconfortável. Tinha a impressão de que fosse totalmente inadequado à grandeza dos eventos que estávamos vivendo. Como se não tivesse a percepção do que realmente tínhamos na nossa frente. Assim, no dia seguinte, pedi que me pudesse encontrar com toda a direção do partido. Não fiz recriminações, nem os incitei a agir. Fiel à linha que havia escolhido, contei sobre a perestroika, de como havíamos chegado tarde com as nossas decisões e por isso havíamos perdido e de como, pelo contrário, havíamos nos apressado muito outras vezes, terminando por tornar a tarefa ainda mais difícil. Os processos em curso, disse-lhes, exigiam grande inteligência. Depois, esse discurso se tornou famoso, resumido na frase "A história pune quem chega tarde".


Mikhail Sergheevic, como se comportaram os líderes europeus? É verdade que salvariam o muro com prazer?

Essa é uma questão dolorosa. À exceção dos EUA, posso dizer que todos estavam contra. Margaret havia se inclinado abertamente pelo "não". Não dizia isso publicamente, mas não fazia mistério durante os encontros oficiais. Andreotti era contrário, e Mitterrand era ferozmente contrário. Mais esperto do que os outros, dizia: "Amo a Alemanha de tal forma que prefiro ter duas". Todos os líderes europeus tinham medo. Mas não faziam propostas sobre como enfrentar a situação. Ficou-me claro que gostariam de impedir a queda do muro e a reunificação, mas queriam que, materialmente, nós os impedíssemos. Com o exército. Com as tropas de Gorbachev. Todos vieram até mim, um depois do outro, pedindo isso, abertamente. Com Mitterrand fomos a Kiev e falamos sobre isso. Só depois, quando tudo precipitou e tratou-se de decidir, todos assinaram.



Tem arrependimentos?

Pensei várias vezes nisso nestes anos. O que teria ocorrido? Os tanques e os soldados fora das casernas em marcha em Berlim. Muito sangue teria corrido. A Europa nas mãos dos militares de Oriente a Ocidente, armados até os dentes, dois milhões de cada lado. Poderíamos ter chegado à Terceira Guerra Mundial. Estou certo de que seria exatamente assim. E, de resto, disse isso desde o início aos dirigentes dos países do Pacto de Varsóvia, que não nos intrometeríamos mais nos seus assuntos internos. Talvez não tenham acreditado em mim, mas eu mantive a palavra. Nunca interviemos nas suas questões. E foi essa a sua tragédia.

Portanto, o senhor achou legítimas as expectativas dos alemães?

A primeira vez que fui à Alemanha foi em 1966. Ainda tinha no coração a recordação da dor, das destruições, das vítimas e dos horrores do nazismo. Mas quanto caminho os alemães fizeram no pós-guerra! Tanto no Leste quando no Oeste. Humilharam-se, pediram perdão, fizeram uma grande obra de purificação antinazista e democrática. Não é possível imaginar que eles tivessem que responder por Hitler até o final dos tempos. Hoje, todos parecem pensar assim. Mas nessa história há apenas dois heróis: os alemães e os russos.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Lula, desmatamento zero e os carecas


O presidente Luiz Inácio Lula da Silva demonstrou estar pouco familiarizado com o conceito de desmatamento zero ao afirmar, durante a Cúpula entre Brasil e União Européia em Estocolmo, na Suécia, que “nem que fosse careca o Brasil pode assumir uma meta de desmatamento zero, porque sempre vai haver alguém que vai cortar alguma coisa”.

A análise é do sítio Greenpeace, 08-09-2009.

A afirmação do presidente contraria o entendimento de importantes setores da economia nacional – como o do agronegócio, representado pela indústria da soja e os maiores frigoríficos do país – que já incorporaram o esforço de acabar com o desmatamento em suas cadeias de produção.

O desmatamento zero busca assegurar a conservação da floresta amazônica devido à sua crucial importância na manutenção do equilíbrio climático, da conservação da biodiversidade e na preservação do modo de vida de milhões de pessoas que dependem dela para sobreviver. Uma política de desmatamento zero não impede que árvores sejam cortadas, desde que de forma sustentável.

Ao contrário do que imagina o presidente, o desmatamento zero pretende acabar com o corte raso e a degradação de grandes extensões de mata e deve preocupar igualmente carecas e cabeludos. Aliás, quanto menos cabelo, mais cuidado deve ser dado a ele. O objetivo de uma política de desmatamento zero é dar corpo a uma gestão cuidadosa da floresta que ainda existe, com o estabelecimento de todo o remanescente como reserva florestal nacional, com exceção das propriedades particulares e em casos que envolvam populações tradicionais e indígenas.

A meta de obter uma redução de 80% do desmatamento até 2020, com relação à média do corte registrado entre 1996 e 2005, prometida pelo presidente no mês passado, é insuficiente. À luz da atual crise climática global, permitir a derrubada de 20% de mata em relação à média do período significa muito mais do que “ter sempre alguém cortando alguma coisa”. O presidente precisa botar seus assessores para fazer contas. Estima-se que em cada quilômetro quadrado da floresta amazônica, existam entre 45 mil e 55 mil árvores com mais de dez centímetros de diâmetro*.

A lógica presidencial, que admite que o Brasil continue derrubando cerca de 3.900 km2 de suas matas em 2020, significa que o país perderá, apenas neste ano, entre 175 milhões e 215 milhões de árvores. Isto está longe de ser um pauzinho qualquer. A diferença entre a proposta do Greenpeace e de outras organizações – Instituto Socioambiental, Instituto Centro de Vida, Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia, The Nature Conservancy, Conservação Internacional, Amigos da Terra, Imazon e WWF-Brasil – de zerar o desmatamento em 2015 e a de Lula, de permitir 20% de desmatamento em 2020, equivale aceitar que nesse intervalo de cinco anos o Brasil perderá entre 800 milhões e 1 bilhão de árvores na Amazônia. Francamente, é um número inaceitável. Como por sinal parecia ser inaceitável para o próprio Lula há alguns meses.

Em junho desse ano, em Alta Floresta (MT), Lula disse que “se houve um momento em que a gente podia desmatar, agora desmatar joga contra a gente e vai nos prejudicar no futuro. Hoje, em vez de dizer que não pode cortar árvore, nós temos de incentivar e pagar para as pessoas plantarem árvores”, afirmou. Além de ser a forma mais barata e rápida de combater as mudanças climáticas, zerar o desmatamento é fundamental para o desenvolvimento econômico do país no longo prazo, já que as chuvas produzidas na Amazônia são importantes para a geração de energia, a produção de alimentos e o abastecimento de água nas regiões Centro-oeste, Sul e Sudeste do Brasil.

Ter como meta resguardar o que ainda nos resta de matas é buscar um futuro melhor para as gerações de brasileiros que virão. O Greenpeace se coloca à disposição do presidente para esclarecer quaisquer dúvidas que ele tenha sobre o conceito de desmatamento zero, a fim de construir um Brasil mais sustentável, justo e de fato inserido no esforço global contra as mudanças do clima. E, apenas para ajudá-lo na sua reflexão sobre esse futuro, não custa lembrar que o Brasil já perdeu 700 mil quilômetros quadrados de floresta amazônica nas últimas quatro décadas. Nesse espaço de tempo e de área, entre 33 bilhões e 41 bilhões de árvores viraram fumaça, ajudando a transformar o Brasil no quarto maior emissor mundial de gases que provocam o aquecimento global.

Agrotóxicos no seu estômago





"Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos", escreve João Pedro Stédile, economista e integrante da coordenação nacional do Movimento dos Sem Terra (MST), em artigo publicado no jornal O Globo, 24-09-2009.

Eis o artigo.

Os porta-vozes da grande propriedade e das empresas transnacionais são muito bem pagos para todos os dias defender, falar e escrever de que no Brasil não há mais problema agrário. Afinal, a grande propriedade está produzindo muito mais e tendo muito lucro. Portanto, o latifúndio não é mais problema para a sociedade brasileira. Será? Nem vou abordar a injustiça social da concentração da propriedade da terra, que faz com que apenas 2%, ou seja, 50 mil fazendeiros, sejam donos de metade de toda nossa natureza, enquanto temos 4 milhões de famílias sem direito a ela.

Vou falar das consequências para você que mora na cidade, da adoção do modelo agrícola do agronegócio.

O agronegócio é a produção de larga escala, em monocultivo, empregando muito agrotóxicos e máquinas.

Usam venenos para eliminar as outras plantas e não contratar mão de obra. Com isso, destroem a biodiversidade, alteram o clima e expulsam cada vez mais famílias de trabalhadores do interior.

Na safra passada, as empresas transnacionais, e são poucas (Basf, Bayer, Monsanto, Du Pont, Sygenta, Bungue, Shell química...), comemoraram que o Brasil se transformou no maior consumidor mundial de venenos agrícolas. Foram despejados 713 milhões de toneladas! Média de 3.700 quilos por pessoa. Esses venenos são de origem química e permanecem na natureza. Degradam o solo. Contaminam a água. E, sobretudo, se acumulam nos alimentos.

As lavouras que mais usam venenos são: cana, soja, arroz, milho, fumo, tomate, batata, uva, moranguinho e hortaliças. Tudo isso deixará resíduos para seu estômago.

E no seu organismo afetam as células e algum dia podem se transformar em câncer.

Perguntem aos cientistas aí do Instituto Nacional do Câncer, referência de pesquisa nacional, qual é a principal origem do câncer, depois do tabaco? A Anvisa (Agência Nacional de Vigilância Sanitária) denunciou que existem no mercado mais de vinte produtos agrícolas não recomendáveis para a saúde humana. Mas ninguém avisa no rótulo, nem retira da prateleira. Antigamente, era permitido ter na soja e no óleo de soja apenas 0,2 mg/kg de resíduo do veneno glifosato, para não afetar a saúde. De repente, a Anvisa autorizou os produtos derivados de soja terem até 10,0 mg/kg de glifosato, 50 vezes mais. Isso aconteceu certamente por pressão da Monsanto, pois o resíduo de glifosato aumentou com a soja transgênica, de sua propriedade.

Esse mesmo movimento estão fazendo agora com os derivados do milho.

Depois que foi aprovado o milho transgênico, que aumenta o uso de veneno, querem aumentar a possibilidade de resíduos de 0,1 mg/kg permitido para 1,0 mg/kg.

Há muitos outros exemplos de suas consequências. O doutor Vanderley Pignati, pesquisador da UFMT, revelou em suas pesquisas que nos municípios que têm grande produção de soja e uso intensivo de venenos os índices de abortos e má formação de fetos são quatro vezes maiores do que a média do estado.

Nós temos defendido que é preciso valorizar a agricultura familiar, camponesa, que é a única que pode produzir sem venenos e de maneira diversificada. O agronegócio, para ter escala e grandes lucros, só consegue produzir com venenos e expulsando os trabalhadores para a cidade.

E você paga a conta, com o aumento do êxodo rural, das favelas e com o aumento da incidência de venenos em seu alimento.

Por isso, defender a agricultura familiar e a reforma agrária, que é uma forma de produzir alimentos sadios, é uma questão nacional, de toda sociedade.

Não é mais um problema apenas dos sem-terra. E é por isso que cada vez que o MST e a Via Campesina se mobilizam contra o agronegócio, as empresas transnacionais, seus veículos de comunicação e seus parlamentares, nos atacam tanto.

Porque estão em disputa dois modelos de produção. Está em disputa a que interesses deve atender a produção agrícola: apenas o lucro ou a saúde e o bem-estar da população? Os ricos sabem disso e tratam de consumir apenas produtos orgânicos.

E você precisa se decidir. De que lado você está?

quinta-feira, 8 de outubro de 2009

Economia verde pode proporcionar salto tecnológico para países em desenvolvimento



Muitos países em desenvolvimento ignoraram a tecnologia da rede fixa e pularam diretamente para a era digital. Mas também a eficiência energética pode significar uma chance de avanço tecnológico no século XXI.

A reportagem é de Helle Jeppesen, publicada pela Deutsche Welle, e reproduzida por EcoDebate, 08-10-2009.

Quando o assunto é tecnologia de comunicação móvel, muitos países em desenvolvimento já estão mais direcionados para o futuro do que os chamados países industrializados. Muitos simplesmente pularam a tecnologia de rede fixa, entrando direto na era digital.

Também a eficiência energética no século 21 poderia proporcionar a muitos países em desenvolvimento tal salto tecnológico. Afinal, energia é precondição para o crescimento econômico e o desenvolvimento. Isso explica os duros conflitos acerca do uso de energias fósseis e da redução de emissões de gases-estufa, travados nas negociações que pretendem levar a um acordo global sobre o clima em Copenhague, em dezembro próximo.

Grande negócio

No século 21, o mundo globalizado será definido não apenas pelas mudanças climáticas, mas também pela escassez de recursos. Sendo assim, a a energia exerce um papel fundamental, explica Martin Kaiser, chefe da delegação do Greepeace na rodada de negociações preparatórias que acontecem atualmente em Bangcoc.

“A luta pelo pioneirismo no setor de energias renováveis já começou há tempos. A Alemanha é com certeza pioneira e os EUA investem atualmente imensas quantias para recuperar o atraso. Também países como a China estão enormemente interessados em introduzir essas tecnologias, mas também em distribuí-las. É um big business”, conclui Kaiser.

Nova revolução tecnológica

Especialistas estão convencidos de que a nova economia verde vai definir o caminho do futuro. Da mesma forma que na tecnologia de comunicação, haverá um salto tecnológico também no setor energético, que consequentemente se refletirá na economia, argumenta Hermann Scheer, um dos iniciadores da Agência Internacional de Energias Renováveis da ONU (Irena) e pioneiro na luta por fontes energéticas sustentáveis.

Para Scheer, esta será a próxima grande revolução tecnológica industrial, cuja importância deverá ser ainda maior que a da revolução da tecnologia de informação, que ainda está em curso.

Trata-se, segundo ele, de uma grande chance de reforçar o progresso da sociedade industrial, o que não seria mais possível com as energias convencionais. “Não somente porque elas estão se acabando, mas também porque os efeitos prejudiciais se tornaram grande demais, provocando prejuízos econômicos de grande dimensão.”

De olho no Quênia

Segundo Achim Steiner, diretor-executivo do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (Pnuma), o processo de adaptação para o futuro já começou. E países em desenvolvimento, tal qual o Quênia, onde está situada a sede do Pnuma, já tomaram conhecimento desses primeiros sinais.

Para ele, trata-se de um salto tecnológico semelhante ao da telecomunicação móvel. “No Quênia, por exemplo, estão sendo instalados cabos de fibra ótica, num país com regiões que nem são servidas pela rede elétrica. Mas cabos de fibra ótica já chegaram lá.”

Também quanto à eficiência energética, muitos países em desenvolvimento estão se preparando para o futuro. Nos próximos dois anos, o Quênia pretende triplicar a produção de energia elétrica proveniente de instalações geotérmicas.

Além disso, uma nova lei incentiva o uso da energia eólica no país, informou Steiner. Aprovada em janeiro, ela garante tarifas de remuneração para as empresas energéticas, permitindo assim o surgimento, nos próximos três ou quatro anos, do maior parque eólico do Quênia, em Turcana, no nordeste do país.

Ele calcula que, em dez anos, o Quênia poderá suprir sua demanda total de energia elétrica completamente livre de emissões de CO2, desde que também aposte na produção de energia solar em grande escala. Mas admite: “São necessários grandes investimentos para garantir um salto tecnológico como esse”.

Descentralizadas e renováveis

Para garantir tais investimentos, as negociações de um novo acordo climático global incluem também a transferência de tecnologia e o pagamento de compensações.

A vantagem é que tecnologias como a eólica e a solar se tornam cada vez mais baratas: quanto maior a quantidade e, quanto mais a tecnologia for testada, menor o preço. No final das contas, em muitas regiões ainda não interligadas à rede elétrica é mais barato investir em fontes energéticas descentralizadas e renováveis do que em tecnologias antiquadas.

A China, por exemplo, já tomou conhecimento disso, conta Jürgen Meier, diretor da Fundação Meio Ambiente e Desenvolvimento. Segundo ele, o país asiático é de longe o maior mercado mundial de aquecimento solar térmico, ou seja, o aquecimento de água para edifícios através da energia solar. Além disso, possui o programa eólico mais ambicioso do mundo, com fabricantes próprios, não dependendo mais da importação, explica Meier.

Donos do futuro

Meier ri ao dizer que “alguns fabricantes europeus já estão até com medo de que os chineses venham a construir suas próprias turbinas eólicas”. Ele informa que o Império do Meio produz células solares fotovoltaicas em grandes estilo, que, todavia, são destinadas quase completamente à exportação, já que os estímulos na China ainda são muito poucos. “Embora eu ache que isso vai mudar”, aposta.

Nesse contexto, os países industrializados já deveriam estar disputando quem irá reduzir em maior quantidade e de forma mais rápida as emissões de CO2 provenientes de fontes energéticas fósseis. Pois o futuro, como hoje já se mostra, pertencerá àqueles que puderem suprir o mercado global com energia sustentável e independente.

quarta-feira, 7 de outubro de 2009

Pesquisadores estimam que já ultrapassamos os limites da Terra


Identificar e quantificar os limites da Terra que não podem ser transgredidos ajudaria a evitar que as atividades humanas continuem causando mudanças ambientais inaceitáveis. A afirmação, de um grupo internacional de cientistas, está em artigo destacado na edição desta quinta-feira (24/9) da revista Nature.

A notícia é publicada por EcoDebate, 25-09-2009.

Segundo eles, a humanidade deve permanecer dentro dessas fronteiras para os processos essenciais do sistema terrestre se quiser evitar alterações ambientais de dimensões catastróficas. Esses limites representariam os espaços seguros para a ação e para a vida humana.

O conceito de limites (ou fronteiras) planetários representa um novo modelo para medir as agressões ao planeta e define espaços seguros para a existência humana. Seguros tanto para o sistema terrestre como para o próprio homem, por consequência.

Johan Rockström, da Universidade de Estocolmo, na Suécia, e colegas sugerem nove processos sistêmicos principais para esses limites: mudanças climáticas; acidificação dos oceanos; interferência nos ciclos globais de nitrogênio e de fósforo; uso de água potável; alterações no uso do solo; carga de aerossóis atmosféricos; poluição química; e a taxa de perda da biodiversidade, tanto terrestre como marinha.

Para três desses limites da ação humana – ciclo do nitrogênio, perda da biodiversidade e mudanças climáticas -, os autores do artigo argumentam que a fronteira aceitável já foi atravessada. Afirmam também que a humanidade está rapidamente se aproximando dos limites no uso de água, na conversão de florestas e de outros ecossistemas naturais para uso agropecuário, na acidificação oceânica e no ciclo de fósforo.

O estudo dá números para esses limites. Para o ciclo do nitrogênio, por exemplo, antes da Revolução Industrial a quantidade de nitrogênio removido da atmosfera para uso humano era zero. O limite estabelecido pelo estudo é de 35 milhões de toneladas por ano. Parece muito, mas os valores atuais são de 121 milhões, mais de três vezes além do limite aceitável.

A taxa de perda de biodiversidade, calculada em número de espécies extintas por milhão de espécies por ano era de 0,1 a 1 até o início da era industrial. O limite proposto pelo estudo é de 35, mas o valor atual passou de 100.

O consumo de água potável por humanos era de 415 quilômetros cúbicos por ano antes da Revolução Industrial. Hoje, chegou a 2.600, perigosamente próximo ao limite sugerido de 4.000 quilômetros cúbicos por ano.

Os pesquisadores destacam a necessidade de se estabelecer os limites também para a emissão de aerossóis atmosféricos e de poluição química, apesar de não haver, atualmente, dados suficientes para tal definição.

Transgredir uma única dessas fronteiras planetárias por um tempo demasiadamente longo é o suficiente, argumentam, para promover alterações ambientais “abruptas e inaceitáveis que serão muito danosas ou até mesmo catastróficas à sociedade”. Além disso, quando um limite é derrubado, os níveis de segurança dos outros processos acabam sendo seriamente afetados.

“Embora a Terra tenha passado por muitos períodos de alterações ambientais importantes, o ambiente planetário tem se mantido estável pelos últimos 10 mil anos. Esse período de estabilidade – que os geólogos chamam de Holoceno – viu civilizações surgirem, se desenvolverem e florescerem. Mas tal estabilidade pode estar em risco”, descrevem os autores.

“Desde a Revolução Industrial, um novo período surgiu, o Antropoceno, no qual as ações humanas se tornaram o principal condutor das mudanças ambientais globais”, destacam. Segundo os pesquisadores, se não fosse a pressão promovida pelo homem, o Holoceno continuaria ainda por muitos milhares de anos.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

A elite destrutiva


Entrevista com Mike Davis


"A riqueza moderna e o consumo de luxo estão mais murados e enclavados socialmente do que em qualquer momento desde 1890. De fato, a lógica territorial do neoliberalismo retoma os padrões mais extremos de segregação residencial e consumo zoneado". A afirmação é do urbanista e historiador estadunidense Mike Davis em entrevista a Luis Brasiliano do jornal Brasil de Fato, 24-09-2009. Mike Davis é autor, entre outros, dos livros Cidade de Quartzo (1990) e Planeta Favela (2006), ambos publicados pela Boitempo.

Eis a entrevista.

Existe uma relação entre o modelo recente de urbanização nos Estados Unidos e o fato da crise econômica ter começado com a falência do mercado hipotecário? Quais mudanças ocorreram nas cidades desde o início do colapso financeiro?

A crise atual nos Estados Unidos combina a imprudência do ciclo de negócios orientado pela política oficial (ou seja, decisões dos republicanos, a partir de 2001, para superaquecer a economia) com déficits insustentáveis na balança comercial, investimento público insuficiente e especulação destrutiva da terra nas áreas de subúrbio.

Após ter mais ou menos roubado de Al Gore as eleições de 2000, a administração George W. Bush, com a conivência do chefe do Federal Reserve [banco central estadunidense], Alan Greenspan, alimentou uma bolha imobiliária com baixas taxas de juros, frágil regulamentação e empréstimos indiretos maciços de credores asiáticos. A elevação dos valores de ações e propriedades disfarçou, temporariamente, a erosão do emprego e da segurança das famílias nos Estados Unidos. Tendo a teoria econômica tradicional em mente, a nação mais rica do mundo financiou uma série de gastos sem precedentes com dinheiro emprestado de um país em desenvolvimento e, ainda em grande medida, pobre, a China.

Como isso foi possível? Como as exportações de bens e serviços dos Estados Unidos perderam terreno na pauta de importações da Ásia, o déficit resultante foi equilibrado por massivas compras asiáticas de papéis do governo e de dívida privada estadunidenses. Os chineses, especialmente, toleraram o excesso de consumo e o desequilíbrio comercial dos Estados Unidos em troca de aumentar a sua fatia no mercado estadunidense e de um yuan artificialmente sub-valorizado. Enquanto isso, os bancos e as instituições de crédito hipotecário nacionais, que reciclaram dívida externa como crédito interno, perderam de vista as contradições estruturais subjacentes enquanto abraçavam a mágica fraudulenta de evitar riscos por meio de derivativos [contrato financeiro cujo valor deriva de um outro ativo].

A bolha poderia ter tido um lado positivo se o déficit comercial tivesse sido investido em infraestrutura urbana ou em habitações a preços acessíveis. Mas, ao invés disso, o boom hipotecário simplesmente subsidiou a construção excessiva de grandes casas e shopping centers a distâncias absurdas (100 quilômetros ou mais) dos locais de trabalho. Essa curta explosão nos valores imobiliários, ademais, foi usada como garantia para pagar os custos em elevação com transporte, mensalidades escolares e atendimento médico. Agora, a bolha estourou como uma bomba de nêutrons, deixando para trás uma cratera de 10 trilhões de dólares na riqueza nacional.

O epicentro geográfico do derretimento do valor dos imóveis tem sido o sudoeste dos Estados Unidos, ou seja, as periferias recentemente “suburbanizadas” de San Francisco, Los Angeles, San Diego, Las Vegas e Phoenix. O valor das casas nessas áreas caiu 50% e o desemprego, em alguns subúrbios, é maior que em Detroit [cidade recordista em desemprego nos Estados Unidos que, em julho, atingiu o índice de 28,9%]. De fato, a paisagem ícone da Nova Depressão é a um bairro de casas abandonadas em um deserto próximo a um shopping center fantasmagórico, vazio.

Qual a sua opinião sobre este início de governo Obama e o comportamento da esquerda estadunidense nesse período?

As celebrações acabaram. A euforia com a eleição de Obama está se transformando em desencanto com os democratas no poder. Em cada uma das quatro áreas nas quais a campanha de Obama prometeu reformas radicais – saúde, legislação trabalhista, política de imigração e aquecimento global –, a Casa Branca já cedeu terreno. De fato, o elemento chave da reforma em cada caso (seguro-saúde público e universal, um procedimento mais rápido e simples para saber se um sindicato representa a maioria dos trabalhadores que necessária para a sua criação, anistia para imigrantes sem documentos e uma taxa de carbono sobre indústrias e prestadoras de serviços públicos) foi ou abandonado pela administração ou neutralizado no Congresso.

Por enquanto, o governo Obama tem atuado decisivamente em apenas duas áreas: salvando Wall Street e promovendo uma escalada da guerra no Afeganistão/Paquistão. No fim do verão [no hemisfério norte], bilhões de dólares do fundo de ajuda do governo federal foram usados no pagamento de bônus para executivos do mercado financeiro ou em fusões e aquisições. Existe uma imensa irritação pública com relação ao fato de que os arquitetos da crise parecem ter sido recompensados, enquanto estadunidenses comuns continuam a perder seus empregos e casas. Há também uma apreensão com relação ao fato do candidato “anti-guerra” ter, aparentemente, decidido deixar milhares de soldados no Iraque, enquanto expande dramaticamente a guerra no entorno do Passo Khyber [na fronteira entre Afeganistão e Paquistão].

As ações e compromissos da administração, em outras palavras, estão desorganizando sua própria base social. A inesperada dificuldade de Obama em aprovar sua reforma da saúde (dificuldade inesperada exceto em seu ponto crucial, o atendimento público universal) parte tanto da desmoralização dos democratas quanto da gigantesca campanha publicitária de seus opositores corporativos. Enquanto isso, a direita do Partido Republicano, agonizante há alguns meses, está retomando terreno. Um presidente moderado que confessa que vai sempre se inclinar em direção ao vento predominante, agora, enfrenta um vendaval da direita com nada além de uma brisa em seu flanco esquerdo. Liberais e progressistas estão em um recuo tático, com elementos cruciais de seu programa já irremediavelmente diluídos ou indefinidamente adiados.

Além da crise econômica, o mundo enfrenta outras duas: a climática e a da gripe suína. Como o senhor avalia a forma com os organismos internacionais competentes (Nações Unidas, FMI, OMC e OMS) estão reagindo a elas?

Se a história se repete como farsa, então sob qual forma a farsa se repete? A questão necessariamente surge quando consideramos o processo de Kyoto e o seu sucessor, o novo tratado climático que supostamente irá ser elaborado em Copenhague (Dinamarca), em dezembro.

Em retrospectiva, Kyoto fez pouco mais do que bombear mais ar quente na alta troposfera. Infinitos estudos e debates apontam para resultados negativos: de fato, as emissões de carbono na última década aumentaram muito mais rápido do que previam alguns cenários para “o pior possível”. Copenhague, mesmo com a assinatura de estadunidenses e chineses, irá somente produzir uma outra rodada de promessas heróicas (80% de redução até 2050 e daí em diante) sem nenhum plano sério de implementação.

A crise econômica – que alguns esperam possa levar a um “keynesianismo verde” – apenas oferece inúmeras desculpas para aprovar ações ou continuações de práticas ruins. Assim, a legislação para comercialização de emissões de gases do efeito estufa de Obama está repleta de exceções para produtores de carvão e prestadoras de serviços públicos. Na Alemanha, supostamente a vitrine da redução de carbono, companhias públicas que são gigantescas queimadoras de carbono estão sendo autorizadas a recolher bilhões de dólares em aumento de taxas dos consumidores sem reduzir emissões em contrapartida. Não admira que tantos pesquisadores e ativistas estejam se tornando cínicos.

A ameaça de pandemia de gripe mobiliza a mesma combinação de retórica humanista e ação egoísta. Em poucas palavras, a Organização Mundial de Saúde abdicou da luta pela cobertura de vacina universal. Doze países ricos entesouraram quase a totalidade do estoque de antivirais existente e da produção potencial de vacina. E a Big Pharma [grupo de grandes farmacêuticas, com faturamento anual superior a 3 bilhões de dólares] conserva seu monopólio sobre medicamentos vitais cuja disponibilidade deveria ser um direito humano universal.

Resumindo, os países ricos não estão fazendo absolutamente nada para ajudar o mundo em desenvolvimento a se adaptar às mudanças climáticas ou construir defesas contra novas pragas. Pessoalmente, dou mais crédito para certos spans (“Você ganhou 10 milhões de dólares...”) do que para declarações solenes do G-8 ou do G-20.

Em São Paulo estão se multiplicando empreendimentos imobiliários com grandes investimentos em segurança destinados às classes alta e média-alta. Para onde apontam as cidades do futuro?

Nesta última geração, nós temos testemunhado uma extraordinária divisão moral e territorial entre os ricos e quase ricos do resto da humanidade. A riqueza moderna e o consumo de luxo estão mais murados e enclavados socialmente do que em qualquer momento desde 1890. De fato, a lógica territorial do neoliberalismo retoma os padrões mais extremos de segregação residencial e consumo zoneado. Por toda a parte, as elites estão recuando para santuários condominiais, arranha-céus fortaleza, cidades de lazer e réplicas muradas de subúrbios californianos imaginários.

O que pode ser dito além de que esses mundos de sonhos alimentam desejos – de consumo infinito, total exclusão social e arquitetura monumental – que são claramente incompatíveis com a sobrevivência ecológica e moral da humanidade?

Como o senhor descreveria o processo de criminalização da pobreza? Como responder a isso?

Culpar os pobres pela pobreza é a jogada mais velha do mundo. O princípio mais importante do liberalismo vitoriano [1837-1901], por exemplo, era que os moradores de favelas criavam seu próprio inferno através de seus vários vícios e da pura libertinagem. Demorou quase um século para os reformistas de classe média reconhecerem as causas estruturais do subemprego urbano e da habitação inadequada. A criminologia, no entanto, continua sendo eminentemente vitoriana. Policiais e funcionários do Estado, apenas com raras exceções, se recusam a reconhecer a lógica econômica e a inevitabilidade do que poderia ser chamado “crime de subsistência”.

Ainda assim, todo policial de rua, do Brooklyn [em Nova York] ao Rio de Janeiro, entende que o crime organizado faz seu recrutamento a partir da crise global da dignidade da classe trabalhadora masculina, na esteira da desindustrialização e do aumento da informalidade. Eles também sabem que as “guerras” contra as drogas e gangues se auto-perpetuam e nunca poderão ser vencidas. Sociedades urbanas, como o Brasil e a Califórnia, que optaram pelo super-encarceramento – construção de prisões ao invés de escolas –, escolheram um suicídio em câmera lenta. O enorme sistema prisional californiano (quase 200 mil detentos) levou o estado à falência e forçou drásticos cortes no ensino superior.

Nem que seja só para nos salvar, é hora de substituir o Velho Testamento pelo Novo. Precisamos de soluções radicais para a criminalidade de massa: efetiva descriminalização de narcóticos, um “processo de paz” urbano que inclua negociações com grupos de fora da lei, revisão civil das ações policiais, serviço comunitário em substituição a sentenças de prisão para criminosos não-violentos, programas educacionais e emprego para a juventude dentro da vizinhança, voto aos 16 anos e assim por diante.


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sábado, 3 de outubro de 2009

Abate "humanitário": hipocrisia ou "humanismo" ?


Tão logo põe a cabeça para fora do túnel escuro e apertado que o conduz rumo ao amplo salão iluminado, o jovem adulto S., de cinco meses, encara seu destino. Tem só cinco segundos antes que dois eletrodos despejem em seu cérebro 1,3 ampère de eletricidade. Ele ficará inconsciente. O tempo é curto, mas S. pode ver, logo abaixo, uma esteira rolante que leva os corpos de seis outros adultos, jovens como ele. Da altura do coração de cada um, verte um grosso jorro de sangue. S. é o próximo da fila.

A reportagem é de Laura Capriglione e Marlene Bergamo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

A massa de ruídos supera os 110 decibéis. São gritos dos animais que estão atrás na fila, barulhos de grossas correntes metálicas movimentando-se em carrossel, de jatos de fogo subindo, de máquinas a pleno vapor.

Quando o corpo rosado de S., aproximados 115 kg, pernas dianteiras esticadas - resultado da contração muscular provocada pela corrente elétrica -, desaba na esteira rolante, encontra o operador de sangria. O homem de olhos azuis, todo de branco como um cirurgião, empunha faca afiadíssima. Um golpe e todos os vasos do coração estão seccionados. Leva um segundo.

O suíno ainda pedala - é o chamado movimento clônico. Não grita mais. Pupilas dilatadas, S. olha para o nada.

O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca toca na córnea do animal. Ele não reage. "Está insensibilizado, estão vendo?", diz Ciocca, que é zootecnista, a uma plateia atenta de 20 homens e mulheres. Para se certificar, aperta o focinho em forma de tomada e dá beliscões na orelha - sem resposta do corpo que sangra.

Todos os dias, o frigorífico Aurora, em Chapecó, no oeste catarinense, abate 4.500 suínos, que, em poucas horas, se transformam em quilômetros de linguiças e salsichas, toneladas de fatias de bacon, presuntos, mortadelas, costelas defumadas, pertences de feijoada - 384 toneladas diárias de produtos industrializados. E carcaças inteiras, voltadas principalmente para a exportação.

O rico mercado europeu é o alvo mais cobiçado. O Brasil nunca foi habilitado para vender carne para a Comunidade Europeia. Ora o argumento era a sanidade da carne. Ora, o preço. Ora, o jeito como os animais são tratados.

Mas isso pode mudar. No dia 20 de outubro, chega a Santa Catarina uma equipe de auditores europeus. Objetivo: avaliar como é produzida a carne suína por aqui e, quem sabe, dar ao país o diploma nunca antes alcançado: exportador para a Europa. O frigorífico Aurora, que representará toda a suinocultura brasileira, precisa chegar ao tal "Dia D" dominando toda a teoria e a prática exigidas pelos examinadores.

O instrutor José Rodolfo Panin Ciocca, de que se falou acima, trabalha para a Sociedade Mundial de Proteção Animal (WSPA, na sigla inglesa), ONG de 28 anos e presente em 156 países. Desde o início do mês, uma força-tarefa de veterinários e zootecnistas especialistas em bem-estar animal a soldo da WSPA (entre os quais Ciocca) está dentro das fábricas.

A proverbial desconfiança que sempre existiu entre as entidades de proteção e a indústria de proteína animal rompeu-se graças a um convênio firmado há um ano entre a entidade e o Ministério da Agricultura. Com o aval do ministério e o interesse nos mercados externos, ficou mais fácil para a WSPA entrar em territórios antes vetados, como eram os abatedouros e os frigoríficos.

"Todos os anos o Brasil abate 40 milhões de bovinos, 30 milhões de suínos e de 4 a 5 bilhões de frangos. São números gigantescos, que poderão ser duplicados, triplicados ou quadruplicados em pouco tempo. E isso só depende de conquistarmos novos mercados. Porque tecnologia para produzir nós já temos. Mão de obra, terra e água também", diz o veterinário Nelmon Oliveira da Costa, diretor do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal do Ministério da Agricultura.

"Na virada do século XIX para o XX, firmaram-se os padrões quanto à qualidade sanitária da carne. Depois, vieram os requisitos quanto à qualidade organoléptica [cor, sabor, odor, textura]. Agora é a vez da valorização da qualidade ética da carne, que inclui o bem-estar dos animais, desde a criação até o abate, além da sustentabilidade ambiental", diz Eliana Renuncio Bodanese, 38, assessora técnica corporativa da cooperativa Aurora. "Não está escrito em lugar nenhum que um animal tenha de sofrer para morrer", afirma ela.

Até o fim do mês que vem, 60 trabalhadores líderes de equipes da Aurora, dos abatedouros de suínos e de aves, receberão treinamento da WSPA. Depois, eles retransmitirão essas práticas a seus subordinados. No total, 700 frigoríficos de Santa Catarina, do Paraná, do Rio Grande do Sul e de São Paulo receberão a equipe da WSPA para treinamento.

A veterinária Charli Ludtke, 33, coordenadora do projeto de abate humanitário pela WSPA, já escutou um sem-número de vezes a pergunta: "Para que dar bem-estar ao animal que vai morrer?". "Sempre respondo: "Se você soubesse que vai morrer hoje, você preferiria morrer sob tortura, agonizando, ou calmamente, sem dor?". A obviedade da resposta é o que nos anima a prosseguir."




Ação é ''apenas anestesia de consciências''

A ativista pelos direitos dos animais Nina Rosa Jacob é o que se chama de "abolicionista" - pela abolição de todas as formas de "exploração dos animais".

A reportagem é de Laura Capriglione e Marlene Bergamo e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

Para ela, o trabalho desenvolvido pela WSPA é "apenas uma anestesia de consciências". "As pessoas continuarão ingerindo excesso de proteína e de gordura animal, continuarão ingerindo carne impregnada de pavor", diz.

Segundo a militante, o discurso pró-abate humanitário é omisso quanto aos problemas ecológicos relacionados ao consumo de carne: "Até aonde se poderá levar a destruição do ambiente, as queimadas na Amazônia, o desmatamento para abrir pastos? Temos de trabalhar para reduzir o consumo de carne, não inventar pretextos e incentivos para consumir ainda mais".

"Diz-se que o consumo de carne pode ser humanitário. Mas os animais continuarão confinados, privados da liberdade, sofrendo inseminações artificiais, as fêmeas apartadas de seus filhotes com apenas um dia, gritando chamando a cria. Isso é humanitário?"

De acordo com ela, a maioria das pessoas ainda come carne porque não conhece a realidade das fazendas e dos abatedouros. "Os frigoríficos tentam manter esse mundo bem escondido, enquanto vendem a imagem do boi e do porquinho alegres, que só existe na publicidade."



Filósofo influenciou a militância pelos animais



Um dos pais do moderno movimento de libertação dos animais é o filósofo australiano Peter Singer, cujo livro "Animal Liberation", publicado em 1975, influenciou profundamente a militância política em favor dos "não humanos".

O comentário é de Hélio Schwartsman e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 27-09-2009.

Singer é um utilitarista radical. Isso significa que ele não acredita muito em direitos - nem para animais nem para humanos -, mas apenas em interesses, como o de evitar a dor, buscar o prazer. Quando analisados à luz de certos princípios utilitaristas, como o de minimizar o sofrimento, esses interesses podem resultar em regras que devem ser observadas por todos os agentes morais - e isso é o mais perto de "direitos" que podemos chegar.

A ideia central de "Animal Liberation" é que qualquer ser vivo capaz de sentir dor tem interesse em evitá-la. E nós, humanos, não devemos restringir apenas a outros humanos o universo dos beneficiários de uma regra como a que manda não infligir sofrimento desnecessariamente. Todos os seres sencientes, sustenta Singer, são dignos de igual consideração.

Discriminar um animal senciente apenas porque ele não é humano configura um caso de especismo, que o filósofo põe no mesmo patamar do racismo ou do escravagismo.

É claro que nem todos os seres vivos têm os mesmos "direitos". O nível de consideração que cabe a cada qual é uma função direta de sua capacidade de perceber dor, prazer e até de fruir o transcendente -ou seja, de seu grau de consciência.

Numa leitura histórica, o círculo de solidariedade moral da humanidade vem se expandindo. Nos primórdios, o homem ligava apenas para si mesmo e, às vezes, para a sua família. Com o decorrer do tempo passou a preocupar-se também com seus vizinhos, compatriotas, irmãos de fé e, por fim, com todo o gênero humano. Agora, começamos a olhar para os outros bichos com os quais compartilhamos o planeta.

Essa é uma ideia radical que traz implicações radicais: para o filósofo, a melhor forma de não provocar dor evitável é convertendo a humanidade ao vegetarianismo. E vale observar que essa nem é a mais exuberante das teses de Singer.

Consequente com seus princípios, ele também defende o aborto, a eugenia e até o infanticídio. Se o grau de "direitos" está relacionado ao nível de consciência, seres menos conscientes podem, em certas situações, ser sacrificados, seja para reduzir a dor, seja para produzir benefícios maiores.

Outra tese polêmica de Singer é que todos os que já vivem com conforto têm o dever de doar parte de seus rendimentos para eliminar a pobreza do mundo. Ele próprio afirma abrir mão de 25% de seu salário em favor de organizações como a Oxfam e o Unicef. O fundamento de toda ética utilitarista é que os interesses de todos se equivalem: o resultado é um igualitarismo forte.

É claro que, como todo sistema utilitarista, esse também fica à mercê de paradoxos: em princípio, seria ético matar um paciente saudável e, com seus órgãos, salvar a vida de cinco doentes que precisavam de transplante; um porco saudável poderia ser visto como tendo mais "direitos" que uma criança com retardo mental.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

O Cerrado é a grande caixa dágua do País


Cerrado: Bioma é a grande caixa d’água do País


Por trás da aparência ressecada dos meses de inverno, quando a umidade do ar cai a níveis alarmantes em algumas regiões, o Cerrado esconde uma identidade secreta: o bioma é um gigantesco coletor e distribuidor nacional de água, crucial para o abastecimento das regiões Centro-Sul, Nordeste, do Pantanal e até partes da Amazônia. Um serviço ecológico gratuito que corre o risco de ser racionado por causa do desmatamento.

A reportagem é de Herton Escobar e publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 26-09-2009.

Das 12 bacias hidrográficas do País, 8 estão inseridas no Cerrado. A localização central do bioma, combinada com sua elevação topográfica e alta concentração de nascentes, faz com que ele funcione como uma caixa d’água. Cerca de 94% da água que corre na Bacia do Rio São Francisco em direção ao Nordeste brota no Cerrado - apesar de apenas 47% da bacia estar dentro do bioma, segundo cálculos da Embrapa.

No caso do sistema Araguaia-Tocantins, que corre para o Norte e vai desaguar no Pará, 71% da água da bacia nasce no Cerrado. A proporção é a mesma para o conjunto das Bacias do Paraguai e do Paraná, que drenam grandes áreas do Centro-Sul. "O rio é só o encanamento superficial pelo qual a água corre", diz o pesquisador Felipe Ribeiro, da Embrapa. "Mas onde a água nasce é no Cerrado. As besteiras que a gente fizer aqui em cima vão repercutir rio abaixo."

E as besteiras já estão em curso. Estudos realizados pelo pesquisador Marcos Costa, da Universidade Federal de Viçosa, mostram que o desmatamento nas cabeceiras do sistema Araguaia-Tocantins aumentou a descarga dos rios em 25%, apesar de não ter havido mudanças nos índices pluviométricos da bacia. Ou seja: a quantidade de água nos rios aumentou, apesar de a chuva ter continuado igual.

Mais água, nesse caso, é má notícia. O problema é que o solo coberto por pastagens e lavouras absorve menos água do que o solo com vegetação nativa. Consequentemente, mais água escorre para os rios e é levada para fora do Cerrado, diminuindo a quantidade de umidade que fica disponível para os ecossistemas locais e a própria agricultura - além de aumentar o risco de enchentes para as comunidades que vivem rio abaixo.

Segundo Costa, se o desmatamento continuar, é provável que os níveis de precipitação no bioma também sejam afetados. "Acho que estamos próximos do limite em termos climáticos."

"O problema mais sério que vamos ter daqui dez anos é com a irrigação", diz o pesquisador Hilton Silveira Pinto, do Centro de Pesquisas Meteorológicas e Climáticas Aplicadas à Agricultura (Cepagri) da Unicamp.

O Pantanal também está de olho no problema. Praticamente todos os rios que deságuam no bioma nascem no Cerrado. "A sobrevivência do Pantanal depende diretamente da conservação do Cerrado", diz o ecólogo Leandro Baumgarten, da ONG The Nature Conservancy.

Ameaça ao Cerrado se volta para o norte. Mais da metade já foi destruída


Primeiro, a boa notícia: o desmatamento no Cerrado está em recessão. Nos últimos sete anos, caiu mais de 60%, segundo um levantamento inédito da Universidade Federal de Goiás (UFG).

A reportagem é de Herton Escobar e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 27-09-2009.

Agora, a dura realidade histórica: mesmo com essa redução, mais da metade do bioma já foi destruída ou alterada pelo homem nos últimos 40 anos, ao ritmo de quatro campos de futebol por minuto, sem que ninguém se preocupasse muito com isso.



Pior: o desmatamento, agora, começa a se embrenhar pelas áreas mais preservadas de grandes remanescentes no norte do bioma. É difícil imaginar como um dos ecossistemas de maior biodiversidade do planeta, dotado de paisagens belíssimas e com quase quatro vezes o tamanho da Espanha, poderia passar desapercebido durante tanto tempo. Mas essa é a história do Cerrado, uma savana esquecida entre duas florestas tropicais.

De um lado, a Amazônia, ícone máximo da ecologia mundial. Do outro, a Mata Atlântica. E no meio delas, o Cerrado. Espalhado por mais de 2 milhões de km², do litoral do Maranhão até o norte do Paraná e oeste de Mato Grosso do Sul, o Cerrado é a pele que recobre quase um quarto do território brasileiro. É o segundo maior bioma do País, com um mosaico de cenários que variam de dunas e campos a chapadas e florestas.

Tem aproximadamente a metade do tamanho da Amazônia, só que com uma ferida muito maior: 835 mil km² de terras desmatadas, suficiente para cobrir uma França e um Reino Unido. A Amazônia perdeu 100 mil km² a menos - uma diferença do tamanho de Santa Catarina. Em muitos aspectos, é o bioma mais ameaçado do Brasil. Mais até do que a Mata Atlântica, que, apesar de estar reduzida a só 7% de sua cobertura original, conta com um movimento ambientalista forte a seu favor.

Já o Cerrado nem é citado na Constituição. É como se não existisse. Apenas 11% de suas terras estão protegidas por unidades de conservação e terras indígenas, comparado a mais de 45% no bioma Amazônia.

A reserva legal - área de uma propriedade que precisa ser obrigatoriamente preservada com vegetação nativa - é de 80% na Amazônia e 20% no Cerrado. Ou seja: na Amazônia preserva-se 80%. No Cerrado, é possível desmatar nessa mesma proporção.

Os efeitos ecológicos e climáticos dessa devastação estão longe de ser compreendidos. Já os efeitos econômicos são bem conhecidos. Quase toda a área desmatada do Cerrado está ocupada por pastagens e plantações. Se por um lado perdemos em biodiversidade e serviços ambientais, por outro, ganhamos em produção de alimentos e desenvolvimento. É dos solos desmatados do Cerrado que brotam 47% dos grãos, 40% da carne bovina e 36% do leite produzidos no País.

No pacote dos alimentos vêm a indústria de máquinas, sementes, fertilizantes, defensivos e outros insumos com alto valor de mercado, que viraram a base da economia do Centro-Oeste. A qualidade de vida, medida pelo Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), é bem mais alta nos municípios em que o Cerrado foi convertido para o agronegócio do que nas áreas em que o bioma ainda está preservado.

Quando se leva em conta as pastagens naturais - campos de capim nativo aproveitados pela pecuária -, a área ocupada do Cerrado sobe para 52%. Nesse sentido, o Cerrado é um bioma dividido, meio a meio, entre os destinos de suas aptidões agrícolas e ecológicas. Resta saber para que lado a balança vai pesar nas próximas décadas, com o crescimento populacional, econômico e energético pressionando cada vez mais seus recursos naturais.

A proposta deste caderno é fazer um retrato dessas duas faces do Cerrado e fomentar o debate sobre como elas podem conviver em harmonia no futuro.




Álcool invade regiões prioritárias do Cerrado


Áreas prioritárias para a conservação do Cerrado estão sendo invadidas pela cana-de-açúcar. Ao fazer o levantamento desses espaços, o Ministério do Meio Ambiente (MMA) constatou que pelo menos 16 áreas são ameaçadas pela entrada da cana. Dessas, 3 estão em Goiás.Dos seis Estados mais importantes no processo de expansão das usinas de álcool, Goiás é o que mais ampliou a área cultivada pela cana. Entre a safra de 2006 e a atual safra, houve um aumento de 111,8% das áreas ocupadas por canaviais, conforme constatação do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), por meio do projeto Canasat. É uma ampliação superior à verificada em Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, São Paulo e Mato Grosso.A área de Goianésia e Barro Alto, prioritária para a conservação do Cerrado, é ameaçada por “intensa atividade agrícola” e pela mineração, conforme o levantamento do MMA. O cultivo da cana, de seringueiras e de tomate na região pode representar novos desmatamentos, segundo a interpretação do ministério.



Fontes:

http://novoencanto2009.blogspot.com/2009/02/desmatamento-avanca-em-areas-do-cerrado_17.html


e



http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=26070

terça-feira, 29 de setembro de 2009

Ajude a preservar a Serra Catarinense




Histórico do projeto

Desde 1960 existem estudos da IFC - Indústria de Fosfatados Catarinense (Antiga Adubos Trevo) para a exploração da mina de fosfato do Rio Pinheiros em Anitápolis.

A IFC é uma empresa da YARA - empresa de fertilizantes químicos norueguesa - e da BUNGE - empresa de soja transgênica americana.

O pouca viabilidade econômica deixou o projeto engavetado durante anos. Agora, a empresa voltou a se interessar no fosfato. O processo de licença ambiental esteve por quatro anos tramitando na FATMA e em 13 de abril de 2009, foi expedida a primeira das três licenças:
a LAP - Licença Ambiental Provisória.

A LAP aceita os laudos do EIA-RIMA apresentados pela empresa. Contudo, há um grande número de falhas no documento. Por conta disto, já existe no Ministério Público Estadual uma Ação Civil Pública que pede a suspensão da LAP através de uma liminar.

Em breve a IFC solicitará a LAI - Licença Ambiental de Instalação, onde começarão as obras. Após a LAI, solicitarão a LAO - Licença Ambiental de Operação, quando começará a fabricação do ácido sulfúrico e do NPK.

Anitápolis, na Serra catarinense, hoje...

e uma fosfateira funcionando nos
mesmos moldes do projeto, em Cajati-São Paulo


Como vai funcionar a fosfateira

Durante os dois primeiro anos acontecerá a construção da fábrica. Um canteiro de obras com 1.400 homens da contrução civil, que virão de fora para morar em Anitápolis. Após a contrução, a fábrica entrará em operação, que será do seguinte modo:

O fosfato retirado da mina será tratado quimicamente e adicionado ao ácido sulfúrico para transformação em adubo solúvel. O ácido será fabricado na própria fosfateira, utilizando como matéria prima o enxofre, que será importado pelo porto de Imbituba e chegará de caminhão até o local.

Deste processo sobram rejeitos químicos altamente poluentes que serão controlados com barragem de rejeitos, tratamento de efluentes e monitoramento de chaminés. Qualquer falha provocará chuva ácida, lama ácida e desastre por rompimento de barragem.Serão duas barragens. O material de contenção é barro (perigosamente frágil).

Será desviado o leito do Rio Pinheiros para a formação de dois lagos de lama. Tecnicamente está decretada a morte do rio e de todo o ecossistema do seu entorno.

Anitápolis

Encravada entre montanhas, Anitápolis é um típico município do interior de Santa Catarina. É uma cidade pacata, com pouco menos de três mil habitantes.

Anitápolis: paraíso ecológico preservado,
é também cenário de nascentes de muitos rios


Sua população descende, em grande parte, de colonos de origem alemã, que começaram a povoar aquelas terras em meados do séc. XIX.

A economia do município de Anitápolis é baseada principalmente em duas atividades: a agricultura e o turismo rural.

A agricultura, nos últimos anos, vem apresentando modificações importantes com a conversão da agricultura convencional para a agricultura orgânica.

O turismo é uma atividade que vem crescendo positivamente, pois o município tem paisagem e geografia que encantam os visitantes. Além disto, o turismo conta com o incentivo da Acolhida na Colônia, associação que auxilia o colono no desenvolvimento da atividade turística sustentável, aumentando os ganhos e a qualidade de vida do agricultor.

Ameaça da fosfateira

A instalação da indústria fosfateira causará um impacto social imprevisível. Na construção da fábrica, o canteiro de obras abrigará 1.400 homens vindos de fora.

Sem estrutura para receber esta população de que não se sabe a procedência, os habitantes do município de Anitápolis, em especial a comunidade do Rio Pinheiros, estão com a segurança perigosamente ameaçada.

Em se tratando de mulheres e crianças, não há como avaliar o risco de estupros e pedofilia, crimes tão horrendos. O contingente policial local não tem capacidade, muito menos estrutura/equipamentos para atender ocorrências deste tipo.

A Prefeitura de Anitápolis, bem como o Governo Estadual e Federal são favoráveis à instalação da fosfateira. Contudo, este empreendimento não trará desenvolvimento.

A instalação da fosfateria poderá trazer desordem, doenças, diminuição da atividade turística, violência e a morte de um rio e uma floresta preservados.

A devastação

Em Anitápolis localiza-se a Nascente do Rio Tubarão (Braço do Norte), interligando os Rios do Meio, Rio das Pedras, do Norte, Branco, dos Pinheiros Alto, do Ouro e da Prata.

É também afluente de vários Rios como: O Rio Branco na divisa com Rancho Queimado tem afluente no Rio Tijucas; O Rio da Serra da Garganta é afluente do Rio Cubatão; Na Serra Geral a nascente do Rio é afluente do Rio Canoas; O Rio Maracujá tem sua nascente que deságua no Rio Itajaí.

Além disso, em Anitápolis a mata é floresta ombrófila densa (mata úmida com árvores adultas). Berço de um ecossistema de grande valor ambiental.

A área pertencente à IFC é de 1800 ha. Deste total, 360 ha serão sumariamente destruídos para a construção da mina para extração do fosfato, bem como da fábrica de ácido sulfúrico.

O leito do Rio Pinheiros será desviado para a construção de dois lagos de rejeitos. A composição dos rejeitos é tóxica e prejudicial à saúde humana e animal.

Serão construídas duas barragens de barro. Material perigosamente frágil, com alto risco de rompimento. Em caso de acidente, a população corre risco de um desastre jamais visto.

Eliminação na atmosfera de gases tóxicos poluentes pela fábrica de ácido sulfúrico. Os gases, levados pelos ventos, atingirão longas distâncias provocando chuva ácida.

A chuva ácida provoca depósito de enxofre nas terras. A saúde das famílias será afetada, num raio de 200 km. Os agricultores orgânicos certificados, poderão perder a certificação de seus produtos.

Acontecerá o transporte de enxofre e ácido sulfúrico. Cargas tóxicas que poderão sofrer acidentes com consequências davastadoras.

As contradições FATMA - EIA/RIMA - IFC

Em visita ao local da fosfateira o Comitê Nascentes da Serra pode observar a presença da CELESC, já desenvolvento o projeto elétrico do canteiro de obras da fábrica. Este fato mostra a certeza da empresa IFC de que irá obter brevemente a licença de instalação para iniciar as obras.

A FATMA, órgão responsável para a emissão das licenças liberou a licença provisória - LAP -baseada no EIA/RIMA desenvolvido por empresas contratadas pela IFC.

O Comitê Nascentes da Serra encontrou uma série de falhas do EIA/RIMA que também foram apontadas na Ação Civil Pública que pede uma liminar suspendendo a LAP.

A comunidade local, também manifestou-se contra o empreendimento no começo. Contudo, as pessoas do local estão sendo ameaçadas e coibidas. Em Anitápolis é proibido manifestar-se contra a IFC, principalmente os professores e funcionários públicos.

Não podemos aceitar esta fábrica por questões meramente financeiras. O patrimônio social e ambiental que está em risco é muito mais valioso do que os empregos e impostos que ela vai gerar.

A denúncia dos riscos ambientais que podem acontecer com a instalação da IFC em Anitápolis não pode ser calada e deve ganhar destaque internacional.

A campanha

Uma série de ações estão sendo encaminhadas sobre os impactos nocivos da IFC:

Denúncias aos órgãos competentes;

Conscientização das comunidades com palestras apresentando os riscos sociais e ambientais;

Divulgação e manutenção do site com notícias sobre as licenças e o processo;

Acompanhamento das licenças solicitada e emitidas;

Organização de manifestações populares pacíficas contra a instalação da IFC.

Acompanhamento do abaixo assinado on-line.

Você pode ajudar

Se você também está preocupado com a instalação de uma mega indústria química multinacional em um paraíso ecológico, e gostaria de participar do movimento POR AMOR À VIDA. FORA FOSFATEIRA envie um e-mail para:

nascentesdaserra@gmail.com



Participe e ajude a salvar Anitápolis.

Fonte: http://nascentesdaserra.bio.br/index.htm



Sem redução de CO2, Terra deve esquentar 4 graus Celsius



As temperaturas globais devem subir 4 graus Celsius até meados da década de 2050, caso sejam mantidas as atuais tendências de emissões de gases do efeito estufa, segundo um estudo publicado na segunda-feira pelo Centro Hadley do Departamento Meteorológico da Grã-Bretanha.

A reportagem é de Gerard Wynn e publicada pelo portal do jornal O Estado de S. Paulo, 28-09-2009.

A previsão é compatível com um relatório da ONU na semana passada, segundo o qual as mudanças climáticas estão superando as piores previsões de 2007 do Painel Intergovernamental sobre a Mudança Climática (IPCC).

"Nossos resultados estão mostrando padrões similares (ao IPCC), mas também mostram a possibilidade de que mudanças mais extremas possam acontecer", disse Debbie Hemming, co-autora da pesquisa divulgada no início de uma conferência sobre a mudança climática na Universidade de Oxford.

Líderes dos principais países emissores de gases do efeito estufa reconheceram em julho a opinião científica de que, para evitar as mudanças climáticas mais perigosas, a temperatura média da Terra não pode ficar mais do que 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais.

O relatório de 2007 do IPCC estimava um aquecimento de 4 graus Celsius até o final da década de 2050. O novo estudo confirma que tal aquecimento pode acontecer ainda antes, em meados da década de 2050, e sugere efeitos locais mais extremos.

Um avanço em relação a 2007 foi incluir o provável efeito dos "ciclos de carbono". Por exemplo, se parte da Amazônia morrer por causa de uma seca, isso exporá o solo, liberando mais carbono originalmente presente na matéria orgânica à sombra.

"Isso amplifica a quantidade do dióxido de carbono (o mais comum dos gases do efeito estufa) que entra na atmosfera, e portanto (amplifica também) o aquecimento global. Isso realmente está levando a mais certezas (quanto ao aquecimento)", disse Hemming.

As conclusões devem ser levadas em conta nas negociações de cerca de 190 países para a adoção de um novo acordo climático global, numa reunião da ONU em dezembro em Copenhague.

O aumento das temperaturas é sempre avaliado em comparação aos níveis pré-industriais. Cientistas dizem que o mundo já se aqueceu 0,7 grau Celsius desde então.

Um aumento médio de 4 graus Celsius mascara aumentos regionais ainda mais intensos, como por exemplo um aquecimento superior a 15 graus Celsius em partes do Ártico, ou de até 10 graus Celsius no oeste e sul da África, segundo o estudo divulgado na segunda-feira.

"É bastante extremo. Não acho que caia a ficha para as pessoas", disse Hemming. O degelo da calota polar, por exemplo, exporá à luz do sol uma maior superfície de água escura, absorvendo mais radiação e provocando efeitos ainda mais descontrolados sobre o clima global.

sexta-feira, 25 de setembro de 2009

Britânicos descobrem que geleiras da Groenlândia e Antártida derretem em velocidade acelerada





Cientistas britânicos descobriram que os mantos de gelo - enormes geleiras que datam da última grande glaciação do planeta - da Groenlândia e da Antártida estão encolhendo a um ritmo muito mais rápido do que se imaginava. Segundo o estudo, publicado no jornal científico "Nature", as geleiras estão perdendo 9 metros de profundidade por ano desde 2003.


Geleiras da Groenlândia são tomadas por águas mais quentes

Os cálculos foram feitos a partir de dados de satélite da Nasa e confirmam o que alguns dos cientistas mais pessimistas já diziam: o derretimento das duas maiores camadas de gelo do mundo está acelerando e se retroalimentando. Em algumas partes da Antártida, as taxas anuais de perda de gelo entre 2003 e 2007 foram 50% maiores do que aquelas registradas entre 1995 e 2003. Na Groenlândia, 81 das 111 geleiras da região estão afinando em ritmo acelerado.



"O principal problema não é o calor do ar, mas a água próxima aos mantos de gelo", disse Hamish Pritchard, da British Antarctic Survey, um dos autores do estudo. "A água não só está mais quente, como também está se misturando ao gelo e causando um maior derretimento".

Para Pritchard, o derretimento das geleiras é um efeito fora de controle. "A questão é saber até quando ele vai durar", disse o pesquisador.



Imagem de satélite colorida mostra
áreas mais afetadas pelo derretimento dos mantos de gelo
na Antártida e na Groenlândia



A pesquisa não responde à dúvida mais importante motivada pelas novas informações: o quanto as projeções de aumento no nível dos mares deve subir com o derretimento dos mantos de gelo.

Conforme os cientistas observam os recuos das geleiras, os mais otimistas acreditavam que o derretimento poderia ser freado, ou um fenômeno temporário. Mas para o professor Richard Alley, da Penn State University, nos Estados Unidos, as novas medidas das calotas polares acabam com essa visão mais otimista.

"O estudo é alarmante", disse Jason Boz, da Ohio State University, também nos EUA. Para ele, os novos dados mostram que "estamos subestimando quão sensíveis os mantos de gelo são às mudanças [climáticas]".

*Com informações da Associated Press


Fonte: http://noticias.uol.com.br/ultnot/cienciaesaude/ultnot/2009/09/23/ult4477u2068.jhtm

sexta-feira, 4 de setembro de 2009

As últimas palavras de Paul Feyerabend



Também comecei minha autobiografia, principalmente para lembrar meu período no exército alemão e como vivenciei o nacional socialismo. Esta, porém, demonstrou ser uma boa maneira de explicar como minhas "idéias" estavam entrelaçadas ao resto de minha vida.


Prometi para Grazia um livro sobre a "realidade", que está tomando forma muito lentamente e cujo título provisório é A conquista da abundância. O livro deverá mostrar como especialistas e pessoas comuns reduzem a abundância que os cerca o os confunde, e as conseqüências de suas ações.

Ele é principalmente um estudo do papel das abstrações, noções matemáticas e físicas especialmente, e da estabilidade e "objetividade" que parecem trazer consigo. Discute como emergem tais abstrações, como são apoiadas pelos modos comuns de falar e viver, e a mudança como resultado de argumentação e/ou pressão prática.

Procuro também enfatizar a ambigüidade essencial de todos os conceitos, imagens e noções que pressupõem mudança.

Sem ambigüidade não há mudança, nunca. A teoria quântica - como interpretada por Niels Bohr - é um perfeito exemplo disto.


"A conquista da abundância" deveria ser um livro simples, de leitura agradável e fácil compreensão. Entre meus motivos para escrever Contra o Método estava o de libertar as pessoas da tirania dos ofuscadores filosóficos e de conceitos abstratos como "verdade", "realidade" ou "objetividade", que estreitam a visão e as maneiras de ser das pessoas no mundo.

Ao formular o que eu acreditava ser minha própria postura e convicções, infelizmente acabei introduzindo conceitos igualmente rígidos, tais como "democracia", "tradição" ou "verdade relativa". Agora que estou consciente disto, me pergunto como pode ter acontecido.

O anseio de explicar as próprias idéias, não de modo simples, não numa história, mas por meio de uma "explicação sistemática" é de fato muito forte.

De que outra maneira poder-se-ia explicar que um destacado produtor teatral como Herbert Blau - um artista capaz de tornar claras para atores e audiências peças opacas - tenha escrito um tratado sobre teatro com afirmações incompreensíveis e desprovidas de sentido? Não se trata de uma dificuldade inerente ao assunto em questão. Platão, Aristóteles, Brecht e Dürrenmatt escreveram sobre teatro de modo agradável e compreensível. É o desejo de ser grande, profundo e filosófico.

Mas o que é mais importante? Ser compreendido pelo público em geral ou ser considerado um "pensador profundo"?.

Escrever de maneira simples, de modo que pessoas sem preparo específico possam entender não significa ser superficial.

Eu exorto todos os autores que querem se comunicar com as pessoas a manter distância da filosofia, ou ao menos que evitem ser intimidados e influenciados por ofuscadores como Derrida, lendo, ao invés disto, os ensaios populares de Schopenhauer ou Kant.



No final de 1993, o título deste capítulo assumiu um novo significado. Estou parcialmente paralisado, num hospital, com um tumor cerebral inoperável.


Eu não gostaria de morrer logo agora que finalmente consegui me "sistematizar" - também em minha vida privada.

Gostaria de ficar com Grazia e apoiá-la e fortalecê-la quando houver problemas. Depois de passar a vida lutando pela solidão, eu queria viver em família, contribuindo com a minha parte, esperando-a, por exemplo, com o jantar e algumas piadas prontas em sua volta do trabalho. Poderíamos mesmo tentar os métodos mais avançados para ter filhos; mas temos que esperar para ver como se desenvolve minha doença, e esta não é uma posição agradável de se estar, justamente agora que Grazia esperava tanto de uma nova vida que teríamos juntos.

Escrever colunas para uma revista pode mesmo ter melhorado meu estilo de escrita, e o livro que prometi a ela poderia vir a ser simpes e luminoso, mostrando como a razão e emoção podem coexistir em uma produção “acadêmica”.

Grazia está comigo no hospital, o que é uma grande alegria, e ela enche o quarto de luz. De certo modo, estou pronto para partir, malgrado todas as coisas que ainda gostaria de fazer; mas por outro lado, estou triste por ter de deixar este mundo esplêndido, e especialmente Grazia, a quem eu gostaria de acompanhar por mais alguns anos.

Estes devem ser os últimos dias. Nós os sorvemos um por um.

Minha última paralisia veio de algum sangramento dentro do cérebro. Eu queria que depois de minha partida ficassem algumas coisas minhas, não escritos, não declarações filosóficas finais, mas amor.

Espero que isto fique e não seja muito afetado pela maneira de minha partida final, que eu gostaria que fosse tranqüila, na forma de um coma, sem luta contra a morte e más lembranças deixadas atrás. O que quer que aconteça agora, nossa pequena família pode viver para sempre - Grazia, eu e nosso amor.

Isto é o que eu gostaria que acontecesse, a sobrevivência não intelectual, mas do amor.





***




Um par de semanas depois de Paul escrever estas palavras, o tumor comprometeu o centro de dor de seu cérebro e ele precisou de doses extremamente elevadas de morfina. Ele estava habituado a analgésicos, tendo sofrido dores lancinantes toda sua vida em conseqüência de seu ferimento de guerra (isto, bem como a prodigiosa quantidade e variedade de suas leituras são aspectos importantes da vida de Paul que ele mal menciona em sua autobiografia), mas os médicos ainda assim se surpreenderam que ele pudesse suportar tanto e por tantos dias. Era 11 de fevereiro de 1994 e Paul estava num tipo de coma induzido há mais de uma semana. O correio trouxe uma carta da editora italiana Laterza, dizendo que estavam entusiasmados com a autobiografia e dispostos a publicá-la em breve. Eu estava angustiada e exausta, mas fiquei feliz com as boas novas e contei-as a Paul com alegria em minha voz. Ele respirava lentamente e de certo modo tranqüilamente. Poucos segundos depois já não estava. Estávamos sozinhos, de mãos dadas, e era meio-dia.




(Paul Feyerabend, Matando o Tempo - Uma autobiografia - Ed Unesp)

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

A crise da Civilização nasce com o fim das utopias


Crise da civilização: A união de todas as crises.


Entrevista especial com Jean Pierre Leroy


O francês Jean Pierre Leroy chegou ao Brasil na década de 1970. Padre, ele atuou na região do Pará.

É filósofo e mestre em Educação pelo Instituto de Estudos Avançados em Educação/FGV. Foi Coordenador do Programa de Pesquisa sobre Campesinato em Áreas de Fronteira, Assessor da Comissão Pastoral da Terra e do Programa Nacional Fase Amazônia. Atualmente, é Membro da Rede Brasileira de Justiça Ambiental e assessor do Movimento pelo Desenvolvimento da Transamazônica e do Xingu.

Escreveu, recentemente, o artigo O lugar da crise do desenvolvimento capitalista na crise de civilização baseado nas ideias que propagou durante o Fórum Social Mundial deste ano.

A IHU On-Line conversou com Leroy, por telefone, sobre o que ele chama crise da civilização.

“Frente à crise política que conhecemos aqui no Brasil, vemos como é complexa e como está nos fazendo falta, de fato, uma esquerda. Um campo político que tenta segurar as pontas e, ao mesmo tempo, tenha um projeto ético de igualdade, que parte das bases da sociedade, e com projeto que resgate essa convivência com a natureza e a possibilidade da humanidade de amanhã continuar conectada com ela e poder continuar vivendo nela e dela”, apontou.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor afirma que vivemos uma crise de civilização. Como se manifesta essa crise?

Jean Pierre Leroy
– O primeiro ponto é que não vislumbramos um projeto portador de utopia. Claro que existem muitos movimentos na base da sociedade que ainda mantêm, mas sempre mínimos. Em todo o lugar que olhamos a tendência majoritária de movimentos sociais se torna cotada, vê o imediato e não mantém a busca de uma utopia. Não falo só do Brasil, falo em termos gerais. Isto existe na base da sociedade, mas ainda podemos dizer que nenhum projeto, desses movimentos de base que mantêm um sentido utópico, consegue impor e fazer com que a sociedade reconheça os seus projetos. Hoje o que há é um vazio frente à possibilidade de renovar e repensar o mundo. O segundo ponto, da crise da civilização, é como os grandes problemas estão afetando o mundo.

Sabemos que a crise, as guerras e as incompreensões em torno do fundamentalismo colocam em perigo o conjunto da humanidade, porque cada um se volta para si mesmo e as diferenças acentuam as incompreensões entre povos e nações. Ninguém sabe onde isto vai nos levar. A crise climática se torna mais profunda a cada dia. Isso ameaça a humanidade de modo desigual, mas é uma ameaça geral. Frente a isso se vê uma paralisia quase total. É neste sentido que falo de crise da civilização. O modelo dominante de produções do consumo no mundo é o industrial, nascido com a Revolução Industrial. A medida de felicidade para a humanidade é ter bens. E isto numa espiral crescente de consumo, inovação, tecnologia, e de novos produtos, aderida pelo conjunto dos países.

Não quer dizer que na base da sociedade todo mundo está envolvido neste modelo, mas pelo desejo quase todo mundo está envolvido, mesmo que não tenha condição de consumir. Talvez isso seja mais profundo que esta falta de utopia alimentada por esse modelo, que nos devora por dentro. Isto é um elemento que faz com que não se pense em utopia, porque pensa em como vamos sobreviver, em como vamos viver amanhã.

IHU On-Line – A partir de que momento histórico o senhor acredita que a humanidade entrou no estágio da crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Acho que, olhando o passado fica mais fácil dizer, cada civilização porta dentro de si as sementes de seu sucesso e, ao mesmo tempo, as sementes do seu fracasso futuro, de um momento em que ela chegará ao fim. A civilização ocidental, por exemplo, foi muito marcada pelo cartesianismo. Descartes, filósofo francês, separou a raça humana da natureza de modo muito forte, dizendo que a humanidade está acima da natureza e está necessitando dominá-la. Dizendo isso ele permitiu, do ponto de vista da filosofia, que a humanidade pudesse desenvolver a inteligência e as tecnologias, mas ao mesmo tempo, levou o homem a se afastar tanto da natureza, artificializando o mundo, que hoje estamos começando a pagar caro por isso. Em uma sociedade como o renascimento, com gente como Descartes, que ajudou a humanidade a avançar em uma linha onde obteve sucesso, ao mesmo já estava a ruína da sociedade de hoje.

IHU On-Line – Não se trata de uma incongruência falar em crise de civilização, considerando que essa mesma civilização – manifestação da possibilidade da convivência humana – é responsável pela crise?

Jean Pierre Leroy
– Sim, mas quando se diz crise da civilização não se está lamentando forçosamente que esta civilização esteja em crise, se constata que está em crise e, é claro, que é produzida por ela mesma. No início das civilizações está sua destruição futura. Ela mesma se destrói. Este modelo de produção e de consumo é inerente a esta civilização ocidental, que se estende hoje a todo o mundo. É claro que este modelo é destrutivo porque não consegue universalizar os bens, marginaliza e sempre marginalizará parte da humanidade, e porque não há recursos naturais capazes de dar conta e de fornecer os recursos necessários para a reprodução desse modelo.

IHU On-Line – O liberalismo e a esquerda clássica são tributárias da mesma racionalidade: a crença no progresso infinito. Ambas têm a mesma responsabilidade pela crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Não devíamos esquecer que a União Soviética, com o capitalismo de estado, também reproduzia esse modelo do ponto de vista econômico e de uso dos recursos naturais. Tanto que hoje, na ex Alemanha Oriental e na Europa do leste, há muitos lugares onde já se deixou uma catástrofe de destruição ambiental, de contaminação de solos, de áreas industriais extremamente contaminadas, e não falo só de Chernobyl, elas mesmas estavam implicadas neste modelo. Aliás a gente vê, no caso do Brasil, que boa parte do PT e da esquerda está achando que há o progresso e o desenvolvimento, e quer continuar com esse modelo. Isto, sem dúvida, permeou as esquerdas também.

IHU On-Line – O capitalismo nos últimos dois séculos assistiu a duas grandes revoluções: a Revolução Industrial e a Tecnológica. Sob a perspectiva cultural, qual das duas impactou mais a sociedade humana?

Jean Pierre Leroy
– Ambas. A Revolução Tecnológica é diretamente ligada à Revolução Industrial. A Industrial levou à produção e ao consumo de massa e isso impactou no sentido de que permitiu a organização maciça, e que a população possa aumentar de modo exponencial. A morte jovem não se tornou a única alternativa para a maioria da humanidade. Esta revolução ajudou enormemente a humanidade a poder aumentar, o que levou a uma corrida tecnológica permanente, com o aperfeiçoamento de produtos. Isto renova a capacidade de alimentar mais população, de permitir que as pessoas vivam mais e dar qualidade de vida, ainda a uma minoria. Como isso foi capturado pelas empresas e pelo mercado, leva a uma corrida onde se explora a mão-de-obra e muita vezes a marginaliza e a torna inútil.

Com esse esquema sempre temos mais povos e classes sociais que ficam sobrando. E por outro lado, leva a uma superexploração dos recursos naturais. Não tem jeito. Tem gerações de celulares que fazem cada vez mais coisas, mas para cada uma delas deve ter muita água, recursos naturais, energia e minerais. A base da produção da sociedade não muda com essas novas tecnologias. Por que cada nova tecnologia leva a mais produto. Esta combinação da industrialização do artefato, sempre a um grau mais sofisticado de tecnologia, está nos levando à catástrofe. Esta também é a lei do mercado. As empresas buscam seu lucro. E como, hoje, as empresas estão sempre mais anônimas com investidores do capital e muito distantes da produção, então, só interessa mesmo o lucro. Tecnologia e lucro combinados nos levam a esse buraco. Progressivamente a impressão que se tem é que quem está “dando as cartas” e está dizendo qual deve ser nosso futuro são as grandes multinacionais e os grandes lotes empresariais. Todos os governos estão presentes em todas as grandes negociações internacionais. Hoje, para não se buscar mais longe, aqui no Brasil vemos claramente o poder dos grandes grupos empresariais.

Eles que dizem para onde deve ir o consumo e a produção de energia, o que devemos produzir no campo e como devemos produzir. Não imaginemos que sejam só produtores rurais na bancada ruralista no Congresso, é todo um grupo do agronegócio e grandes multinacionais que estão por trás disso também. Isto é uma incoerência e uma catástrofe.

IHU On-Line – Quais seriam as bases de um projeto de esquerda radicalmente transformador frente à crise de civilização?

Jean Pierre Leroy
– Frente à crise política que conhecemos aqui no Brasil, vemos como é complexa e como está nos fazendo falta, de fato, uma esquerda. Um campo político que tenta segurar as pontas e, ao mesmo tempo, tenha um projeto ético de igualdade, que parte das bases da sociedade, e com projeto que resgate essa convivência com a natureza e a possibilidade da humanidade de amanhã continuar conectada com ela e poder continuar vivendo nela e dela. O que há provavelmente, e talvez mais do que investir em espaços formais de poder no plano local, nacional, regional e mundial, é costurar, aos poucos, espaços em que setores da base da sociedade tentem viver de outra maneira e tentem conectar estas questões econômica, ecológica, da igualdade e da justiça, conjuntamente num projeto de vida.

Hoje existem tantas coisas fantásticas que se fazem, mas a necessidade que haveria é de costurar aos poucos isso, mostrando que, no fundo, todas as iniciativas de setores da sociedade e movimentos sociais de pequenos grupos, poderiam ser interpretadas como a busca de um outro modo de viver e de se relacionar com os outros e com o mundo.

IHU On-Line – É possível identificar movimentos sociais que interpretam corretamente a natureza da essência da crise civilizacional e trazem consigo o gérmen de outra sociedade? Quem são esses movimentos?

Jean Pierre Leroy
– Hoje eu diria que nenhum movimento por si lançou algo que traga isso. Acho que isto é um problema, inclusive. A Via Campesina coloca questões fundamentais. Primeiro por que resgata a percepção de que, lá na base da sociedade, existem setores ainda excluídos e marginalizados, que devem ser considerados, e que tem direito à igualdade e dignidade. Também resgata a percepção que existem classes sociais, e que ainda existem setores sociais que querem eliminar outros. E, ao mesmo tempo, dentro deste movimento há muita gente que também tem a clareza de que deve reatar esse laço com a natureza e que tem um papel pela agricultura camponesa, pela produção de água e cuidar da biodiversidade.

Esses movimentos, com todas as suas ramificações são muito interessantes, mas também enfrentam a questão do machismo com os movimentos de mulheres. Do outro lado eu, pessoalmente, não acho que sozinhos podemos dizer “aqui está o nosso futuro” ou “este movimento é o exemplo acabado”. Não vejo nenhum movimento sozinho capaz de dizer “eu o represento”. É buscar dentro de novas formas, não digo de organização mas de conexão a novas redes, que juntas dizem “estamos cada um com nossas diferenças, mas avançando na mesma direção”. Hoje tem muita gente na universidade, indivíduos que individualmente não são nada, mas coletivamente, cada um no seu lugar, trabalham para um novo movimento, para novas ideias. As escolas que tentam dar outra direção ao ensino, isto em uma ou duas escolas, não é movimento pois é pequeno e isolado, mas temos que ver e tentar pensar que é de um conjunto ainda muito pulverizado, mas que pode surgir alguma coisa. Internacionalmente é a mesma coisa. Hoje, talvez a Via Campesina seja o exemplo maior de movimento que ainda consegue congregar. Hoje tem movimentos indígenas, como o movimento que está partindo dos Andes e da Bolívia pelo bem viver. Politicamente não tem um peso no Brasil, o peso dele é quase nulo, mas ao mesmo tempo eles colocam questões superimportantes que vão na mesma linha da Via Campesina ou de um pequeno movimento urbano que perceba que não dá para ir como a gente está indo. Acho que mais do que apontar um só movimento, vamos buscar se conectar com outros que já avançam, mas que estes movimentos tenham também a percepção que “uma andorinha só não faz a primavera”.

quinta-feira, 27 de agosto de 2009

Um dia sem carne faz diferença



"a adoção de uma dieta vegetariana durante um dia da semana por toda a população dos Estados Unidos seria o equivalente a tirar 20 milhões de carros da estrada"



Surgido nos Estados Unidos, movimento que procura diminuir o consumo de carne ganha adeptos em vários lugares do mundo, inclusive no Brasil. A reportagem é de Jennifer Koppe e está publicada no jornal Gazeta do Povo, 26-08-2009.

Um dia por semana sem comer carne pode ajudar a combater o aquecimento global. É o que afirmam os engajados na campanha Meatless Monday (“Segunda sem Carne”), movimento que surgiu nos Estados Unidos em 2003, com o objetivo de incentivar as pessoas a consumir menos carne.

Segundo um estudo da Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), as emissões de gases de efeito-estufa – como o dióxido de carbono, o metano e o óxido de nitrato – associadas à cadeia de produção da carne representam um quinto das emissões totais mundiais. Cerca de 18% das emissões provêm do desmatamento para a criação de pastagens, do transporte da carne, do processamento industrial do alimento e do sistema digestivo dos bovinos. “Calcula-se que o gado emita 80 milhões de toneladas de gás metano (por gases e fezes) por ano. Este gás, por sua vez, tem potencial térmico 21 vezes maior do que o gás carbônico”, explica o professor do Mestrado de Gestão Ambiental da Universidade Positivo Maurício Dziedzic.

O impacto de uma ação como essa parece insignificante, mas, se todos os habitantes dos países ricos adotassem a medida, a diferença seria bastante significativa. De acordo com o escritor norte-americano Michael Pollan, autor de O Dilema do Onívoro, a adoção de uma dieta vegetariana durante um dia da semana por toda a população dos Estados Unidos seria o equivalente a tirar 20 milhões de carros da estrada.

Ação global

O movimento Meatless Monday ganhou adeptos em vários países. Na Inglaterra, o ex-beatle Paul McCartney conseguiu chamar a atenção da mídia ao lançar, em 2008, uma cria da campanha americana: o Meat Free Monday. A filha do cantor, a estilista Stella McCartney, o músico Moby, a atriz Kate Bosworth e a artista plástica Yoko Ono, entre outras celebridades, aderiram ao movimento.

A Câmara de Vereadores da cidade de Ghent, na Bélgica, instituiu que restaurantes, escolas e hospitais ofereçam opções de refeições sem carne na terça-feira. O Dia Vegetariano também ganhou força em Israel.

No Brasil, a Segunda sem Carne deverá ser lançada oficialmente no dia 3 de outubro, no Parque Ibirapuera, em São Paulo. A versão brasileira da campanha é uma iniciativa da Sociedade Brasileira Vegetariana (SBV) em parceria com a Secretaria Municipal do Verde e do Meio Ambiente de São Paulo e já conta com o apoio do Slow Food São Paulo, do Instituto Nina Rosa e do Greenpeace.

Em Curitiba, a SBV tenta, aos poucos, conscientizar a população sobre os benefícios da dieta vegetariana. A última ação do grupo aconteceu durante os meses de junho e julho em um shopping da cidade. Vinhetas eletrônicas exibidas na praça de alimentação e nos corredores tinham o objetivo de convencer as pessoas a optar por uma refeição sem carne, que hoje em dia pode ser encontrada em quase todo restaurante. “Só o fato de diminuir o consumo já faz uma grande diferença. Muitos problemas ambientais são causados por hábitos que cultivamos. A alimentação não está isolada do mundo e da sociedade”, lembra Ricardo Laurino, coordenador do grupo em Curitiba.

Será que a moda pega por aqui?

O Brasil está entre os países que mais produzem e consomem carne no mundo. Temos o maior rebanho bovino comercial e somos o maior exportador de carne em toneladas. Segundo dados do Serviço de Informação da Carne (SIC), o país registra um consumo per capita de 40 quilos de carne bovina por ano, contra 30 quilos de carne de frango e 12 quilos de carne suína.

Ao mesmo tempo, cerca de 28% dos brasileiros têm procurado diminuir o seu consumo de carne, segundo um estudo da empresa de pesquisas Ipsos. Os motivos envolvem não só a saúde, mas também a preocupação com o meio ambiente. O boicote de grandes redes de supermercados à carne bovina proveniente de fazendas ilegais na Amazônia, por exemplo, chamou a atenção das pessoas para o desmatamento da floresta e a crueldade praticada com os animais durante o abate.

O designer Érico Almeida, 26 anos, e o engenheiro florestal Gustavo Gatti, 35 anos, fazem parte do time que mudou seus hábitos em nome do planeta. “Já faz três meses que não como frango e carne vermelha. Eu me sinto mais leve não só fisicamente. Fico feliz de estar contribuindo de alguma forma”, conta Gustavo. Há quatro anos que o designer só abre exceções em datas especiais. “No aniversário da minha mãe, não resisti”, confessa.

Já Gustavo, analista de projetos ambientais da Fundação O Boticário, diz que foi o trabalho que o convenceu a mudar de atitude. “Tenho acesso a muitas informações a respeito do prejuízo causado por alguns cultivos, inclusive a pecuária. Os números são assombrosos. Por isso, adotei a redução do consumo de carne como estratégia para conscientizar outras pessoas sobre o assunto”, conta.

segunda-feira, 24 de agosto de 2009

Brasil copia o anti-ambientalismo chinês


Governo Lula e Congresso Nacional copiam modelo (anti) ambiental chinês


"O cenário ideal de crescimento econômico para o Brasil, imaginado por economistas desenvolvimentistas ou liberais dos governos petista-tucano, reside na conjuntura atual de crescimento da China (casa dos 11% em 2008) e seus investimentos privados impulsionados por megaprojetos industriais e infra-estruturais com regras de licenciamento ambiental e compensação de danos propícias ao empreendedor", escreve Kenzo Jucá, especialista em Desenvolvimento Sustentável e Direito Ambiental (UNB) e assessor da liderança da bancada do PSOL na Câmara dos Deputados. em artigo publicado no Correio da Cidadania e reproduzido por EcoDebate, 24-08-2009. Segundo Jucá, "não há mais espaço no Planeta Terra para que Brasil, China e Índia “tenham o direito” de se desenvolver nos patamares imperialistas de EUA e Europa do passado, linha defendida pela social-democracia ambiental. O tempo histórico não o permite mais.

Eis o artigo.

Na volta do recesso parlamentar em agosto, o Congresso Nacional – através do governo e sua bancada – retoma um dos pacotes de reforma constitucional mais danosos para as presentes e futuras gerações do Brasil e do mundo: o rebaixamento da legislação ambiental brasileira, que era uma das mais avançadas do Planeta Terra desde o fim dos anos 1980 até a era Lula.

Desde o segundo semestre de 2008, foram aprovadas ou editadas uma série de medidas articuladas no pacote de reformas anti-ambientais de Lula. Muitas outras estão tramitando ou prontas para votação em plenário ou nas comissões temáticas do Congresso Nacional. Possuem apensados projetos de lei pertencentes ao pacote de medidas do PAC, como o PLP 12/03 (Sarney Filho) e o PLP 388/07 (do Executivo), que estabelecem novas regras de licenciamento e responsabilidades ambientais e estão juntos na mesa do plenário. Ou ainda o Novo Código Florestal dos ruralistas – PL 5367/09 de Valcir Colatto (PMDB/ SC) – em discussão nas Comissões de Agricultura e de Meio Ambiente da Câmara dos Deputados.

O atual modelo brasileiro de reforma ambiental e seus projetos de lei e emendas constitucionais são coordenados pelo governo com papel decisivo de sua base parlamentar ruralista e empreiteira do Congresso Nacional. Pretende criar um “ambiente favorável” à nova realidade de crescimento econômico vertical das obras do PAC e ao incremento no avanço do agronegócio sobre a Amazônia. O cenário ideal de crescimento econômico para o Brasil, imaginado por economistas desenvolvimentistas ou liberais dos governos petista-tucano, reside na conjuntura atual de crescimento da China (casa dos 11% em 2008) e seus investimentos privados impulsionados por megaprojetos industriais e infra-estruturais com regras de licenciamento ambiental e compensação de danos propícias ao empreendedor.

Na China, estudos demonstram que 67% das cidades apresentam índices extremos de poluição atmosférica, cerca de 59% dos seus rios possuem alta degradação e 54% dos lençóis freáticos estão bastante abaixo do critério de água potável estipulado pelo Estado da China. O país que mais cresce no mundo sofre séries sucessivas de pequenas e mega-catástrofes ambientais associadas, desde a hidrelétrica Três Gargantas que atinge 116 cidades e desloca 2 milhões de pessoas, até o elevado risco das mais de 20 mil infrações mensais por despejo irregular de dejetos químicos industriais no ambiente. Isso sem falar nas emissões de carbono por queima de florestas e combustíveis. Talvez toda a cadeia ecossistêmica dos seres vivos na China e sua complexidade ambiental estejam comprometidas, devido à relação de interdependência sistêmica existente entre as cadeias, tudo com importante repercussão no ambiente global.

O modelo econômico de crescimento capitalista altamente agressivo (típica herança do autoritarismo estalinista), adotado pela China no último período e que torna o PAC de Lula fichinha, combinado a regras ambientais quase inexistentes, estão possibilitando esse desastre global. A última grande “campanha ambiental” promovida pelo governo chinês, em 2005, acabou desmoralizada com a multa de 200 mil yuans aplicada a uma usina poluidora do rio Jinsha, quantia irrisória diante dos bilhões de yuans em investimentos do empreendimento e da gravidade dos impactos gerados. Anualmente, 20 mil casos de crimes ambientais sérios escapam da justiça chinesa impunemente. E quando não escapam as empresas poluidoras não temem governo, justiça, multas ou legislação ambiental na grande China pós-Mao.

No Brasil, hoje, empreiteiras e ruralistas ainda mantêm certo respeito e temor à legislação ambiental, conseqüência da própria lei e por serem submetidos muitas vezes a exigências e negociações sob pressões do movimento de massas e ações do Ministério Público. Com o PAC e a reforma ambiental, o que o governo pretende é que não haja mais isso. O que está acontecendo é que o processo democrático de licenciamento ambiental previsto atualmente – que deveria envolver MMA, IBAMA, estados, municípios, CONAMA, conselhos locais e regionais, sociedade civil, comunidade científica etc. – está sendo desarticulado definitivamente, assemelhando-se ao da China.

Os líderes do governo na Câmara dos Deputados, Henrique Fontana (PT/RS); Sarney Filho (PV-MA); o presidente da Comissão de Meio Ambiente, Roberto Rocha (PSDB/MA); o coordenador da bancada agropecuária, Valdir Colatto (PMDB/SC) e o ruralista Onyx Lorenzoni (DEM/RS), compõem o comando da reforma anti-ambiental em curso na Câmara dos Deputados. Falam em desjudicialização do licenciamento ambiental. Falam em agilização do processo. Na prática, querem impedir que questionamentos técnicos e/ou da sociedade civil ganhem dimensão legal capaz de interferir e democratizar o projeto original do empreendedor privado-estatal.

Esse entendimento “chinês” é a base principal dos projetos aprovados: MP 458/09 da grilagem na Amazônia e Decreto-Lei 6848/09 que limita a compensação ambiental em 0,5% do custo da obra. Também orientam os projetos em tramitação os PLP 12/03 e PL 5367/09, os próximos a serem votados após o recesso do Congresso Nacional. Esses últimos determinam que um único ente federado seja responsável pelo licenciamento ambiental, o que hoje é responsabilidade concorrente e complementar entre União, estados e municípios, reforçando os princípios da precaução e da prevenção ambiental. Também acabam com o Estudo Prévio de Impacto Ambiental junto ao órgão licenciador estadual, peça inicial e elementar de qualquer processo técnico sério e consubstanciado de análise de riscos e gestão ambiental. O estudo prévio é o início do dimensionamento da extensão do impacto. Como diz o ditado, pau que nasce torto, nunca se endireita.

O Brasil possui algumas das maiores empreiteiras do mundo, que adquiriram excelência em grandes obras de engenharia e acumularam patrimônios bilionários (Odebrecht, Camargo Corrêa, Engevix-Themag) notadamente a partir dos anos 1950 e do milagre econômico dos 1970 – das três maiores hidrelétricas do mundo, duas são brasileiras. Os Estudos e Relatórios de Impactos Ambientais (EIA/ RIMA) dessas grandes obras só começaram a ser adotados no Brasil no início dos anos 1980, apesar de serem conhecidos no mundo desde os anos 1960.

A Constituição Federal de 1988 e as legislações complementares do CONAMA consolidaram o arcabouço legal sobre meio ambiente existente hoje no Brasil, uma referência internacional. São fruto das mobilizações sociais e conquistas populares das Diretas Já. Esse processo gerou a regulamentação da obrigatoriedade de relatórios e estudos de impactos ambientais e políticas de compensação e mitigação de danos sócio-ambientais com participação da sociedade. É o arcabouço legal que perdurou até o desmonte atual de Lula e seu escudeiro fiel Carlos Minc.

Formam um conjunto de princípios e procedimentos legais e institucionais que eram adotados até há alguns meses atrás, quando começaram a cair com o ataque recente do Congresso, através da frente governo/ruralistas/empreiteiros. É o caso do Decreto 6848/09, que fixa o teto de 0,5% para compensação sócio-ambiental, independentemente do grau de prejuízo à sociedade e ao ambiente causado pela empreiteira e seu projeto. Esse decreto contraria até jurisprudência e decisão do STF, que vincula o valor da compensação ao grau do impacto causado. Contraria também a Conferência Rio-92 e o princípio jurídico do poluidor-pagador, onde prejuízos ambientais são reparados integralmente pelos causadores. O decreto dissocia dano e reparo. É um dos marcos da aliança ambiental Brasil-China. Basta lembrar das multas em yuans. A partir de agora, os símbolos do ridículo anti-ambiental podem ser yuans e reais.

As Resoluções N° 01 e N° 06 de 1986 do CONAMA e outras que seguiram são o marco da normatização e da efetividade da legislação ambiental brasileira após a redemocratização, definindo o conceito legal de impacto ambiental e compensação. A reforma ambiental em curso no Congresso Nacional propõe redefinir os princípios e as regras dos estudos de impacto e compensação ambiental, estabelecidas e adotadas por Poder Público e empreendedores desde os anos 1980.

Sob alegação jurídica de conferir consistência constitucional à normatização ambiental (competência legal que de fato o CONAMA não possui), promove um retrocesso de no mínimo 30 anos, pois a tendência é que se volte a patamares de permissividade ambiental anteriores aos anos 1960. Os investimentos do PAC em infra-estrutura são os maiores feitos no Brasil desde JK e dos governos militares em volume de recursos financeiros. Esquecem apenas que a humanidade evoluiu mais de meio século desde então e descobriu o aquecimento global e as tecnologias limpas. Não há mais espaço no Planeta Terra para que Brasil, China e Índia “tenham o direito” de se desenvolver nos patamares imperialistas de EUA e Europa do passado, linha defendida pela social-democracia ambiental. O tempo histórico não o permite mais.

Lula e o Congresso resolveram abrir definitivamente as alas para empreiteiras executarem os R$ 506 bilhões do PAC e para ruralistas executarem a Amazônia. Ainda há tempo de resistir, unificando a luta de indígenas, ribeirinhos, atingidos por barragens, castanheiras, extrativistas do açaí, seringueiras, parteiras, trabalhadores urbanos etc. Essa população está ameaçada, bem como está o Código Florestal, a Lei do Sistema Nacional de Unidades de Conservação, entre outros marcos da legislação ambiental brasileira.
(...)

As soluções a essa crise ambiental devem partir da negação dos modelos neoliberais que promovem catástrofes humanas e ambientais e às ditas políticas de desenvolvimento sustentado ou eco-sociais e seus eco-procedimentos, que se inscrevem nas vias de ajuste da economia neoliberal aos processos de degradação ambiental e aquecimento global.

A construção de abordagens teóricas e políticas adequadas a esta problemática passam pela afirmação de outra racionalidade de mundo, pela construção da teoria da Racionalidade Ambiental, que Enrique Leff define como o complexo processo de formulação epistemológica interdisciplinar, que habita a visão materialista da história de Marx; o naturalismo dialético de Bookchin; a retórica pós-moderna de Baudrillard; a lei da entropia de Georgescu-Roegen; a termodinâmica dissipativa de Prigogine; o pensamento da complexidade de Morin; a racionalidade comunicativa de Habermas; e a ontologia de Heidegger. É um difícil caminho científico e político, que somente pode ser trilhado por socialistas revolucionários a partir do conhecimento tradicional de populações exploradas ou autóctones.

Quando o gargalo se estreita: manipulação, conflito, e radicalização no coração do Império



Sistema atual americano de saúde deixa 46 milhões de fora


Cerca de 46 milhões de pessoas nos EUA não têm plano de saúde. Como não existe um Sistema Único de Saúde (SUS) no país, significa que, se essas pessoas ficarem doentes, precisarão vender o carro ou hipotecar a casa para pagar as contas do hospital. Despesas médicas são o principal motivo de falências pessoais no país.

A reportagem é de Patrícia Campos Mello e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-08-2009.

Parte dos americanos com mais de 65 anos ou portadores de deficiências está coberta por um sistema chamado Medicare, no qual o governo paga os hospitais e médicos que atendem o beneficiário. E parte da população de baixa renda entra no Medicaid, outro sistema bancado pelo governo. Mas grande parte da população - esses 46 milhões - está em um buraco negro. Muitos estão em uma faixa intermediária - não são tão pobres para receber o Medicaid, nem tão idosos para o Medicare -, não têm plano de saúde no emprego e não conseguem pagar um privado..

Os segurados ou têm dinheiro para pagar um plano privado ou têm um emprego que oferece um plano de saúde. Nos EUA, as empresas podem despedir grávidas e até pessoas com câncer. Ter um plano de saúde tampouco garante que a pessoa não terá de pagar por seus tratamentos médicos.

A maioria dos planos estabelece um limite de gastos anual e, em seguida, uma franquia que o seguro só começa a reembolsar depois que o paciente paga sua contrapartida. Os planos também podem se recusar a fazer seguro para pacientes com histórico de doença crônica ou pré-existente.

Para completar, o sistema de saúde é uma bomba-relógio para as contas públicas. O Medicare, por exemplo, vai se tornar deficitário em oito anos.Os gastos com saúde crescem a uma taxa superior à inflação. Os EUA são o país que mais gasta com saúde - US$ 7 per capita, ou 16% do PIB -, mas está em 37º lugar em qualidade de atendimento, ao lado da Eslovênia, segundo o ranking da Organização Mundial de Saúde.

Para que os 46 milhões de cidadãos sem plano de saúde passem a ter um, o governo precisará gastar US$ 1 trilhão ao longo de dez anos. O dinheiro viria de uma gestão mais eficiente do Medicare e do Medicaid e de um aumento de impostos sobre quem ganha mais de US$ 250 mil por ano.

O presidente americano, Barack Obama, quer criar um mercado de trocas de planos de saúde, onde seguradoras privadas competiriam com a seguradora estatal ou cooperativas. Todos os americanos seriam obrigados a ter um plano de saúde e o governo subsidiaria aqueles que não pudessem pagar. A competição reduziria os preços. As seguradoras privadas estariam proibidas de fixar tetos para gastos e franquias, além de não poderem discriminar pacientes. Também haveria painéis para julgar a eficiência de tratamentos de saúde como forma de cortar custos.

Muitos acham, porém, que esses painéis resultarão em um racionamento de assistência médica, que um grupo de burocratas poderá negar os tratamentos mais caros aos segurados. Os idosos são especialmente resistentes às reformas, porque a maioria já está coberta pelo Medicare.

Além disso, as seguradoras e os defensores do livre mercado temem que a concorrência com o setor estatal ponha os preços tão baixos que levariam os planos privados à falência.







Reforma do sistema de saúde desperta o extremismo racial nos EUA


Na segunda-feira passada, dois homens foram vistos carregando armas semiautomáticas diante do local onde o presidente pronunciava seu mais recente discurso sobre a reforma da saúde. Questionado sobre o porquê das armas, um dos homens respondeu: "Porque eu posso fazer isso. No Arizona, ainda tenho algumas liberdades." Essas observações somam-se a uma série inquietante de gestos extremistas que exprimem repulsa pelo presidente. Como um manifestante em Maryland que segurava um cartaz com os dizeres: "Morte a Obama" e "Morte a Michelle e a suas duas filhas idiotas".

O artigo é de Michael Jeffries, professor de estudos americanos do Wellesley College, em Massachusetts, publicado pelo jornal inglês The Guardian e reproduzido pelo jornal O Estado de S. Paulo, 23-08-2009.

Obama terá muita dificuldade para se concentrar na política e, ao mesmo tempo, em repelir uma série de ataques da direita. Desde o começo, ele reconheceu que há necessidade de um debate legítimo sobre a melhor maneira de reformar o sistema de saúde, argumentando que seu plano pretende oferecer a máxima eficiência e estabilidade ao maior número possível de americanos. Ele menosprezou as farpas desonestas e incendiárias dos que querem pintá-lo como o diabólico conspirador do "painel da morte".

O presidente chegou a ressaltar o componente emocional das recentes flechadas e a destacar a propensão da imprensa a dar mais atenção a episódios de ira e radicalismo do que a episódios de diálogo educado. Embora se refira ao extremismo exagerado com o qual é recebido a toda hora, ele se recusa a analisar diretamente seu teor ou a especular sobre sua fonte.

Em um artigo publicado no jornal Observer, o comentarista político Michael Crowley argumenta que o extremismo manifestado nas multidões iradas e nos homens armados nas reuniões de Obama nas cidades visitadas representa a última fase da Revolução do Branco Irado na política americana.

Segundo Crowley, esse arquétipo político foi cunhado na década de 90, quando os brancos que elegeram Bill Clinton, em 1992, votaram no Partido Republicano nas eleições legislativas de 1994. Na era Obama, o irado homem branco apareceu como "Joe, o Encanador" na campanha presidencial, protestou contra a nomeação de Sonya Sotomayor para a Suprema Corte e acusou Obama de racismo por seus comentários sobre a prisão do professor Henry Louis Gates.

Crowley faz bem em ligar os pontos entre as manifestações anteriores de ira politizada e as de hoje. Mas é importante reconhecer que, atualmente, a intensidade da raiva que estamos testemunhando difere da de tempos passados em razão da raça de Obama.

Nos piores casos, sentimentos conscientes de medo e ameaça que empurram cidadãos descontentes para uma ira descarada são intensificados por sentimentos subjacentes de ameaça e repugnância pela ideia de que outra pessoa, que não um branco, passe a ser a personificação e o representante da nação.

Se for preciso encontrar um culpado, segundo o conceito do branco irado, Crowley argumenta que a melhor maneira de derrotar esses guerreiros da cultura será reerguendo a economia e destruindo a ira em suas raízes - nas estruturas econômicas, e não em patologias culturais.

O debate sobre a reforma do sistema de saúde é, literalmente, uma questão de vida ou morte, de dor e sofrimento e da proliferação de práticas imorais adotadas pelos planos de saúde. Assim como é importante falar de controle de qualidade e de eficiência, é fundamental definir a reforma da saúde como uma obrigação moral - como algo que devemos uns para com os outros, como americanos e pais das futuras gerações.




''Indústria promove campanha de medo''

As seguradoras estão usando táticas de medo para impedir a aprovação da reforma de saúde, repetindo um padrão já usado durante a tentativa de aprovação da reforma no governo de Bill Clinton (1993-2001). A afirmação é de Wendell Potter, ex-executivo e porta-voz da Cigna, uma das maiores seguradoras de saúde dos EUA. Ele depôs na Comissão de Comércio, Ciência e Transporte do Senado americano em junho e afirmou que, desde os anos 90, as seguradoras ganharam fôlego e poder para dominar o mercado. "O que temos é um sistema de saúde subordinado a Wall Street", disse.

A entrevista é de Janaína Lage e publicada pelo jornal Folha de S. Paulo, 23-08-2009.

Eis a entrevista.

Por que o sr. abandonou a carreira nas seguradoras de saúde?

Percebi que as práticas adotadas estavam quebrando o sistema de saúde. As leis não protegem o consumidor o suficiente. Deixei meu emprego em maio de 2008, não queria mais ser um porta-voz da indústria. Decidi falar sobre o tema em junho deste ano.

O que são as táticas de medo das seguradoras?

A indústria financia "grupos independentes". Oferece dinheiro para que eles atuem e assustem as pessoas espalhando que o governo vai assumir o sistema de saúde, que a reforma significa socializar o serviço de saúde e a medicina. Isso já aconteceu.

Quando?

Em 2007, a indústria se mobilizou para desacreditar o filme "Sicko", de Michael Moore. Usou um grupo chamado Health Care America. A ideia era mostrar que os problemas apresentados não eram verdadeiros. Lançaram ainda a Health Benefits Coalition que, no início da década, tentava desviar a atenção de projetos de leis para direitos dos pacientes.

Qual é a diferença entre a ação agora e no governo Clinton?

A estratégia é a mesma: usar aliados em negócios, na mídia conservadora e no Congresso para espalhar desinformação. Uma das diferenças é que eles têm atuado de forma mais covarde. Em 1993, eles assumiam que financiavam parte da campanha de "Harry e Louise" [propaganda que ajudou a afundar a proposta de reforma de Clinton, em que um casal de classe média se desesperava com a burocracia do plano e encorajava o povo a ligar para os representantes no Congresso].

Quem tem interesse em vetar ou interferir na reforma?

Fabricantes de remédios, de equipamentos, membros da comunidade médica, seguradoras. Quem ganha dinheiro com o sistema atual.

Mas há propaganda a favor paga pelas farmacêuticas...

Porque de um lado eles pagam pelos anúncios para passar uma imagem de que apoiam a reforma. De outro, atuam por meio de lobistas e grupos "independentes" para influenciar a opinião pública.

sexta-feira, 21 de agosto de 2009

O lado perverso da persuasão


por Maria Berenice da Costa Machado
LANE MEDICAL LIBRARY, STANFORD UNIVERSITY



A partir do século XX, a história da mentalidade passa necessariamente a ser contada também por meio da publicidade. Para o bem e para o mal, as mais competentes peças de persuasão manejam realidades e ajudam a transformá-las, ao interpretar desejos coletivos latentes e devolvê-los ao público na forma de uma imagem e de uma mensagem a que uma maioria adere. Nada diferente, portanto, de qualquer outra modalidade de comunicação de massa, capaz de criar virtudes ou vícios, atrocidades históricas ou progresso social.

O Brasil foi um laboratório fértil para esse tipo de experiência. Eis um povo, o brasileiro, que almejou mudanças de status no século XX, encantado com as próprias potencialidades e também com propaganda de modernidade que vinha de fora, a apresentar uma classe média em processo de afirmação, com homens bem-sucedidos e uma nova mulher – a cada década mais independente e realizada.

Não demorou para a fantasia atingir o jovem, em especial no pós-maio de 68 na França, quando o mundo foi tomado por valores até então subversivos, que precisaram ser rapidamente incorporados ao sistema pelos meios de comunicação. O culto à liberdade foi então apresentado em várias versões, todas palatáveis, até culminar com o uso de imagens de esportes radicais nos anos 90.



O livro Campanhas inesquecíveis: propaganda que fez história no Brasil, organizado pela editora Meio & Mensagem, traz uma seleção de 84 campanhas inesquecíveis, veiculadas entre os anos de 1960 e 1995 – período em que a mídia passou por forte desenvolvimento. É interessante notar que, desse total de peças, quatro são de marcas de cigarros, hoje proibidas, e sete de bebidas alcoólicas, atualmente ainda autorizadas, mas repetidas vezes criticadas.

Foram escolhidas as campanhas que elevaram os produtos anunciados à condição de ícones do consumo de sua época, que estabeleceram relações emocionais com o público e permaneceram na sua memória afetiva. Seus ingredientes – criatividade, ousadia, ineditismo e pesados investimentos em mídia – revelam o quanto houve de esforço técnico e persuasivo para dar visibilidade à mensagem e provocar no público-alvo um sentimento de identificação e adesão.


Atribui-se algumas vezes à publicidade um papel pedagógico e até civilizador. Certas ações de comunicação do século passado vão nessa direção, em especial na área de limpeza e higiene e de eletrodomésticos. A indústria precisava não apenas apresentar seu produto, mas ensinar a usá-lo e mostrar seus benefícios nas questões de saúde e bem-estar.

Há que questionar, porém, as pedagogias persuasivas que foram utilizadas em outras categorias de bens. De fato, os investimentos maciços em publicidade de cigarros, bebidas alcoólicas e carros velozes hoje afrontam uma melhor consciência da sociedade e o necessário compromisso de empresas e governos com o consumidor.



EXERCÍCIO SOCIOLÓGICO

Constatar isso não elimina a necessidade de dialogar com peças publicitárias flagrantemente nocivas, como um exercício sociológico. Isso porque esse diálogo evidencia a mentalidade dominante em diferentes épocas e os estágios da tecnologia, os padrões estéticos, os comportamentos e os hábitos de consumo em um lugar e um tempo que já vão longe.

Um dos primeiros registros da indústria tabagista no Brasil sur giu na revista Fon-Fon (RJ, 25/7/1914). Traz a ilustração de um homem fumando junto ao nome da marca e de um pequeno texto: “É costume que as moças e as senhoras não digam mais aos seus noivos e maridos para não fumar (...) esta marca evita o mau hálito, possui perfume agradável, capaz de deliciar as mulheres, é higiênica e chique”.


Nas décadas seguintes, a publicidade de cigarros no Brasil e no mundo dirigiu seus esforços ao estímulo para que as mulheres fumassem. O produto ajudaria a “acalmar os nervos, dar energia e perder peso”, com o testemunho de atores famosos de Hollywood e, por incrível que pareça, de médicos. Eram ainda utilizadas imagens de bebês robustos e atletas para ilustrar as mensagens, de forma a atingir a imaginário feminino.

Se médicos não se importaram em emprestar seu nome à publicidade, menos ainda as corporações. Em meio à Segunda Guerra Mundial, o Mappin Stores, tradicional magazine instalado em de São Paulo, associou a sua marca a pedido de doações de “quase cinco milhões de cigarros para os soldados inglezes (sic)”.


A publicidade continuou sugerindo à mulher fumar. Nos anos 50, anúncio no Anuário das Senhoras relacionava à “classe”. Na mesma época, a revista Manchete estampou um anúncio que atribuía ao cigarro certa “tradição de bom gosto”. A imagem de uma bela modelo internacional fumando, ao lado da embalagem do produto, completava a cena.

Cigarros e tabacos lideram o ranking de investimentos em publicidade no Brasil nos anos 70 e 80. E seguem com foco no público feminino, com o uso de cenas semelhantes: rosto de mulher com cigarro na mão, acompanhado do slogan “o importante é ter charme”.

Mais que o hábito de fumar, a publicidade das marcas de cigarro procurou vender um estilo de vida, ignorando completamente os problemas que o tabaco poderia provocar à saúde. Os anúncios criaram situações de identificação e projeção, inicialmente para promover o “prazer de fumar” associando o hábito a valores subjetivos, explicitados no uso de palavras como “chique”, “luxo”, “charme” e “classe”. Também eram atribuídos ao fumo poderes de “acalmar”, “dar energia” e “emagrecer”.


Na etapa seguinte, mais próxima do quarto final do século, a saudável juventude brasileira passou a ser o foco das campanhas. Tornaram-se comuns as promessas de vantagem, satisfação e principalmente liberdade em tudo e para todos. Bastava que os jovens comprassem a ideia – e o produto!

Durante a década de 90, o debate sobre os malefícios do fumo se acirrou no mundo, e a indústria tabagista substituiu no Brasil seus personagens por arte abstrata. Em janeiro de 2001 foram proibidos anúncios de cigarros nos veículos de comunicação de massa.

Como estratégias de comunicação, todas essas foram campanhas memoráveis e permanecem nos anais da história social – ainda que, hoje, tais mensagens soem inconcebíveis.


São escassos os registros da atividade publicitária no Brasil no período que antecede a chegada da corte de D. João VI ao Rio de Janeiro, em 1808. Restritos a cartazes rudimentares escritos à mão e aos pregões dos comerciantes nas ruas, os anúncios nada mais eram que uma apropriação criativa da tradição oral, como o exemplo que segue: “Atenção, muita atenção, aviso/ Sorvetinho, sorvetão/ Sorvetinho de limão/ Quem não tem duzentos réis/ Não toma sorvete não”.

A instalação da família real impulsionou o desenvolvimento do país e incrementou a formação de um mercado de bens, de serviços e de comunicação. E, com as prensas tipográficas trazidas na bagagem portuguesa, deu-se a instalação da Imprensa Régia, que editava e fazia circular informações no primeiro jornal do Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro.

Além das notícias, o jornal passou a veicular “annuncios” para propagar e tornar público que havia “huma morada de cazas de sobrado” para vender ou gratificar quem pegasse e entregasse “escravo fugido”. Os reclames usavam linguagem simples e adjetivada para chamar a atenção para a venda ou a compra de escravos, animais, imóveis, remédios e outras mercadorias.


A receita publicitária contribuiu para financiar as empresas produtoras de notícias, fruto das inovações tecnológicas da metade do século XIX, ocasião em que o jornalismo deixou a fase romântica, marcada por debates político-literários aquecidos, emocionais e relativamente anárquicos.

Acelerou-se a venda de espaços, tarefa para os “corretores de anúncios”, assegurando assim a sustentação econômica dos jornais e gerando o embrião do que mais adiante seriam as agências de publicidade. Entre 1891 e 1915 funcionou em São Paulo a Empresa de Publicidade e Comércio, a primeira oficialmente constituída para agenciar anúncios.

As novas tecnologias da comunicação, entre elas a fotografia e a cor para a impressão de revistas, aproximaram o país, no início do século XX, do que já vinha ocorrendo na Europa e Estados Unidos. As inovações exigiram profissionais com mais preparo técnico para a criação e a produção dos impressos publicitários. Teve início a chamada fase artística: os anúncios com textos mais elaborados, escritos por intelectuais, acompanhados por ilustrações coloridas, obra de desenhistas e pintores.

A nova estética facilitou a identificação dos produtos anunciados, uma vez que a maioria das pessoas não sabia ler. Na segunda década do século, foi fundada A Eclética, pioneira entre as agências de publicidade, que conquistou contas das multinacionais recém- instaladas no Brasil.

A publicidade brasileira, hoje tão bem conceituada no mundo, profissionalizou-se, definitivamente, na segunda metade do século XX, acompanhando o ritmo das comunicações de massa, que passaram a contar com as tecnologias do cinema, do rádio, da televisão, do computador e das redes de telefonia e de telecomunicações.

(M. B. C. M.)


***


A matéria abaxo, por sua vez, foi publicada originalmente no Blog HypeScience:

Cocaína, morfina e até heroína eram vistos como remédios miraculosos quando foram descobertos. As substâncias que hoje são proibidas estavam legalmente disponíveis no passado.

Os fabricantes de medicamentos, muitos dos quais existem até hoje, proclamavam, até o final do século 19, que seus produtos continham estas drogas.

Veja dez impressionantes propagandas do gênero.


Heroína da Bayer

Um frasco de heroína da Bayer. Entre 1890 a 1910 a heroína era divulgada como um substituto não viciante da morfina e remédio contra tosse para crianças.

Vinho de cocaína




O vinho de cocaína da Metcalf era apenas um de uma grande quantidade de vinhos que continham cocaína e estavam à venda sem nehum controle. Todos afirmavam que tinham efeitos medicinais, mas eram consumidos também pela sua outra qualidade.

Vinho Mariani

O Vinho Mariani (1865) era o principal vinho de cocaína do seu tempo. O Papa Leão 13 carregava um frasco de Vinho Mariani consigo e premiou seu criador, Angelo Mariani, com uma medalha de ouro.

Vinho Maltine


Esse vinho de cocaína foi feito pela Maltine Manufacturing Company de Nova York. A dosagem indicada diz: “Uma taça cheia junto com, ou imediatamente após, as refeições. Para crianças, doses menores.

Peso de papel




Acima, um peso de papel promocional da C.F. Boehringer & Soehne (Mannheim, Alemanha), “os maiores fabricantes do mundo de quinino e cocaína”. Este fabricante tinha orgulho em sua posição de líder no mercado de cocaína.

Glico-Heroína


Propaganda de heroína da Martin H. Smith Company, de Nova York. A heroína era amplamente usada não
apenas como analgésico, mas também como remédio contra asma, tosse e pneumonia. Misturar heroína com glicerina (e comumente açúcar e temperos) tornava o opiáceo amargo mais palatável para a ingestão oral.

Ópio para asma

Esse National Vaporizer Vapor-OL era indicado “Para asma e outras afecções espasmódicas”. O líquido volátil era colocado em uma panela e aquecido por um lampião de querosene.


Tablete de cocaína



Estes tabletes de cocaína eram “indispensáveis para cantores, professores e oradores”. Eles também amenizavam dor de garganta e davam um efeito “animador” para que estes profissionais atingissem o máximo de sua performance.


Drops de Cocaína para Dor de Dente



Dropes de cocaína para dor de dente (1885) eram populares para crianças. Não apenas acabava com a dor, mas também melhorava o “humor” dos usuários.


Ópio para bebês recém-nascidos


Você acha que a nossa vida moderna é confortável? Antigamente para aquietar bebês recém-nascidos não era necessário um grande esforço dos pais, mas sim, ópio.

O frasco acima de paregórico (sedativo) da Stickney and Poor era uma mistura de ópio de álcool que era distribuída do mesmo modo que os temperos pelos quais a empresa era conhecida.

Doses: para crianças com cinco dias, 3 gotas. Duas semanas, 8 gotas. Cinco anos, 25 gotas. Adultos, uma colher cheia. O produto era muito potente, e continha 46% de álcool.



Ainda sobre as bases norte-americanas na Colômbia



Segue abaixo três matérias analisando o contexto geopolítico e as motivações para a instalação das bases norte-americanas na Colômbia.



O primeiro deles é um trecho de entrevista concedida pelo cientista político Luiz Alberto Moniz Bandeira, um dos principais especialistas na história da diplomacia brasileira, e publicada na revista eletrônica Terra Magazine em 18-08-2009.

Ele considera que "o objetivo da ampliação das bases (dos EUA) na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa."



O segundo artigo vai na mesma direção. Trata-se de análise de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino, em artigo publicado no jornal Página/12, em 07-08-2009.

O terceiro artigo, muito mais provocativo e num tom mais radical, é de autoria do venezuelano Luis Britto García - narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros - e traz também uma análise da presença norte-americana em todo o continente.


1- Entrevista com Moniz Bandeira



A ampliação das instalações militares americanas em território colombiano oferecem quais riscos para a segurança continental?

O objetivo da ampliação das bases na Colômbia é restringir a projeção do poder político e militar do Brasil, frustrando iniciativas como a Unasul e o Conselho Sul-Americano de Defesa. Essas instituições, que dão à América do Sul uma identidade própria, não convém aos Estados Unidos. Não se trata de risco para a segurança continental. A presença dos Estados Unidos sempre foi um fator de desestabilização em todas as regiões do mundo e seu objetivo com a ampliação das bases na Colômbia é fomentar um cisma e impedir a integração econômica e política da América do Sul. A ampliação das bases na Colômbia foi decerto planejada juntamente com a restauração da IV Frota no Atlântico Sul, visando a fortalecer a presença dos Estados Unidos na região e assegurar o controle de seus recursos naturais, como, por exemplo, a água e o petróleo.

Os EUA e a Colômbia caminham para um acordo bilateral. Isso será um erro diplomático do presidente Barack Obama na região?

A ampliação das bases na Colômbia não constitui uma iniciativa do presidente Barack Obama. Ele enfrenta séria oposição interna e não controla todo o aparelho de governo. Não tem muitas condições de reverter a influência do complexo industrial-militar. Atualmente quem pauta a política exterior dos Estados Unidos não é propriamente o Departamento de Estado, mas o Departamento de Defesa, o Pentágono. A militarização da política exterior dos Estados Unidos, formalizada com a criação dos comandos militares, para as diversas regiões, inclusive a América Latina (USSouthern Command), tomou impulso com os atentados de 11 de setembro de 2001. Esses comandos atuam como consulados do Império Americano.

Caso se concretize a ampliação da presença militar americana, o Brasil deve reformular sua política para a Amazônia?

Não há o que reformular na política para a Amazônia como conseqüência da ampliação das bases americanas na Colômbia. Há muitos anos militares dos Estados Unidos trabalham não só na Colômbia como nos demais países limítrofes da Amazônia. E as Forças Armadas estão conscientes da ameaça, ainda que pareça remota. Todos os anos elas realizam operações de treinamento, tendo como primeira hipótese de guerra o enfrentamento com uma potência tecnologicamente superior no teatro de guerra da Amazônia.




Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=24954



2 - As bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil


O Conselho Sul-americano de Defesa da Unasul, uma inspiração brasileira, mostrou-se um tigre asiático. Num dos primeiros testes reais, as polêmicas bases estadunidenses na Colômbia não serão alvo de debate no Conselho, isso porque os EUA fizeram forte lobby para que o tema não seja discutido. Ainda mais: as bases americanas na Colômbia têm um alvo: o Brasil e não a Venezuela.

O artigo é de Juan Gabriel Tokatlian, professor de Relações Internacionais da Universidade Di Tella e membro do Clube Político Argentino em artigo publicado no jornal Página/12, 07-08-2009. A tradução é do Cepat.

Eis o artigo.

Tudo indica que os Estados Unidos poderá utilizar várias bases militares na Colômbia. O acordo, a ser confirmado brevemente, foi apresentado em Bogotá como continuação e complemento da luta contra o narcotráfico e o terrorismo, e em Washington como substituição da base de Manta, no Equador – que os EUA deve abandonar neste ano –, como localizações para levar a cabo “operações contingentes, logística e treinamento”, de acordo com a linguagem do Pentágono.

Visto a partir da situação concreta da Colômbia, não existe nenhum interesse nacional em jogo nesse tema: os avanços do Estado frente aos diferentes atores armados foram relevantes; os vizinhos ideologicamente antagônicos não ameaçam usar força militar contra o país; os vizinhos mais próximos com a situação interna não agridem a Colômbia, nem insinuam fazê-lo; as nações da América do sul não mostraram condutas oportunistas contra Bogotá nem antes, nem agora; e o hemisfério em seu conjunto está procurando deixar para trás a dinâmica custosa e agressiva da Guerra Fria.

Entretanto, o novo compromisso bilateral pode ser analisado e avaliado a partir de outra perspectiva. Uma delas é desde a ótica dos Estados Unidos e desde o prisma da geopolítica global e regional. Nesse sentido, há um conjunto de pressupostos básicos que não foram alterados com a chegada ao governo do presidente Barack Obama.

Nas últimas décadas – e em particular depois do 11-S – produziu-se um desequilíbrio notável entre o componente militar e o componente diplomático na política externa dos Estados Unidos. A militarização da estratégia internacional de Washington implicou num desproporcional gasto na defesa – em relação com qualquer potencial adversário ou individual ou hipotética coalizão, em comparação ao destinado a diplomacia convencional -, uma desmesurada e perigosa preponderância burocrática no processo de tomada de decisões, e uma ascendente autonomia frente aos civis na política pública do país.

Nesse contexto, desde meados dos anos noventa, o Comando do Sul foi se transformando na etnarca militar dos Estados Unidos para o Caribe e América Latina. Estacionado na Flórida, o Comando Sul tende a comportar-se como o principal interlocutor dos governos da área e o articulador decisivo da política exterior e de defesa estadunidense na região. O perfil pro - consular do Comando Sul se observa e comprova mediante a análise empírica do vasto conjunto de iniciativas, ações, desembolsos, exercícios, dados e manifestações que planeja e executa em torno das relações continentais. O restabelecimento da IV Frota é apenas um dos últimos indicadores de uma ambiciosa expansão militar na região que não contou com nenhum questionamento do Departamento de Estado, nem da Casa Branca.

Nesse sentido, o uso de várias instalações militares na Colômbia facilita ao Comando Sul conseguir parte do seu projeto pro - consular: ir facilitando – naturalizando – a aceitação na área de um potencial Estado gendarme no centro da América do Sul. A mensagem principal é para o Brasil e não para a Venezuela. Para além das coincidências políticas e de negócios entre Brasília e Washington, os Estados Unidos buscará restringir ao máximo a capacidade do Brasil no terreno militar e buscará acrescentar sua própria projeção de poder na Amazônia.

Agora, com uma simples manobra diplomática, os Estados Unidos demonstrou que o recente criado Conselho Sul-americano de Defesa (CSD) de inspiração brasileira, é até agora, um tigre de papel. América do Sul, uma região onde não existem ameaças letais para a segurança estadunidense, não há países que proliferem nuclearmente, não se encontram terroristas transnacionais de alcance global que operam contra interesses de Washington, é uma das regiões mais pacificas do mundo, tem regimes democráticos em todos os países e possui, conjuntamente, um baixo nível de anti-americanismo, não poderá discutir porque o Estados Unidos necessita usar bases militares da Colômbia. Nem Bogotá aceita debater o tema – e dali o desdobramento da diplomacia presidencial bilateral desses dias do presidente Alvaro Uribe – nem Washington necessita explicar sua política na região. Em todo caso, o conselheiro de Segurança Nacional dos Estados Unidos, o general James Jones, já visitou Brasília e informou ao governo do presidente Lula a decisão de seu governo.

Na medida em que a América do Sul continue criando instituições que não podem abordar os temas centrais da região, resultará evidente o seu nível de fragmentação e sua incapacidade de assumir os principais desafios da área. Caracas e ainda Brasília podem viver com ele; para Argentina é ruim. Uma vez que Buenos Aires não é um interlocutor chave (seja por amizade ou oposição) de Washington, carece de uma visão estratégica faz anos, e tem perdido influencia na América do Sul e não aporta uma melhor institucionalização regional. A situação do país é todavia mais delicada: o falido nascimento da CSD é muito custoso para a Argentina.




3 - A máquina de guerra do Império


“Alguém poderia crer que este formidável desdobramento conjunto da maior potência militar do mundo com o país mais militarizado da América Latina seria para derrotar 10.000 insurgentes e não se sabe quantos traficantes? Aponta, antes, para as reservas de hidrocarbonetos, de água e de biodiversidade da Venezuela, Equador e Brasil”, escreve o venezuelano Luis Britto García, em seu blog, no dia 16-08-2009. A tradução é do Cepat.

Luis Britto García é narrador, ensaísta, dramaturgo e autor de mais de 60 livros.

Eis o artigo:

Os Estados Unidos não podem ocupar militarmente toda a América Latina e o Caribe. Seu Exército conta com dois milhões de efetivos; os nossos têm apenas um milhão e meio. Para nos ocupar deveriam mobilizar outro tanto, deslocando-os de outras operações vitais ou recrutando-os. Ambas as operações são logística e economicamente inviáveis. Também criariam problemas de controle social e contra-insurgência, difíceis de serem controlados.

O Império mantém sua hegemonia mediante a pressão sobre os governos cúmplices, a penetração cultural que apresenta como desejável e as bases que facilitam a intervenção militar. Como disse Bush em 2002 ao formular a nova Estratégia de Segurança Nacional: “Os Estados Unidos necessitarão de bases e estações dentro e além da Europa Ocidental e do nordeste da Ásia, assim como de arranjos de acesso temporal para o desdobramento das forças dos Estados Unidos a grande distância”.

A ocupação militar do mundo

Os Estados Unidos ocupam – em propriedade ou aluguel – 6.000 bases militares em seu território e 872 fora dele. Estas alojavam 253.288 soldados, um número equivalente de familiares e pessoal de apoio e 44.446 estrangeiros contratados, e constavam de 44.870 quartéis, hospitais, depósitos e outras estruturas de sua propriedade, e 4.844 arrendados. Decisões soberanas fecharam algumas: pelos acordos sobre o Canal do Panamá, o Império desocupou a Base Howard em 1999; o Brasil lhes negou a projetada Base de Alcântara, no Maranhão, e Rafael Correa ordenou que desalojassem a Base de Manta, no Equador.

Mas restam ainda ao Comando Sul as bases de Guantánamo em Cuba, Vieques em Porto Rico, Soto Cano em Honduras, Comalapa em El Salvador, e no Peru as de Iquitos, que domina a Amazônia, assim como as de Santa Lucía Huallaga, Santa Lucía e Palmapampa. Outra base dos Estados Unidos funciona no Paraguai: os soldados ocupantes desfrutam de impunidade para violar as leis paraguaias. Assim mesmo, o Comando Sul opera 17 bases terrestres de radares: quatro na Colômbia, três no Peru, e várias bases móveis ou de localização secreta nos Andes e no Caribe.

Bases contra a América Latina

No começo do Terceiro Milênio, os Estados Unidos estalam as bases aéreas Rainha Beatriz em Aruba e Hato Rey em Curaçao, como resposta à negativa de Chávez de permitir a instalação de bases e os sobrevôos na Venezuela. Na Colômbia, onde avança uma intervenção militar massiva, já funcionavam as bases aéreas de Las Tres Esquinas e Larandia: aeronaves militares norte-americanas operam nos aeroportos de Aplay, Melgar, Cali, El Dorado, Palanquero, Medellín, Barranquilla e Cartagena. A partir de uma delas, e apoiado com tecnologia e pessoal norte-americano, a Colômbia fez o seu ataque ao Equador no começo de 2008.

Os Estados Unidos têm total domínio sobre estes enclaves. Assim, a Agência EFE em Bogotá informa que “Em 22 de abril, o Embaixador dos Estados Unidos na Colômbia, William Brownfield, reuniu-se com o ministro colombiano de Defesa, Juan Manuel Santos, e lhe comunicou que o Departamento de Estado decidiu levantar o veto que desde janeiro de 2003 aplicava à base aérea de Palanquero, no centro da Colômbia, que estava sancionada desde 1999 quando aviões saídos dali bombardearam erroneamente um povoado e mataram 18 camponeses”. Os Estados Unidos sancionam, impõem ou levantam vetos às bases militares em território colombiano, e seus soldados são imunes às leis da Colômbia. Ao seu colar de enclaves acrescentam agora as bases de Malambo, Palanquero, Apiay, Tumaco, Bahía Málaga, Tolemaida e Forte Larandia.

A ressurreição de Manta

O Comando Sul obteve do regime entreguista do presidente equatoriano Noboa a Base Aérea de Manta, na costa noroeste, que dominava o Putumayo, estendia a vigilância aérea sobre a região andina e proporcionava inteligência ao Exército colombiano e aos esquadrões da morte treinados e dirigidos pelos Estados Unidos. Segundo Pace, Manta “é a chave para reajustar a nossa zona de responsabilidade, nossa arquitetura (o aparato militar) e para estender o alcance da nossa cobertura aérea de Detecção, Controle e Seguimento nas Zonas Fonte (de produção de drogas)” (Zibechi, 2005). O presidente Rafael Correa ordenou de forma categórica a desocupação de Manta. Em seu lugar, os Estados Unidos projetam a instalação de outras duas com iguais capacidades na Colômbia, uma delas em Cartagena, para as operações da IV Frota do Atlântico.


Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.php?option=com_noticias&Itemid=18&task=detalhe&id=25015

terça-feira, 18 de agosto de 2009

É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo


Entrevista especial com Alicia Stolkiner


“É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo”, aponta com severidade a professora de Saúde Pública da Universidade de Buenos Aires. Alicia Stolkiner tem acompanhado a evolução da nova gripe a partir do contexto econômico, político e social em que ela está inserida e, assim, afirma que “esse vírus tem atuado como um fator para análise de uma série de funcionalidades sociais e de estados dos sistemas de saúde frente a uma emergência, obrigando a revisar algumas situações e pondo outras a prova”. Assim, nesta entrevista que concedeu à IHU On-Line, por e-mail, Alicia aponta quais são, em sua opinião, os maiores mitos que se criou em torno da disseminação do vírus H1N1 e analisa a atuação dos grandes laboratórios farmacêuticos diante desta “emergência” mundial.

Alicia Stolkiner é psicanalista e doutora em Saúde Pública. Hoje, é professora na UBA. Na Argentina, é representante da Rede de Pesquisa em sistemas e serviços de saúde no Conesul.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – A gripe pode se tornar uma pandemia como se tornou a gripe espanhola no início do século XX?

Alicia Stolkiner
– O comportamento desse vírus, até o momento, não evidencia isso. Ele tem se propagado em forma de pandemia em relação à mortalidade, por uma série de circunstâncias, mas de maneira muito menor. As epidemias são fenômenos biosocioculturais. Todas devem ser compreendidas no contexto econômico, político e social em que ocorrem. A gripe espanhola deixou dezenas de mortos num momento e contexto totalmente diferentes.

IHU On-Line – Quais são os maiores mitos em torno da gripe A (H1N1)?

Alicia Stolkiner –
Em primeiro lugar, como qualquer epidemia, o primeiro mito é que o desconhecido é mais perigoso, acontece, então, que as pessoas se protegem dos estranhos e têm poucos cuidados com aqueles mais próximos. O segundo mito, pelo menos na Argentina, é que a cura depende fundamentalmente de um medicamento e da prevenção através de vacina. Os processos de saúde-enfermidades-atenção são complexos, esquecem que a principal estratégia da defesa é a cura do corpo a partir do sistema imunitário. Este, por sua vez, depende de fatores que não são somente biológicos. É influenciado por variáveis que vão desde a alimentação e o repouso, até o estado de ânimo e o stress ligado às condições de vida. Então, para curar-se é necessário valorizar as tecnologias tradicionais leves: repousar, manter-se num ambiente estável etc. Isso também indica vulnerabilidades ligadas às condições de vida, não só as dos setores da população que não têm direitos básicos (alimento, abrigo etc.) garantidos, como também as daquelas pessoas submetidas a subemprego, condições de contratação precária que impedem de faltar ao trabalho ainda que estejam doentes etc.

É um mito contemporâneo o de que uma pílula mágica soluciona tudo. Com esta gripe, vamos ter que valorizar os cuidados no sentido mais amplo. Não se trata de tomar pílulas e seguir como se estivesse tudo tranquilo. É preciso favorecer e potencializar os fatores protetores e de luta contra a doença em que o corpo e a pessoa têm.

Em algum artigo apontei, inclusive, o risco que significam as dietas hipocalóricas a que se submetem muitas jovens por razões estéticas, vulnerabilizando-se às doenças. Finalmente, acredito que tem acontecido um excessivo alarme levando em conta sua baixa taxa de letalidade. Mais do que mitos, poderíamos falar de uma cultura hegemônica que tende a negar a morte e o risco, naturalizando alguns, inclusive. De toda forma, é mais interessante apontar que esse vírus tem atuado como um fator para análise de uma série de funcionalidades sociais e de estados dos sistemas de saúde frente a uma emergência, obrigando a revisar algumas situações e pondo outras à prova.

IHU On-Line – Em sua opinião, como os grandes laboratórios farmacêuticos estão atuando durante esta “crise da gripe”?

Alicia Stolkiner –
Estima-se que para se manter no mercado mundial, os laboratórios devem lançar anualmente dois ou três produtos capazes de alcançar um milhão de dólares nas vendas. Isso significa que os medicamentos devem avançar criando mercados. Para isso, aprofundam-se dois processos culturais: o da medicalização da vida cotidiana e o da geração da certeza de que todo problema de saúde (e, às vezes, todo e qualquer problema) encontra uma resposta em um produto médico-farmacêutico-tecnólogico.

Antes da epidemia em si, as propagandas de medicamentos destinados a aliviar os sintomas de gripe ou resfriado, a fim de se manter em atividade, favorecerão condutas que logo, durante a epidemia, agravarão a situação. Isto ocorrerá por dois motivos: porque as pessoas só consultarão um médico em casos mais avançados e graves; e porque, ao não manterem-se em repouso, contribuirão para a disseminação de doenças. Deveríamos ter uma maior regulação sobre as propagandas de medicamentos de venda livre ou sobre as propagandas de medicamentos em produtos alimentícios, pois são potencialmente danosos para a saúde.

Também estão em jogo os interesses de produção de uma vacina que seria para todo o mundo (um "A pergunta que está por trás de tudo isso é se a lógica de mercado pode reger a vida dos habitantes do planeta"
negócio incrível) e o famoso Tamiflu, que tem uma curiosa história com o caso da chamada gripe aviária. A pergunta que está por trás de tudo isso é se a lógica de mercado pode reger a vida dos habitantes do planeta.

IHU On-Line – Você pode analisar a evolução viral do H1N1?

Alicia Stolkiner –
Aparentemente sua mutação e origem estão ligadas às formas atuais de produção intensiva de alimentos, neste caso de carne de porco. Sua propagação rápida no mundo é uma mostra da interconexão inevitável da atual fase de desenvolvimento.

IHU On-Line – Qual sua opinião sobre a forma como esta gripe está sendo noticiada?

Alicia Stolkiner –
Acredito que os meios trataram, em geral, mal o tema. Eles responderam de maneira alarmista e com escassa informação útil. Um colega, Federico Tobar, escreveu recentemente: “parece que mitigar o vírus poderia resultar tão difícil quanto o rumor”. É notável que as mortes são permanentemente ressaltadas, mostraram corpos sem vida, mas – com algumas exceções – teve escassa informação destinada aos cuidados coletivos que se deve ter. Todas as mensagens eram destinadas ao cuidado individual pela medida fundamental de não tocar outras pessoas e lavar bem as mãos. Poucas mensagens propiciaram o “cuidar o outro”, para pensar práticas sociais compartilhadas.

IHU On-Line – Existe um plano na Argentina para combater a gripe A?

Alicia Stolkiner –
O sistema de saúde argentino é altamente fragmentado e segmentado. O Ministério da Saúde tem de pouca a nula ingerência sobre as decisões que tomam os governos provinciais ou municipais, dos quais dependem os serviços de saúde. Uma parte da população é atendida no sistema de Obras Sociais e a outra pelo sistema privado. Este último notifica mal as informações de atendimentos. Também a epidemia chegou num momento em que a gestão nacional estava debilitada por um processo eleitoral onde houve a mudança do ministro. A concretização de uma política unificada recém começou a olhar para o fim da epidemia. Acredito que a resposta foi tardia, mas isso é um produto das características do sistema.

Finalmente, optou-se pela suspensão de classes e atividades, mas isso não foi acompanhado, por exemplo, pela suspensão de algumas partidas de futebol importantes em que houve grande concentração de pessoas. A suspensão das aulas teve um efeito inesperado, não sobre a gripe, mas em relação à bronquite que, pela primeira vez em anos, parece não ter chegado ao pico epidêmico no inverno.

IHU On-Line – Este vírus é mais violento? Como podemos explicar a morte de jovens por causa desta gripe?

Alicia Stolkiner –
As cifras atuais na Argentina estão indicando que a maior mortalidade não foi em jovens, mas sim na população de 45 a 59 anos. Efetivamente, o vírus atacou aos jovens e, assim, diferenciou-se da gripe estacional que assola fundamentalmente as crianças e os idosos. Também morreram jovens e alguns deles não estavam nos grupos de risco. Acredito que a mortalidade da população jovem e sã pode ter sido incrementada pela prática de amenizar os sintomas e seguir em atividade até que a enfermidade avance. Muitas das consultas se realizaram quando a pessoa já tinha pneumonia bilateral, que foi a principal causa de morte.



quarta-feira, 12 de agosto de 2009

As vertentes e as propostas da "nova ecologia"



Os paladinos da economia verde


A reportagem é de Mauro Trotta, publicada no jornal Il Manifesto, 08-08-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Aquecimento climático, poluição marinha e do ar, deposição de resíduos. Os problemas ligados à ecologia não só se tornaram lugares comuns, mas também influenciam sempre mais na vida de todos. Assim, entre ritmos sazonais que parecem nos enlouquecer, mudanças do território, limitações do tráfego nas cidades, praias não mais frequentáveis, lixo acumulado nas esquinas das ruas, com incômodos ainda mais graves para quem vive próximo de aterros sanitários ou incineradores, os hábitos cotidianos se modificam, para não falar dos danos à saúde que tudo isso comporta e da sensação de fim de mundo sempre mais difundida.

Em tempos de crise econômica, quando o capitalismo neoliberal parece estar com a corda no pescoço, de repente todos se descobrem atentos aos problemas ambientais, e em muitas partes se defende que uma crise global como a atual pode, na realidade, representar uma oportunidade: trata-se só de conjugar a economia com a ecologia. Desse modo, se poderá sair da crise e salvar o atual estilo de vida, tornando-o só um pouco mais ecológico. Caminho aberto então para expressões como "desenvolvimento sustentável", "revolução verde", "nova ecologia política".




Os ditadores do petróleo

Há também quem, justamente partindo da análise da situação ambiental e econômica, se incline para mudanças profundas que modifiquem desde a raiz o atual sistema sócio-econômico. Enfim, parece quase que, no âmbito da análise da situação do ponto de vista econômico e ecológico, duas tendências analíticas e políticas vão tomando impulso e que relembram a clássica distinção entre reformistas e revolucionários, em que os primeiros tendem a manter com algumas correções a estrutura capitalista atualmente em auge, enquanto que os segundos propõem uma saída do neoliberalismo em nome de um outro tipo de sociedade.

Um livro como "Quente, plano e cheio" (Editora Actual, 2008), de Thomas L. Friedman, pertence sem dúvida ao campo reformista. Editorialista do New York Times, vencedor três vezes do Prêmio Pulitzer, Friedman oferece uma descrição clara, de recorte jornalístico, da situação e receitas suas para sair dela.

Parte-se de uma constatação: vivemos em um mundo em que o superaquecimento climático é uma realidade, em que em todo o lugar se afirmou o mesmo estilo de vida em detrimento das diversidades culturais e ambientais, em que o crescimento demográfico parece incontrolável. Continua-se focando sobre os cinco problemas chaves com os quais se deve lutar, ou seja, a demanda crescente de oferta de energia e recursos naturais sempre mais escassos, a transferência de riquezas aos países produtores de petróleo e aos seus "petroditadores", a penúria energética que opõe quem tem energia em abundância e quem tem pouco, as mudanças climáticas, a perda de biodiversidade.

Trata-se, então, de enfrentar essas problemáticas adotando o que Friedman chama de "código verde", ou seja, de um lado utilizar essas tecnologias de modo maciço, desenvolvendo-as posteriormente, como a eólica e a solar, que garantam energia limpa, e, de outro, pressionar uma intervenção governamental decisiva que, empregando tanto o incentivo (leva) fiscal, com deduções e incentivos, tanto legislativo, elevando os limites em matéria de emissões de poluição, funcione como estímulo poderoso para aquela que deveria aparecer como uma "revolução verde".




A moral da frugalidade

Certamente, trata-se de enfrentar a decisiva oposição de grupos poderosos, como o lobby do petróleo, e de adotar procedimentos fortemente impopulares, pelo menos em curto prazo, mas intervenções do gênero não podem ser adiadas. O problema é que não se entende plenamente como uma mudança dessas é possível sem modificações radicais de todo o sistema sócio-econômico.

Parece, enfim, que as instâncias propostas pelo autor se baseiam mais na necessidade moral do que na análise realista das relações concretas no interior do sistema sócio-econômico. Assim, o fato de que tudo deve ocorrer dentro de uma ótica de conservação do capitalismo fica claríssima também pela famosa frase citada por Friedman do Gattopardo [romance histórico do escritor Giuseppe Tomasi di Lampedusa]: "Se queremos que tudo permaneça como é, é preciso que tudo mude".

A moral também está no centro do texto de Jean-Paul Fitoussi e Éloi Laurent, intitulado "La nuova ecologia politica. Economia e sviluppo umano" (Editora Feltrinelli, 124 p.). Desde o começo, os autores afirmam que "a questão ética se encontra no centro dos problemas econômicos". Inclinam-se, porém, contra o paradigma econômico da regulação interna - segundo o qual o mercado, por meio da livre interação de livres atores, retorna sempre para um estado de equilíbrio ideal - em favor do paradigma da regulação externa: "O correto funcionamento da economia de mercado não é concebível sem a intervenção de um agente externo - o poder público -, enquanto a ordem econômica e social surge de um complexo equilíbrio entre decisões individuais e decisões coletivas".

Além disso, partindo de uma análise de algumas das principais teorias econômicas - de Smith e Ricardo a Mill, Keynes, Georgescu-Roegen, Sen - Fitoussi e Laurent delineiam as características fundamentais de uma "economia verdadeiramente dinâmica", um sistema aberto e não fechado, isto é, em que a escassez produzida pela inexorável lei da entropia possa ser combatida pelo atraso, ou seja, diferindo no tempo consumos e prazeres materiais, aproveitando-se do progresso técnico e dos conhecimentos acumulados nesse período de tempo.

Latouche

A escolha de Latouche

Naturalmente, será preciso investir na educação e na pesquisa para desfrutar o tempo ganho e comprometer-se a fundo na defesa do meio ambiente. A noção de atraso deverá ser assim considerada como "um bem público produzido pelos governos e realizado por sistemas de incentivo adequados às escolhas de longo prazo", e, nesse sentido, essa noção "pode existir apenas no longo tempo da democracia". Uma democracia que, com a ajuda de John Rawls e Amartya Sen, quase coincide com a justiça social e é definida como "o regime que mira à repartição, do modo mais justo, os bens primários e à correção, dentro do possível, de desigualdades de capacidade".

Um olhar sobre as várias posições que analisam a crise econômica e ecológica seria incompleto sem a teoria do decrescimento, proposta por Serge Latouche, que teve, por causa de seus traços de novidades, ampla ressonância e de cujo manifesto se ocupou mais vezes. Recentemente, foi publicado um livro interessante de Latouche intitulado "Mondializzazione e decrescita. L'alternativa africana" (Editora Dedalo, 2009, 124 p.) que reúne vários escritos dos últimos anos centrados no continente africano. O interesse do texto reside sobretudo no fato de desnudar, de forma clara e compreensível, as raízes, os fundamentos justamente de origem africana aos quais o autor se inspirou para construir a sua teoria do decrescimento sereno.

Surgem assim das páginas do livro a oposição entre a "racionalidade" ocidental e a "razoabilidade" africana, ou os contrastes e as diferenças que dividem a África das elites, a oficial, presa de modelos e produtos impostos pelo mercado global, e a outra África, a abandonada, dos pobres, mas capaz de resistir e de sobreviver graças à economia neoclânica, à lógica do dom, à solidariedade. E surgem, principalmente, os protagonistas concretos dessa economia vernacular, as mulheres, os artesãos, os agricultores que construíram esse estilo de vida resistente e alternativo ao neocapitalismo que, segundo os defensores do decrescimento, pode representar o único caminho para salvar o mundo. Se Latouche, pela sua tensão a uma mudança radical do sistema sócio-econômico, deve ser contado entre os "revolucionários", um texto como "O ecologismo dos pobres" (Editora Contexto), de Joan Martìnez Alier, pertence ao mesmo campo e com veios mais marcados.

Livro materialista, segundo a própria definição do autor, "O ecologismo dos pobres" é um texto centrado no conflito: entre ecologia e economia, mas principalmente conflito entre grupos sociais, entre linguagens diversas. Assim, Alier define a noção de economia ecológica como o estudo do "choque inelutável entre expansão econômica e conservação do ambiente" e das suas formas. Do mesmo modo, a ecologia política não seria outra coisa que o campo interdisciplinar de estudos centrado na análise dos "conflitos ecológicos distributivos".

A ética do conflito

O livro não é em nada um árido manual de teoria. Pelo contrário, parte-se da distinção entre as principais correntes ambientalistas: a da "wilderness", voltada substancialmente a "preservar e manter o que resta dos espaços naturais íntegros que permaneceram fora do mercado"; a da ecoeficiência, que crê no "desenvolvimento sustentável", na "modernização ecológica", no "bom uso" dos recursos; e por fim uma terceira corrente, chamada "justiça ambiental", ou "ecologismo popular" ou ainda "ecologismo dos pobres". Esta última mostra não uma "reverência sacra pela natureza, mas sim um interesse material pelo ambiente como fonte e condição de sustento; não tanto uma preocupação pelos direitos das outras espécies e das generações humanas futuras, mas sim pelos humanos pobres de hoje... A sua ética nasce de uma demanda de justiça social entre seres humanos, hoje".

Essa corrente está no centro da análise do livro que, com escrita ágil e clara, adentra no relato de vários conflitos em várias partes do mundo, compreendendo suas implicações teóricas, as estratégias utilizadas, principalmente linguísticas mas não só, as formas de luta. Enfim, parte-se da análise das lutas para poder compreender a teoria geral. Assim, por meio de histórias ligadas à proteção dos mangues contra a indústria dos caranguejos, à resistência contra as barragens, aos movimentos contra a exploração de gás e de petróleo em áreas tropicais, aos conflitos pela saúde e pela segurança no trabalho, às lutas ambientais urbanas sobre o uso do solo, sobre o acesso à água ou contra certas formas de deposição dos resíduos, e tantos outros relatos de resistência e luta, Alier atinge plenamente o objetivo que se prefigurava com o seu livro, ou seja, o de observar de perto "o crescimento de um movimento global pela justiça ambiental que pode conduzir a economia rumo à adequação ecológica e à justiça social".

Dos movimentos sociais ao nascimento de uma esquerda global

A "green economy" é a expressão que evoca uma desejável mudança nas relações entre a produção e a proteção do ambiente. Fala-se de "economia verde" há mais de uma década, mas foram Al Gore e Barack Obama que a levaram para a frente dos refletores do grande público. O primeiro, por meio de sua atividade de produtor independente, a impôs como um tema central da agenda mundial. Um trabalho de denúncia premiado em 2007 com o Nobel da paz. O presidente dos EUA, por sua vez, indicou na "green economy" a porta de saída da crise econômica. Mas além da versão "mainstream", a ecologia é também o eixo em torno ao qual gira a proposta de refundar a "esquerda política", à luz dos movimentos sociais em defesa do meio ambiente, de crítica a multinacionais agroalimentares e aos faraônicos projetos de "modernização". É esse o fio condutor do livro "The rise of the global left", escrito pelo estudioso brasileiro Boaventura de Sousa Santos e publicado pela editora Zed Books (www.zedbooks.co.uk).

O perigo da utopia


"Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional".

A análise é de José Luís Fiori, cientista político, professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro, em artigo publicado pela Carta Maior, 11-08-2009 e pelo jornal Valor, 12-08-2009.

Eis o artigo.



"...a geopolítica do equilibro de poderes e a prática do imperialismo explícito deixaram de fazer sentido devido a uma série de novos fatos históricos [...], esta abordagem das relações internacionais não tem mais espaço no mundo em que vivemos, do pós-colonialismo, da globalização, do sistema político global, e da democracia [...] com a globalização, todos os mercados estão abertos e é inimaginável que um país recuse vender a outro, por exemplo, petróleo a preço de mercado..[...] Resulta ainda daqueles fatos que a guerra entre grandes países tambem não faz mais sentido [...] No século XX, as guerras entre as grandes potências não faziam sentido porque todas as fronteiras já estavam definidas?" (LUIZ CARLOS BRESSER PEREIRA, "O mundo menos sombrio", Jornal de Resenhas, nº 1, 2009, USP, p:7. )


Na segunda metade do Século XX, em particular depois de 1968, tornou-se lugar comum a crítica dos "novos filósofos" europeus, que associavam a utopia socialista ao totalitarismo. Mas não se ouviu o mesmo tipo de reflexão, depois da década de 80, quando a utopia liberal se tornou hegemônica e suas idéias tomaram conta do mundo acadêmico e político. Logo depois da Guerra Fria, Francis Fukuyama popularizou a utopia do "fim da história" e da vitória da "democracia, do mercado e da paz". E apesar dos acontecimentos que seguiram, suas idéias seguem influenciando intelectuais e governantes, sobretudo na periferia do sistema mundial.

Basta ver a confusão causada pelo anúncio recente da decisão norte-americana de ampliar sua presença militar na América do Sul. Com a instalação ou ampliação de sete bases militares no território colombiano, que deverão servir de "ponto de apoio para transporte de cargas e soldados no continente e fora dele".( FSP,5/8/09) O governo norte-americano justificou sua decisão com objetivos "de caráter humanitário e de combate ao narcotráfico". A mesma explicação que foi dada pelo governo americano, por ocasião da reativação da sua IV Frota Naval, na zona da América do Sul, no ano de 2008 : "uma decisão administrativa, tomada com objetivos pacíficos, humanitários e ecológicos" (FSP, 9/0708).

Uma das funções dos diplomatas é participar deste jogo retórico que às vezes soa até um pouco divertido. E cabe aos jornalistas o acompanhamento destes debates sobre distâncias, raio de ação dos aviões, ameaça das drogas, etc. Todavia os intelectuais têm a obrigação de transcender este mundo da retórica e dos números imediatos, e também, o mundo das fantasias utópicas, o que as vezes não acontece, e não se trata - evidentemente - de um problema de ignorância. Pense-se, por exemplo, na utopia liberal do "fim das guerras" que já não fariam mais sentido entre os grandes países, e contraponha-se este tese com a história passada e a história do próprio século XX e XXI.

Segundo a pesquisa e os dados do historiador e sociólogo norte-americano, Charles Tilly: "de 1480 a 1800, a cada dois ou três anos iniciou-se em algum lugar um novo conflito internacional expressivo; de 1800 a 1944, a cada um ou dois anos; a partir da Segunda Guerra Mundial, mais ou menos, a cada quatorze meses. A era nuclear não diminuiu a tendência dos séculos antigos a guerras mais freqüentes e mais mortíferas [ alias] , desde 1900, o mundo assistiu a 237 novas guerras, civis e internacionais.. [enquanto.] o sangrento século XIX contou 205 guerras" (Charles Tilly, Coerção, capital e Estados europeus , Edusp, 1996, p. 123 e 131.) Mesmo na década de 1990, durante os oito anos da administração Clinton, que foi transformado na figura emblemática da vitória da democracia, do mercado e da paz, os EUA mantiveram um ativismo militar muito grande. E ao contrário da impressão generalizada, "os Estados Unidos se envolveram em 48 intervenções militares, muito mais do que em toda a Guerra Fria, período em que ocorreram 16 intervenções militares". (Bacevich, 2002: p:143). E mais recentemente, os "fracassos" militares dos EUA, no Iraque e no Afeganistão - ao contrário do que dizem - aumentaram a presença militar dos EUA na Ásia Central e o cerco da Rússia e da China, envolvendo, portanto, preparação para a guerra entre três grandes potências.

Em tudo isto, fica clara a dificuldade intelectual dos liberais conviverem de forma inteligente, com o fato de que as guerras são uma dimensão essencial e co-constitutiva do sistema mundial em que vivemos, e que portanto não é sensato pensar que desaparecerão. Ao contrário do que pensam os liberais, a associação entre a "geopolítica do equilíbrio de poderes" e as guerras, não se restringe ao século XIX, ( já havia sido identificada na Grécia), e o sonho do "governo mundial" das grandes potências, já existe pelo menos desde o Congresso de Viena, em 1815, sem que isto tenha impedido o aumento do numero dos estados e das guerras nacionais.

Neste tipo de sistema mundial, por outro lado, é muito difícil acreditar na possibilidade do "fim do imperialismo", e ainda menos, neste início do século XXI, em que as grandes potências - velhas e novas - se lançam sobre a África, e sobre a América Latina, disputando palmo a palmo o controle monopólico dos seus mercados e das fontes de energia e matérias primas estratégicas. E soa quase ingênua a crença liberal nos "mercados abertos", num mundo em que todas as grandes potências impedem o acesso às tecnologias de ponta, não aceitam a venda de suas empresas estratégicas, e protegem de forma cada vez mais sofisticada seus produtores industriais e seus mercados agrícolas.

Neste ponto, chama atenção a facilidade com que os economistas liberais confundem os mercados de petróleo, armas e moedas, por exemplo, com os mercados de chuchu, queijos e vinhos. Em tudo isto, o importante é que a utopia liberal também pode ter conseqüências nefastas, sobretudo para os países que não estão situados nos primeiros escalões da hierarquia de poder do sistema mundial. Se as utopias de esquerda levaram - em muitos casos - ao totalitarismo, a utopia liberal e sua permanente negação do papel do poder e da preparação para a guerra, na história do capitalismo e das relações internacionais, leva, com freqüência, os intelectuais e dirigentes destes países mais fracos, à uma posição de servilismo internacional.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

Um balanço da AVAAZ


Este Blog retransmite um comunicado da AVAAZ - um balanço de suas atividades recentes:



Amigos,



Nós recebemos milhares de emails nos parabenizando e agradecendo pelo relato sobre as últimas campanhas da Avaaz - caso você não viu, leia abaixo o que conquistamos nos últimos meses! A nossa comunidade cresceu rapidamente e está se tornando realmente extraordinária, com uma agilidade e impacto de campanha intensos. Somente nas últimas 10 semanas nós organizamos 9 campanhas nacionais e globais, lidando com assuntos desde mudanças climáticas passando pelo Irã e Guantanamo. Ainda há muito o que fazer sobre todos estes assuntos, mas juntos estamos contribuindo de uma forma poderosa. Veja os destaques das últimas 10 semanas.

Amazônia brasileira - Os membros brasileiros da Avaaz fizeram 14.000 telefonemas e enviaram 30.000 emails para o Gabinete do Presidente Lula em poucos dias(!), revertendo de última hora a medida provisória que iria entregar uma boa parte da Amazônia para o agronegócio para exploração intensiva. Esta foi uma vitória inclusive contra as mudanças climáticas já que a Amazônia é responsável por captar gases de efeito estufa que estão causando o aquecimento do planeta.

Encontro do G8 - Semana passada 130.000 membros da Avaaz assinaram em 48 horas a petição para os países do G8 pedindo a limitação do aquecimento do planeta em 2 graus Celsius, buscando envergonhar os três países que estavam bloqueando as negociações. A petição foi entregue durante o G8 ao Primeiro Ministro do Reino Unido, Gordon Brown (veja a imagem à direita), junto com cartões postais personalizados gigantes.

Do lado de fora do encontro, os membros da Avaaz tiraram a roupa, usando apenas bikinis e sungas verdes, em uma encenação com muito humor para passar a mensagem da campanha. A ação gerou uma grande atenção da mídia (foto à direita). Enquanto isso parceiros da Avaaz aumentaram a pressão na Itália e no mundo todo. Os países que estavam bloqueando as negociações resistiram, mas acabaram concordando com a meta de 2 graus Celsius! Porém, eles falharam em definir ações específicas de como implementar a meta. Nosso desafio agora é garantir que os líderes políticos mantenham seu compromisso com a assinatura de um tratado global vinculante durante o Encontro da ONU sobre mudanças climáticas em Copenhague em dezembro.

Protestos no Irã - Nossa comunidade rapidamente respondeu à crise eleitoral no Irã com uma pesquisa de opinião para saber o que pensa o povo iraniano. Pedimos também para líderes globais não reconhecerem o resultado até que a repressão aos protestos terminassem, e arrecadamos fundos para apoio tecnológico para facilitar o livre acesso dos iranianos à Internet. A forte repressão que se agravou depois dos primeiros protestos dificultou a elaboração da pesquisa de opinião (deveremos ter resultados semana que vem), porém arrecadamos mais de cem mil dólares para o apoio tecnológico de acesso à Internet para os iranianos poderem se comunicar livremente. A situação do Irã permanecem incerta, e nós continuaremos a apoiar a liberdade de expressão e nos opor aos que se aproveitam desta crise para justificar uma ação militar contra o Irã.

Metas climáticas do Japão - No Japão, nós denunciamos as intenções do Primeiro Ministro Taro Aso em definir metas climáticas fracas e insuficientes, o que poderia levar outros países a serem menos ambiciosos também. Financiado por pequenas doações online, a Avaaz encomendou uma pesquisa que mostrou que 63% dos japonese queriam metas mais fortes contra as mudanças climáticas. Publicamos o resultado na imprensa na forma de um anúncio de página inteira no maior jornal empresarial do Japão e no mangá preferido do Aso (veja ao lado). Internacionalmente, a Avaaz publicou um anúncio de página inteira no Financial Times. Mem bros da Avaaz se mobilizaram publicamente se reunindo com os representantes do Japão nos encontros de Paris e Bonn.

Finalmente o Primeiro Ministro anunciou metas mais fortes do que as indústrias poluidoras queriam -- porém ainda muito longe de serem o suficiente para impedir as consequencias catastróficas das mudanças climáticas. Nós então dobramos a pressão com uma conferência de imprensa altamente coberta por jornalistas internacionais, mostrando o Primeiro Ministro japonês como "George W. Aso" -- comparando ele ao Bush por se posicionar contra propostas mais fortes para conter o aquecimento global.


Libertem os presos políticos da Birmânia - Mais de 400.000 pessoas assinaram a petição para o Secretário Geral da ONU Ban Ki Moon pedindo para ele priorizar a libertação da Prêmio Nobel da Paz e presa política Aung San Suu Kyi e outros prisioneiros políticos da Birmânia. A petição foi entregue em uma reunião com o gabinete do Ban Ki Moon e numa conferência de imprensa na ONU em Nova York. O Secretário Geral da ONU fez uma declaração forte pela libertação de Suu Kyi e viajou para Birmânia para tentar se reunir com ela, porém foi recusado pela junta militar. A pressão internacional fez com que a junta adiasse o novo julgamento para estender a sentença da Aung San Suu Kyi, porém será preciso uma pressão muito maior para garantir a sua libertação.

Estados Unidos e Tortura - Uma campanha global para arrecadar fundos, junto com uma petição para acabar com a tortura e fechar o presídio de Guantanamo, permitiu que a Avaaz comprasse um outdoor de 9 andares a poucos quarteirões da Casa Branca, no centro de Washington DC. De última hora a empresa de outdoor se recusou a colocar o anúncio apesar de alguns membros do congresso dos EUA, que são contra Guantanamo, se oferecerem para apresentar o outdoor em uma conferência de imprensa. A Avaaz agora garantiu uma forma alternativa para entregar a nossa mensagem audaciosa, que irá chacoalhar Washington DC com o nosso chamado por justiça.

Conferências da ONU sobre Mudanças Climáticas - No encontro sobre mudanças climáticas em Bonn, membros alemães da Avaaz participaram de uma ação de nossos parceiros onde 500 pessoas soletraram "Yes You Can" (slogan de campanha do Obama), uma mensagem para os líderes, e principalmente o Obama, sobre as negociações climáticas (veja à direita). A ação chamou atenção para a falta de ambição das negociações. A Avaaz também enviou uma equipe de 16 pessoas para acompanhar e se reunir com os representantes das delegações presentes, incluindo membros de 10 países que participaram pressionando os negociadores dos seus países.

Peru - A Avaaz se juntou a grupos indígenas locais e aliados políticos para entregar uma petição global contra as leis que iriam causar uma devastação massiva da amazônia peruana. Publicamos o anúncio ao lado em um dos jornais mais importantes do Peru. O anúncio gerou muita atenção e junto com a pressão política doméstica, conseguimos que o congresso peruano revogasse as leis controversas!

Israel - O Primeiro Ministro Netanyahu preparou um discurso para responder à fala histórica do Presidente Obama no Cairo, em que ele pediu para Israel parar com os assentamentos ilegais em terras palestinas. Nós publicamos um anúncio de página inteira em um dos jornais mais importantes de Israel - o Haaretz - entregando uma petição dos membros da Avaaz de Israel e do mundo inteiro pedindo para o Netanyahu seguir as recomendações do Obama e parar com os assentamentos. Até agora o Netanyahu recusou, mas nós estamos ajudando a construir uma campanha inédita, levando a questão dos assentamentos para a opinião pública israelenses e globais.

As petições, campanhas de captação, manifestações e lobby político que a nossa comunidade está fazendo está tendo um impacto incrível. A Avaaz cresceu mais de 50.000 pessoas por semana, tendo agora mais de 3,6 milhões de cidadãos engajados em todos os países do mundo. Nós somos realmente globais, operando em 14 línguas, já temos 25.000 membros em Singapura, 35.000 na África do Sul, 130.000 na Itália, 50.000 no México... Nunca antes houve uma comunidade como a nossa, capaz de responder rapidamente a questões globais e mobilizar de forma eficaz o poder da sociedade civil global para as maiores necessidades e preocupações da humanidade -- isto é um grande motivo de esperança!

Nesta jornada emocionante, estamos ansiosos pelas próximas 10 semanas, e 10 meses, e 10 anos juntos!

Com esperança,

Ricken, Alice, Pascal, Ben, Veronique, Paul, Graziela, Brett, Raluca, Luis, Raj, Milena, Paula, Iain, Taren, Margaret e toda a equipe Avaaz

PS - para ver os destaques das campanhas da Avaaz em 2007 e 2008, e deixar um comentário, clique aqui:

https://secure.avaaz.org/po/report_back_2/



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SOBRE A AVAAZ

Avaaz.org é uma organização independente sem fins lucrativos que visa garantir a representação dos valores da sociedade civil global na política internacional em questões que vão desde o aquecimento global até a guerra no Iraque e direitos humanos. Avaaz não recebe dinheiro de governos ou empresas e é composta por uma equipe global sediada em Londres, Nova York, Paris, Washington DC, Genebra e Rio de Janeiro.

Avaaz significa "voz" em várias línguas européias e asiáticas.

Pegada aquática


Brasil é o maior exportador de ‘água virtual’ para a Alemanha


Estudo do WWF afirma que o Brasil gasta 5,7 bilhões de metros cúbicos anuais de água na produção de mercadorias que serão consumidas na Alemanha, principalmente café, soja e carne.

A reportagem é de Nádia Pontes, e publicada pelo sítio Deutsche Welle, 04-08-2009.

A Alemanha consome por ano 159,5 bilhões de metros cúbicos de água, o equivalente a três vezes o volume do Lago de Constança. O número foi apresentado nesta segunda-feira (03/08) pelo WWF, organização mundial ambientalista.

Segundo o estudo, cada cidadão alemão consome em média 5.288 litros por dia do recurso natural, o que corresponde ao volume de 25 banheiras cheias. Para chegar a esse número, o estudo do WWF levou em consideração o consumo direto e também o indireto, como, por exemplo, a água usada no cultivo de alimentos e nos processos industriais.

Segundo a organização, cada pessoa na Alemanha consome em média 124 litros de água por dia pelo uso direto, ao abrir a torneira. A quantidade de água consumida por uma pessoa, empresa ou país é o que os ambientalistas chamam de pegada aquática.

Água virtual importada

O estudo do WWF aponta que aproximadamente metade da água consumida pela Alemanha é importada, ou seja, foi utilizada em outros países no processo de produção de mercadorias compradas pela Alemanha. É o que a organização chama de água virtual.

A agricultura é o setor que mais consome água: 117,6 quilômetros cúbicos – 73% do total anual. Mais da metade é importada: a maior parte da água virtual está nos produtos agrícolas importados do Brasil (5,7 bilhões de metros cúbicos, utilizados principalmente na produção de café, soja e carne), da Costa do Marfim (4,2 bilhões) e da França (3,5 bilhões).

Só o consumo anual de café e cacau na Alemanha, por exemplo, requer 20 quilômetros cúbicos de água virtual. As carnes de vaca e de porco importadas também têm essa característica, além de sementes oleaginosas, como oliva, palma e algodão.

Na segunda posição no ranking de consumo de água na Alemanha está a indústria, com 36,4 bilhões de metros cúbicos por ano. O uso doméstico, que é de 5,5 bilhões de metros cúbicos, vem em terceiro.
"O consumo de água não é algo ruim, mas faz parte de uma atividade natural", explica Martin Geiger, do WWF. O ambientalista alerta, entretanto, que é preciso prestar atenção na quantidade e nas condições em que o recurso é retirado na natureza.

Para o WWF, leis de responsabilidade sobre o uso da água deveriam ser criadas. Assim, cada país poderia verificar o quanto de água foi consumida nos produtos na hora de negociar a importação. Este recurso poderia, consequentemente, ajudar a Alemanha a reduzir a sua pegada aquática.

Origem do conceito

O conceito "água virtual" foi criado em 1990 pelo cientista inglês John Anthony Allan. O termo leva em consideração o volume de água utilizado, o quanto do recurso evapora ou fica poluído nos processos de produção.

A confecção de um par de sapatos de couro, por exemplo, consome 8 mil litros de água. A produção de um hambúrguer, 2,4 mil litros. O cultivo de algodão suficiente para fabricar uma camiseta consome 4 mil litros do recurso. Cada quilograma de açúcar contém, aproximadamente 1,5 mil litros de água virtual.

O termo "pegada aquática" partiu do conceito água virtual e pode ser usado tanto para indivíduos como para empresas e países.

Bases norte-americanas na Colômbia


As sete áreas que serão ocupadas por diferentes tipos de instalações militares americanas em território da Colômbia já estão sendo utilizadas pelo contingente dos EUA. O acordo firmado pelo presidente Álvaro Uribe "vai apenas regularizar um fato", disse ontem o senador e ex-ministro da Defesa Rafael Pardo.

A reportagem é de Roberto Godoy e publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo, 05-08-2009.

Nem todos os pontos receberão bases. Em Larandia, no sul do país, os consultores do Pentágono montaram o núcleo de inteligência das operações de repressão à guerrilha e ao narcotráfico. Assumindo o controle, vão expandir o centro de informações, que vai incorporar novos sistemas eletrônicos de alta tecnologia. No complexo de Tolemaida estão concentrados os programas de treinamento, reciclagem de pessoal e alojado o maior grupo de terceirizados, o amplo quadro de soldados profissionais fornecidos por empresas especializadas como a poderosa DynCorp.

O foco do plano mais ambicioso está fechado em Cartagena e Málaga, formando um arco entre o Mar do Caribe e o Oceano Pacífico. No sítio de Cartagena deve ser ativada uma ampla base aeronaval. Rafael Pardo acredita que terá recursos para dar apoio a eventuais forças-tarefa, formadas por vários navios. Na pequena Bahia Málaga, funciona um conjunto de logística e estocagem de material. O local todavia é visto como estratégico.

O ponto de amarração de todo o sistema é, todavia, a Base Aérea de Palanquero, com uma pista moderna de 3 mil metros e grandes hangares. É ao vértice de um triângulo formado pelas unidades de Malambo, no litoral Atlântico e Apiay, no centro geográfico da Colômbia. A função dessas facilidades é substituir e ampliar o trabalho da Base de Manta, que funcionava no Equador e foi desativada.

Grandes jatos E-3 Sentinela, versão especializada do Boeing 707, precisam realizar 1.600 missões de inteligência por ano.Os aviões, do 478º Esquadrão Expedicionário, são escoltados por caças F-16 e F-15 deslocados dos EUA e, nessa tarefa, agregados à 429ª Esquadrilha. Durante o voo, monitorados por radares de longo alcance instalados em Soto Cano, Honduras, os caças permanecem sobre águas internacionais - prontos para entrar em ação, mas, até agora, sem causar protesto pela invasão do espaço aéreo.

O fim da crise e o capitalismo que virá



A questão dominante hoje se refere à sustentabilidade do crescimento. E, para enfrentá-la, devemos encontrar indicadores alternativos ao PIB. É desejável uma mudança radical na relação entre economia e política, no plano das relações internacionais, do destino dos recursos e das finanças.

Essa é a opinião do político italiano e ex-ministro da República, Giorgio Ruffolo, em artigo para o jornal La Repubblica, 04-08-2009. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o artigo.

A atenção voltada à crise se concentra geralmente na questão da sua duração. Poucos se perguntam se e como, depois da crise, a economia capitalista mudará.

Durante a grande crise dos anos 30 – a que mais se assemelha à atual – não eram poucos os que pensavam que o fim da crise coincidiria com o fim do capitalismo. Com efeito, não faltou muito. Hoje, ninguém apostaria um euro. E nem um dólar. O capitalismo não será eterno. Mas é certo que ele não tem os dias contados. Talvez, os séculos.

Há três formas bem consolidadas que o capitalismo introduziu na sociedade moderna e que parecem historicamente duradouros: o primado da economia como motor da história; o primado do capital na estrutura da economia; o primado do mercado na sua regulação. Essas três características estão na base da quarta: o movimento de crescimento contínuo que o capitalismo imprimiu na economia mundial.

Essas características, as três primeiras principalmente, fazem do capitalismo um sistema praticamente insustentável. A sua alternativa mais grandiosa, a comunista, naufragou. E não merece nostalgias.

Isso não significa que tudo deve voltar a ser como antes. Essa, mais do que uma previsão, é uma aspiração ideológica. Voltar, depois de uma custosa parada, ao usual: "il carro stride del passegger che il suo cammin ripiglia" [a carroça range por causa dos passageiros que retomam seu caminho]. Será assim? Não acredito. O capitalismo conta os séculos, mas muda, a cada tanto, a conta. Houve um capitalismo liberal, um protecionista, um keynesiano, um liberal, cada um profundamente diferente do outro. Esta última está saindo da crise com os ossos quebrados. Parece razoável perguntar se o capitalismo que sairá dessa crise será muito diferente daquele que nela entrou: e em quê.

Percorramos rapidamente as três características duradouras do capitalismo. É (quase) certo que o motor da história continuará sendo a economia (aquele "quase" precisaria de um discurso diferente que obviamente desconsideraremos aqui). Mas o motor age em uma máquina que pode mudar. As máquinas políticas, dentre as quais o capitalismo agiu, foram caracterizadas por diversas hegemonias nacionais: a italiana, a holandesa, a britânica, a norte-americana.

No último século, a hegemonia norte-americana foi incontestável. Será também no futuro? A crise colocou-a sob dura prova. E, enquanto isso, surgiram novas potências políticas: Índia e China. Para não falar das potências econômicas multinacionais que são capazes de se eximir também da influência da Superpotência política. Tudo isso determina uma condição de desordem econômica mundial que esta última não é capaz de dominar.

Segundo ponto. Por meio da globalização e da financiarização, a prevalência do capital se tornou preponderância, com consequências ingovernáveis de instabilidade e perigosamente conflitantes de iniquidade. Uma economia constantemente exposta à inflação e ao afrouxamento das bolhas especulativas não é o quadro ideal para a difusão do bem-estar.

Terceiro ponto. A mercantilização da economia introduziu, no sistema, dois fatores socialmente desagregadores. O primeiro é o desequilíbrio entre a superabundância dos consumos privados e a pobreza dos bens sociais (escola, saúde, cultura, solidariedade, meio ambiente). O segundo, ainda mais grave, é a mercantilização das regras. Se as regras do jogo entram no jogo, o jogo se destrói. Se os árbitros podem ser comprados, não ocasional e criminalmente, mas "regularmente", não existe mais partida. Isso ocorreu vistosamente nos fenômenos colusivos da crise atual e na mercantilização de títulos que deveriam ser instrumentos de garantia e não objetos de especulação.

Esses três aspectos, em si sós, justificariam uma mudança radical da relação entre economia e política: no plano das relações internacionais das trocas e dos câmbios; no da distribuição dos recursos entre economia e finanças, entre capital e trabalho; no do destino dos recursos, entre bens privados e bens públicos e da distinção entre contratos e produtos, entre mercadorias e regras de câmbio.

Resta o quarto aspecto decisivo, que é hoje obscurecido pela preocupação dominante de sair de qualquer forma e o mais rápido possível da crise: o da sustentabilidade do crescimento. Deveria ser a questão dominante. Hoje, somos guiados por um indicador enganoso, o PIB, que viola o princípio fundamental da economia, a distinção entre renda e custo: um verdadeiro absurdo, para não dizer uma vergonha.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

Energia: Sol da África para eletrificar a Europa ?


Doze companhias alemãs uniram-se para implementar o ambicioso plano de cobrir, até 2020, pelo menos 15% da demanda de eletricidade da Europa com usinas termosolares instaladas na África setentrional. Entre essas empresas signatárias da Iniciativa Industrial Desertec estão as maiores firmas alemãs em vários setores: bancário (Deutsche Bank), seguros (Muenchener Rueca), elétrico (E.on e RWE) e o gigante da eletrônica Siemens. Elas planejam investir cerca de 400 bilhões de euros (US$ 560 bilhões) em instalações e na modificação da matriz energética européia, de modo a permitir a chegada de eletricidade através do mar Mediterrâneo. As centrais termosolares também forneceriam energia para a África setentrional.

A reportagem é de Julio Godoy, da IPS e publicada pela Envolverde, 30-07-2009.

O plano responde a estudos realizados pelo Clube de Roma, uma organização independente dedicada ao fomento do desenvolvimento, e ao estatal Centro Aeroespacial Alemão. Na promoção e implementação do projeto teve papel fundamental a Fundação Desertec, integrada por personalidades da Europa, do Maghreb e do Oriente Médio, dedicada a desenvolver mecanismos sustentáveis de produção e fornecimento de energia para essas regiões. “Queremos lançar uma sociedade de risco compartilhado e criar planos concretos para a Desertec nos próximos dois ou três anos”, disse à IPS o diretor da Muenchener Rueck, Torsten Jeworreck.

“A energia solar limpa é o futuro da Siemens”, disse o gerente-geral da companhia, Peter Loescher, no mês passada em uma entrevista coletiva. “Nossa empresa, e toda a economia, será mais verde após encerrada” a atual crise econômica. A Siemens “participará ativamente” da Iniciativa Industrial Desertec, acrescento. “As catástrofes ambientais causadas pela mudança climática são, no longo prazo, um problema maior do que a atual crise financeira”, disse Jeworrek. “Nossas estatísticas sobre seguros das últimas décadas dizem que as catástrofes crescem entre 3% e 4% a cada ano”, acrescentou.

Estimativas de especialistas alemães em energia indicam que a eletricidade produzida na África setentrional poderia custar cerca de 0,06 euros por quilowatt/hora. Em outras fontes, o custo atual varia de 0,025 a 0,05 euros. “Praticamente, todos os especialistas concordam que o preço da eletricidade aumentará nos próximos anos”, disse à IPS Bernd Schuessler, da revista alemã Photon, especializada em energia. O Centro Aeroespacial Alemão e o Clube de Roma calcularam que um investimento de 400 bilhões de euros nos programas da Desertec podem conseguir a instalação de uma capacidade de produção elétrica de 100 gigawatts até 2050.

Esta relação entre custo e beneficio é extremamente vantajosa em relação, por exemplo, com a de Olkiluoto 3, uma central nuclear em construção na Finlândia que custará 5 bilhões de euros e terá capacidade de gerar 1,6 gigawatts. O custo não inclui o manejo dos lixo radioativo nem de outras dificuldades técnicas próprias dos reatores nucleares. O custo estimado das centrais termosolares noMaghreb inclui uma rede subterrânea de cabos de alto rendimento através do mar Mediterrâneo. “Em distancias de 500 ou 600 quilômetros, os cabos custam apenas entre 10% e 20% mais do que a rede aérea e não emitem radiação eletromagnética”, segundo o Centro Aeroespacial.

Especialistas e ativistas ambientalistas aplaudiram a iniciativa Desertec. “O projeto é uma das respostas mais inteligentes aos problemas ambientais e econômicos de nosso tempo”, disse à IPS Andree Boehling, especialista em energia do Greenpeace Internacional. “Ao que parece, uma parte importante do empresariado alemão se deu conta de que é hora de ampliar o uso das fontes renováveis de energia e de dizer adeus aos combustíveis fósseis e às centrais nucleares”, acrescentou. Segundo o ministro do Meio Ambiente da Alemanha, Signar Gabriel, o projeto é “uma excelente idéia, tanto por suas implicações na política energética européia quanto em seu caráter de programa de desenvolvimento para a África setentrional”.

As centrais termosolares, em uso comercial desde 1985, usam espelhos e lentes de aumento para concentrar a energia solar de modo a aumentar a temperatura da água em recipientes e produzir eletricidade com a passagem do vapor resultante através de turbinas. O calor residual do processo de produção de eletricidade “pode ser usado para retirar o sal da água marinha”, disse o Clube de Roma. “Se for produzida mais energia de origem solar do que a consumida durante o dia, o excedente pode ser armazenado em baterias e usado durante a noite”, acrescentou. “As turbinas também funcionam com gás natural, por isso podem fornecer eletricidade sem interrupção em períodos em que o clima não é propício” para produzir com a luz solar, afirma o estudo do Clube de Roma.

O projeto beneficiará as duas regiões, disse à IPS Franz Trieb, do Centro Aeroespacial. “Não será uma nova colonização energética do mundo árabe”, afirmou. “Pelo contrário, ajudará os Estados da África setentrional e do Oriente Médio a cobrir sua crescente demanda com recursos renováveis e próprios”. O projeto da Desertec não está livre de críticas. O legislador social-democrata alemão Hermann Schee, também presidente do Conselho Mundial para as Energias Renováveis, o considera “outro supérfluo gerado gigante”. Scheer prefere apoiar a instalação de usinas solares e eólicas de pequeno porte.

“O fator decisivo na avaliação econômica das fontes renováveis de energia não é a razão entre eletricidade produzida e intensidade da fonte, mas entre a produção e o investimento”, disse o legislador. Segundo Scheer, uma simples operação aritmética mostra que “uma rede descentralizada de pequenos geradores solares e eólicos é mais eficiente do que projetos maiores, devido ao menor custo do transporte da eletricidade” através dos cabos. Os já numerosos geradores solares de eletricidade instalados na Alemanha “podem competir com a energia solar do deserto do Saara. Neste país estamos a ponto de reduzir ainda mais os custos através da instalação de painéis solares em tetos e fachadas de edifícios”, acrescentou.

Desde outro ponto de vista, o projeto Desertec é “excessivamente caro”, segundo Lars Josefsson, gerente-geral da Vantenfall, uma das principais companhias de energia da Europa, e assessor da Organização das Nações Unidas e da chanceler alemã, Angela Merkel. Os custos do transporte da energia do Maghreb até a Europa através do Mediterrâneo “seriam muito elevados. Para mim, o projeto não é viável”, afirmou Josefsson.



Fonte: http://www.ihu.unisinos.br/index.ph